Correio Braziliense, n. 19265, 23/02/2016. Política, p. 4

Petistas tentam se descolar de denúncia

Paulo de Tarso Lyra 

Marqueteiro vitorioso, que trabalhou na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no momento mais agudo da crise petista na década passada — o escândalo do mensalão, em 2005 —, responsável pela eleição e reeleição da presidente Dilma Rousseff e pelas principais estratégias de comunicação da gestão petista ao longo dos últimos, João Santana foi rifado ontem pelo PT. No dia em que teve a prisão decretada na 23ª fase da Operação Lava-Jato, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse que a legenda “não tinha nada a ver com João Santana”.

Ontem, ao apresentar aos jornalistas a propaganda partidária que será veiculada hoje, Falcão limitou-se a defender a legenda. “Eu não posso falar sobre o João Santana. Posso falar sobre o PT. Todas as nossas doações eleitorais foram legais, feitas por transferência bancária, aprovadas pelo Tribunal Eleitoral e em valores compatíveis com as recebidas pelos candidatos de oposição”, disse.

O presidente do PT negou que Santana, que tem livre trânsito no Planalto e no Palácio da Alvorada, seja filiado ao PT. O marqueteiro foi responsável pelas campanhas vitoriosas de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo em 2012 e às fracassadas tentativas de eleição de Marta Suplicy em São Paulo (2008) e de Gleisi Hoffmann em Curitiba (também em 2008).

Falcão garantiu não temer os desdobramentos da Operação Lava-Jato e a linha de investigações da Polícia Federal que apontam o recebimento, por parte de Santana, de recursos em offshore oriundos do pagamento de propinas da Petrobras. “Eu sou do tempo em que os acusadores tinham que provar o que falavam. Defendo isso no caso de João Santana, dos ex-presidentes Lula e Fernando Henrique e do senador Aécio Neves (PSDB-MG)”, disse o petista.

 

Substituição

A propaganda partidária, que será veiculada na noite de hoje, não tem a assinatura de João Santana. Ela foi produzida por Edson Barbosa, que já trabalhou com o PT no passado, mas que, em 2014, foi responsável pela campanha presidencial do PSB de Eduardo Campos. “Não há nenhum problema nisso. As propagandas que passaram no semestre passado também não foram feitas por Santana, e sim, pelo Maurício”, esquivou-se Falcão, tentando afastar a hipótese de que o PT esteja tentando descolar-se do marqueteiro após a intensificação das investigações da Lava-Jato.

O Maurício citado por Falcão é Maurício Carvalho, ex-diretor de arte do próprio Santana e que montou uma produtora própria, a Malagueta Filmes. O caso de Edson é diferente, ele é rompido profissionalmente com Santana. Até mesmo o estilo de trabalho difere dos antecessores. Santana, a exemplo de Maurício, comanda seus programas com mão de ferro e apenas Falcão tinha acesso ao material que iria ao ar.

Já Edson é mais maleável. Segundo apurou o Correio, trechos inteiros da propaganda de hoje foram escritos pelo presidente do PT. A inserção de 10 minutos defende Lula das acusações da Lava-Jato, dizendo que elas são feitas “pelos mesmos que nunca aceitaram que um metalúrgico fizesse tanto pelos pobres brasileiros”.

 

FHC: denúncia de ex é “invenção”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou na noite de ontem que sua ex-amante Miriam Dutra mentiu ao afirmar que ele repassou recursos para ela por meio de contrato fictício com a empresa Brasif. “Não tem denúncia nenhuma, a própria empresa disse que não é verdade. Isso não existe, é invenção”, afirmou FHC na primeira entrevista coletiva após a divulgação da notícia, na semana passada. “Não vou entrar nessas coisas que são menores, estou preocupado com o Brasil. Não tenho nada a temer, a esconder, nada”, completou. Fernando Henrique disse que não fala há anos com Mirian e repetiu que não fala sobre assunto de foro pessoal.

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Delcídio a caminho da expulsão

Paulo de Tarso Lyra

Julia Chiab

Marcela Fernandes

 

O Diretório Nacional do PT, que se reúne na sexta-feira no Rio de Janeiro, começará a decidir o destino de Delcídio do Amaral (PT-MS). O senador, que foi libertado na última sexta-feira, está suspenso por 120 dias da legenda e teve o pedido de expulsão aprovado pela Executiva Nacional do PT. Se o Diretório convalidar o que foi decidido pela Executiva, ele será notificado e terá 10 dias para se defender, explicou o presidente do PT, Rui Falcão.

Falcão disse que, caso o processo contra Delcídio avance, ele só voltará a ser debatido no próximo Diretório Nacional do PT, que acontecerá, provavelmente, em meados de abril ou maio. O tema divide o partido e o governo. No Executivo, especialmente no Planalto, há quem defenda que a expulsão seria uma medida muito dura. Ele falou demais, vendeu uma mercadoria que não tinha como entregar. Mas não cometeu nenhum crime, disse um integrante do Executivo.

Mesmo assim, o Planalto corre para definir o novo líder do governo na Casa. A escolha deve recair sobre o atual líder do PT, Humberto Costa (PE), que já avisou, informalmente, topar o desafio. Caso isso ocorra, o líder da bancada será, provavelmente, Paulo Rocha (PA). A outra concorrente, Gleisi Hoffmann (PR), foi indicada pela bancada para presidir a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). A eleição, antes marcada para hoje, foi adiada.

Delcídio pode adiar a volta ao Senado, o que ocorreria hoje. Segundo a defesa, é necessário esclarecer algumas dúvidas, como em relação ao horário em que o parlamentar deve se recolher para retomar as atividades. Delcídio pretende retornar sereno e fará um discurso sem adotar um tom de revanchismo.

 

Foro privilegiado

O principal objetivo de Delcídio é manter o mandato de parlamentar, para evitar ser julgado pela Justiça Federal de Curitiba. O presidente do Conselho de Ética do Senado, João Alberto Souza (PMDB-MA), deve convocar para amanhã uma reunião do colegiado. A tendência é que o relator do caso, Ataídes Oliveira (PSDB-TO), seja trocado.

 

Enquanto ainda estava preso, o senador relatou a aliados que se tivesse o mandato cassado, delataria outros parlamentares. Ontem, em Plenário, parlamentares pediram que Delcídio explique a suposta fala e, se for o caso, dê os nomes de quem acusaria.