O Estado de São Paulo, n. 44.693, 28/02/2016. Política, p. A10

Prévias encerram trégua no PSDB-SP

Processo de escolha de candidato, que ocorre hoje, põe fim ao armistício selado em 2009 entre os tucanos Geraldo Alckmin e José Serra

Por: Pedro Venceslau

 

Depois de uma campanha interna marcada por denúncias e trocas de acusações, as prévias do PSDB, que acontecem neste domingo na capital, marcam o fim de uma trégua interna entre os dois principais polos de poder do partido em São Paulo e vão impactar a correlação de forças dos tucanos também no âmbito nacional.

O empresário João Doria, mesmo sem tradição de militância orgânica, representa o projeto de poder do governador Geraldo Alckmin, que tenta se viabilizar como candidato tucano à Presidência em 2018.

O vereador Andrea Matarazzo é aliado do senador José Serra, que não desistiu de chegar ao Palácio do Planalto depois de duas tentativas frustradas.

Desse grupo serrista, também fazem parte o senador Aloysio Nunes e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Sem padrinhos entre os cardeais do partido, o deputado federal Ricardo Tripoli conta com a simpatia de alguns aliados do senador mineiro Aécio Neves em São Paulo.

O dividendos de uma vitória de Tripoli serão depositados na conta de Aécio; os de Doria, na de Alckmin; e os de Matarazzo, na de Serra. Por isso, as prévias deste domingo, que pareciam ser uma solução para a ausência de um nome natural do PSDB em São Paulo, se transformaram em mais uma luta fratricida.

 

Divisão. O último grande racha do partido em São Paulo ocorreu nas eleições municipais de 2008, quando Serra, então governador, não se engajou na campanha de Alckmin à Prefeitura. Ele e seu grupo optaram por uma “neutralidade” que, na prática, beneficiou Gilberto Kassab,então aliado incondicional do hoje senador.

No ano seguinte, os projetos pessoais dos dois tucanos paulistas se alinharam quando Alckmin assumiu a Secretaria de Desenvolvimento de São Paulo.

Não havia outro plano de voo possível para o PSDB do Estado: lançar a candidatura de Serra ao Palácio do Planalto, frear as pretensões do governador Aécio e garantir uma sucessão sem riscos no Palácio dos Bandeirantes com Alckmin.

Deu certo, e os grupos de Serra e Alckmin conviveram sob um acordo tácito de paz que culminou com a reeleição do governador em 2014 e a eleição de Serra para o Senado.

Atualmente, porém, em cará- ter reservado, tucanos dos dois lados reconhecem que o cenário agora é bem diferente e a cisão das prévias aponta para um caminho sem volta. “Respeitando as posições do Aécio e do Serra, o Geraldo Alckmin é o meu candidato à Presidência em 2018. É possível e aceitável que essa minha posição pessoal tenha gerado algumas reações”, diz João Doria.

 

O mineiro. Um tucano de alta patente na direção nacional do PSDB observa que o senador Aécio Neves conseguiu, na eleição presidencial de 2014, algo impensável para um político mineiro em outros tempos: construir bases sólidas em São Paulo. Esse prestígio ficou evidente na disputa pela liderança tucana na Câmara.

Aliado de Aécio, Antônio Imbassahy (BA) venceu Jutahy Magalhães (BA), que é aliado de Serra, com votos de parlamentares paulistas.O fortalecimento de Aécio em campo “inimigo” preocupa os grupos de Serra e de Alckmin e tornam a vitória de seus apadrinhados nas prévias essencial.

 

Ímpeto. Alckmin reclamou a aliados ter se sentido emparedado por Serra e Matarazzo quando o vereador lançou sua pré- candidatura sem o consentimento do Bandeirantes.

O governador passou a buscar um nome capaz de se contrapor ao grupo de Serra. Os primeiros cotados, os secretários Alexandre de Moraes e Floriano Pesaro, não conseguiram se viabilizar.

Doria foi rápido ao aproveitar o aceno de Alckmin e se mostrou disposto a bater de frente com Serra e FHC. O empresário se lançou na disputa de maneira impetuosa e, na reta final, conquistou o apoio explícito de Alckmin: os dois votarão juntos hoje.Se Doria for derrotado, aliados de Alckmin avaliam que aumentarão as chances de o governador trocar o PSDB pelo PSB.Caso ninguém consiga maioria nas prévias, o segundo será no dia 20 de março.

Lado

“Respeitando as posições do Aécio e do Serra, o Geraldo Alckmin é o meu candidato à Presidência em 2018. É possível e aceitável que essa minha posição pessoal tenha gerado algumas reações”

João Doria

EMPRESÁRIO E CANDIDATO AO NOME DO PARTIDO NA DISPUTA EM SP

DISPUTA

Prévias que vão definir o candidato tucano à Prefeitura de São Paulo ocorrem hoje; filiados votam em 59 pontos espalhados pela cidade

Andrea Matarazzo

VEREADOR

Aliado do senador José Serra, foi eleito vereador em 2012 com 117.617 votos. Foi subprefeito, secretário de Serviços, de Subprefeituras, secretário de Estado de Energia, da Cultura, ministro de Comunicação e embaixador do Brasil na Itália.Tem o apoio de tucanos considerados históricos

Padrinhos:

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

JOSÉ SERRA

ALOYSIO NUNES FERREIRA

ALBERTO GOLDMAN

João Doria

JORNALISTA E PUBLICITÁRIO

Foi secretário de Turismo da cidade na gestão Mário Covas e presidente da Embratur. É fundador do Grupo de Líderes Empresariais, com mais de 1.600 empresas filiadas que representam 52% do PIB privado nacional. Apresenta o programa Show Business, na Band. Filiado ao PSDB desde 2000, nunca atuou de fato na legenda

Padrinho:

GERALDO ALCKMIN

Ricardo Tripoli

DEPUTADO FEDERAL

Foi líder estudantil na Faculdade de Direito da PUC-SP e elegeu-se vereador em 1982. No ano seguinte foi nomeado Secretário de Negócios Extraordinários pelo então prefeito Mário Covas. De volta à Câmara, foi líder do governo. Em 1990 foi eleito deputado estadual, sendo reeleito em 1994. Em 2007, chegou à Câmara dos Deputados

Padrinhos:

BRUNO COVAS

JOSÉ ANIBAL

Aptos a votar

27 mil filiados -  A LISTA ESTÁ DESATUALIZADA.NINGUÉM SABE AO CERTO O VERDADEIRO TAMANHO DO COLÉGIO ELEITORAL

Custo

20 mil reais - FOI O VALOR DE INSCRIÇÃO QUE CADA PRÉ-CANDIDATO PAGOU

Segundo turno

20 de março - SE HOUVER NOVA VOTAÇÃO, SERÁ NO MÊS QUE VEM

Em 2012

6.229 tucanos votaram

JOSÉ SERRA - 52,1 %

JOSÉ ANIBA - 31,2 %

RICARDO TRIPOLI - 16,7 %

ANDREA MATARAZZO E BRUNO COVAS DESISTIRAM NA RETA FINAL

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Órgãos relacionados:

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Expectativa é de que disputa tenha 2° turno

Por: Pedro Venceslau

 

A previsão das três campanhas tucanas é de que a disputa das prévias vá para o 2.º turno. Se isso acontecer, a nova consulta aos filiados do partido da capital paulista será realizada no dia 20 do próximo mês.

Porém, nem a possibilidade de ter de negociar apoio de um adversário no 2.º turno foi capaz de serenar os ânimos de Doria, Matarazzo e Tripoli.

Os tucanos reconhecem que, após o final do processo, o vencedor das prévias dificilmente contará com o engajamento concreto dos rivais depois de encerrado o confronto interno. A avaliação generalizada no partido é de que o acirramento do processo só beneficiou os adversários. “Até agora essa prévia está provocando muito desgaste entre a militância. Se isso se repetir no segundo, será péssimo”, afirma o ex-deputado José Aníbal. Aliado de Ricardo Tripoli, ele preside o Instituto Teotônio Vilela, braço do PSDB.

“Não vi nada parecido nos 40 anos de vida partidária. Não há como avaliar o estrago. É muito triste o que estamos vendo”, completa o ex-governador Alberto Goldman, que apoia Andrea Matarazzo.

Sem nenhum tipo de regulamentação, as prévias do PSDB na capital se transformaram em uma batalha sem precedentes na história do partido. Diante da troca pesada de acusações entre partidários de Doria e Matarazzo, que incluem uso de escuta ilegal e compra de votos, o deputado Ricardo Tripoli espera surgir como opção de “terceira via”. “É um equívoco fazer neste momento uma disputa pela Presidência da República”, diz o deputado.

Em tese, o colégio eleitoral tucano na capital é formado por 27 mil nomes, mas ninguém sabe ao certo quantos estão aptos a votar, já que o cadastro da sigla está desatualizado. A previsão é de que o resultado final seja divulgado por volta das 17h deste domingo. A apuração será na Câmara Municipal de São Paulo.

Nas prévias de 2012, o hoje senador José Serra venceu as prévias do PSDB ao receber 52,1% dos votos; seus concorrentes, o secretário estadual de Energia, José Aníbal, e o deputado federal Ricardo Tripoli, receberam, respectivamente, 31,2% e 16,7%. Ao todo, 6.229 militantes do partido votaram, sendo que Serra recebeu 3.176 votos, seguido de Aníbal (1.902) e Tripoli (1206). / P.V.

Senadores relacionados:

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Herdeiros de ‘mitos’ tucanos estão divididos

Na família Montoro há um racha entre Doria e Matarazzo; Tripoli é o preferido dos Covas

Por: Ricardo Chapola / Pedro Venceslau

 

O clima acirrado na reta final das prévias que definirão o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo dividiu as duas famílias tucanas mais tradicionais do Estado: os Covas e os Montoro.

Na disputa por apoios nos clãs dos dois ex-governadores, o deputado Ricardo Tripoli se consolidou como o preferido entre os Covas, enquanto o vereador Andrea Matarazzo e o empresário João Doria dividiram os Montoro.

“2016 é o ano do centenário do Montoro e faz 17 anos que ele morreu. Não lembravam muito dele em campanhas anteriores. É curioso que agora ele esteja no centro do processo das prévias”, afirmou Léo Coutinho, sobrinho-neto de Montoro.

Ele e sua mãe, Vera Montoro, apoiam Doria na disputa, mas dois filhos do ex-governador, Ricardo e Maria Lúcia, estão apoiando Matarazzo, enquanto André, neto de Montoro, e dirigente do grupo Conexão 45, ligado à juventude tucana, está trabalhando na campanha de Doria.

Ricardo Montoro gravou um vídeo de apoio à candidatura de Matarazzo que o vereador tem divulgado nas redes sociais. Na gravação, ele diz esperar que Matarazzo “trilhe caminhos mais ousados”. “Um abraço para o Andrea Matarazzo, um vereador brilhante. A gente espera que ele aceite a nossa convocação e vá trilhar caminhos mais ousados”, disse no vídeo.

Filiado ao PSDB desde o começo da década, mas sem tradição de militância na sigla, Doria tem usado imagens ao lado de Montoro na campanha interna e repetido em eventos e em entrevistas que foi um dos coordenadores de sua campanha ao governo paulista em 1982, quando foi eleito depois de vencer Luiz Inácio Lula da Silva.

Montoro foi uma das lideranças da campanha pela redemocratização e pelas eleições diretas para presidente da República. Ao lado de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, foi um dos líderes das Diretas, em 1984. Em 1988, foi um dos fundadores e presidente do PSDB.

O neto de Montoro gravou um vídeo apoiando João Doria, no qual afirma que o empresário “vai usar a tecnologia para a cidade melhorar”.

 

Covas. A maior parte da família do prefeito e governador de São Paulo, Mário Covas (1930-2001), apoia a candidatura de Tripoli, que, aos 28 anos, foi seu primeiro secretário de governo na Prefeitura de São Paulo. A filha, Renata, e o neto, Bruno, que é deputado federal, estão engajados na pré-campanha.

Renata integra o escritório político do deputado e, segundo ele, tem telefonado aos filiados do PSDB pedindo votos ao parlamentar. Já o vereador Mário Covas Neto, o Zuzinha, que também é filho do ex-governador, preferiu declarar-se neutro, já que é presidente municipal do PSDB. Covas Neto disse ao Estado que se manterá imparcial, mas que tende a rejeitar a hipótese de apoiar Tripoli.

 

“Eu estou neutro. E não devo me posicionar, mas, se fosse considerar o tratamento que recebi do Tripoli, Bruno (Covas) e José Aníbal, a candidatura do Tripoli é a mais distante”, afirmou./ RICARDO CHAPOLA e P.V.