Valor econômico, v. 16, n. 3966, 18/03/2016. Política, p. A10

Aécio não quer PSDB em governo Temer

Raphael Di Cunto

Thiago Resende

Em jantar com a bancada do PSDB na noite de quarta-feira, o presidente nacional do partido, senador Aécio Neves (MG), afirmou que a legenda não deve discutir a participação no governo com cargos, apurou o Valor. "Nosso projeto político não é esse", afirmou um tucano. Segundo Aécio, o PSDB é "peça-chave" para garantir a governabilidade de um futuro governo Michel Temer (PMDB) caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff prospere.

O jantar aconteceu na casa de um deputado de Minas Gerais e teve a presença de quase toda a bancada. O senador José Serra (PSDB-SP), próximo a Temer, tem trabalhado no sentido contrário e defendido nos bastidores que o partido faça parte formal do governo - o próprio Serra é cotado para um ministério de relevância.

"Queremos discutir uma pauta comum para o Brasil, que promova o desenvolvimento. Queremos que o PSDB garanta a governabilidade em cima dessa agenda, mas sem a ocupação de cargos ou indicações de nomes para o governo", afirma o vice-líder do partido na Câmara, Daniel Coelho (PE). "Até para dar exemplo de outras formas de governabilidade que não o toma lá dácá do PT."

Segundo o deputado Nelson Marchezan (RS), Aécio expôs que o partido deve concentrar todas as forças no impeachment. "Não tem mais outro caminho agora. O Tribunal Superior Eleitoral [TSE] é muito mais demorado e, se ocorresse a cassação da chapa, seria bem no futuro. Precisamos dar respostas já", diz.

A própria eleição do líder do PSDB em dezembro, Antonio Imbassahy (BA), já demonstrou essa disputa nos bastidores. Aécio reuniu sua base na época para apoiar o baiano, ante a tentativa de Serra de aumentar a influência na bancada com a eleição do deputado Jutahy Magalhães (BA) e trabalhar por uma aproximação maior com o PMDB.

Para o deputado Betinho Gomes (PE), é natural que o partido tenha pretensão de concorrer à Presidência novamente, mas é preciso esquecer de 2018 para dar uma resposta imediata. "O PSDB não pode se amesquinhar e pensar só na eleição daqui a três anos", afirma. "A preocupação agora é fazer o impeachment e não perder tempo falando de cargos ou outras composições."

 

No jantar, ainda de acordo com relatos, Aécio afirmou que os correligionários podem ficar tranquilos com as denúncias que surgiram até agora contra ele na Lava-Jato. "É tudo requentado e já foi alvo dos órgãos de investigação sem que houvesse nenhuma condenação", garantiu o tucano, sobre as acusações, feitas em delações premiadas, de que teria recebido dinheiro de Furnas e que seria beneficiário de uma conta no exterior. Deu ainda a linha do discurso: "Que se investiguem todos, não temos o que temer."