Por Maíra Magro | De Brasília
A Procuradoria-Geral da República (PGR) vai analisar se investiga a presidente Dilma Rousseff no episódioenvolvendo a nomeação do ministro Marcelo Navarro Dantas para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em suposta tentativa de soltar os presos da Operação Lava-Jato. Como próximos passos das investigações, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente, Michel Temer, também podem ser incluídos eminquéritos relacionados ao esquema de corrução da Petrobras. O principal líder da oposição, Aécio Neves (PSDB-MG), deve ser outro alvo de investigação.
As novas frentes surgiram com a homologação da delação premiada do senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS), ontem, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ato dá validade jurídica aos depoimentos, a partirdo qual diligências são feitas para checar o que foi dito e avançar na apuração dos fatos. Dilma, Temer, Lula e Aécio negam qualquer envolvimento nos episódios relatados por Delcídio.
Entre as menções feitas a Dilma, a nomeação de Navarro para o STJ é tida por procuradores como a mais grave. A presidente é citada como uma das supostas responsáveis por articular a entrada do ministro na Corte em troca de um compromisso de votar pela libertação dos presos da Lava-Jato.
Fontes que conhecem as investigações avaliam, porém, que será difícil obter provas que confirmem a suposta participação de Dilma, o mesmo valendo para o então ministro da Justiça e atual advogado-geral da União, JoséEduardo Cardozo, e o presidente do STJ, Francisco Falcão, também citados. Um dos fatores que devem pesar na decisão da PGR de abrir ou não inquérito é a possibilidade concreta de obter provas. Cardozo e Falcão também já negaram as afirmações do senador.
A delação de Delcídio também pode resultar em novas investigações contra Temer e Lula. Em uma frente, procuradores avaliam a possibilidade de incluir os dois no principal inquérito que corre no STF sobre a Lava-Jato, envolvendo atualmente cerca de 40 investigados, entre eles vários parlamentares. O objetivo desse inquérito é detalhar o funcionamento de um megassistema de corrupção com desvios para o PT, PMDB e PP.
As investigações se aproximam de Temer quando ele é citado por Delcídio como "padrinho" de João Henriques, ex-diretor da BR Distribuidora envolvido em um esquema de aquisição ilícita de etanol. Apontado como principal lobista do PMDB na Petrobras, Henriques já declarou ter feito pagamentos ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Lula também poderá ser incluído ainda, ao lado do pecuarista José Carlos Bumlai, na denúncia já feita ao STF contra Delcídio por tentativa de obstruir as investigações da Lava-Jato. Na acusação apresentada ao STF emdezembro, a PGR denunciou Delcídio, seu chefe de gabinete, Diogo Ferreira, o advogado Edson Ribeiro e o banqueiro André Esteves por tentarem comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.
Mas Delcídio narra uma história mais ampla na delação, dizendo que Lula seria o mandante da compra do silêncio de Cerveró. Segundo o senador, o financiador original do plano seria Bumlai - Esteves só teria entrado na jogada posteriormente. De acordo com Delcídio, Bumlai chegou a fazer cinco pagamentos a Bernardo, filho de Cerveró, para comprar o silêncio do executivo. O pecuarista teria se recusado a prosseguir no plano após apublicação de uma reportagem noticiando um provável acordo de delação. Com a saída de Bumlai, segundo Delcídio, Esteves teria surgido como novo financiador do plano.
Lula pode ser investigado ainda em uma terceira frente. Delcídio também acusa o ex-presidente de ter participado de tratativas para comprar o silêncio do publicitário Marcos Valério, que acabou condenado no mensalão. Como consequência, a PGR deverá tomar o depoimento de Valério, podendo reabrir alguns fatos relacionados ao escândalo. "Hoje se vê que o mensalão era um pedaço desse esquema, era uma das formas de fluir o dinheiro", disse uma fonte.
A abertura de inquérito contra o senador Aécio Neves é tida como praticamente certa. Delcídio cita o tucano em três trechos de sua delação. O que complica mais o senador, segundo investigadores, está relacionado à CPIdos Correios, que foi presidida por Delcídio.
Segundo o senador, Aécio teria enviado emissários à CPI para postergar um pedido de quebra de sigilo do Banco Rural. O objetivo seria maquiar dados bancários que comprometeriam o tucano e que estariam relacionados à gênese do esquema do mensalão em Minas Gerais. Segundo Delcídio, a maquiagem chegou a ser feita.
A abertura de novas frentes de investigação será discutida mais a fundo na PGR a partir da semana que vem, quando procurador-geral da República, Rodrigo Janot, retorna de uma viagem à Europa para tratar de temasrelacionados à Lava-Jato.