O globo, n. 30.181, 25/03/2016. País, p. 5
O combate à corrupção, a defesa da democracia e da liberdade de imprensa deram o tom da 13 ª edição do Prêmio Faz Diferença, uma iniciativa do GLOBO em parceria com a Firjan. O evento, anteontem, homenageou pessoas, empresas e instituições que se destacaram em 2015. A personalidade do ano foi a ministra do STF Cármen Lúcia, autora e relatora da ação que liberou a publicação de biografias sem autorização prévia. A importância do combate à corrupção e à impunidade, a necessidade do fortalecimento da democracia, a defesa da liberdade de expressão e de imprensa. Questões como essas, que permeiam o atual momento do país, deram o tom da cerimônia do Prêmio Faz Diferença, anteontem, no Copacabana Palace. Os destaques da noite ficaram por conta dos discursos das representantes da Justiça agraciadas em algumas das categorias. A 13 ª edição da premiação, uma iniciativa do GLOBO em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro ( Firjan), homenageou brasileiros que se destacaram no ano passado em 17 áreas, além da Personalidade 2015, e contou com a presença de autoridades, artistas e intelectuais.
Autora de voto histórico e relatora da ação que liberou a publicação de biografias sem autorização prévia, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal ( STF), foi escolhida a personalidade do ano. Em seu discurso, ressaltou os “tempos difíceis” e pediu confiança nas instituições:
— É preciso que a gente lembre que erva daninha cresce sem precisar de cuidados, mas a democracia, como qualquer roseira, precisa ser regada todos os dias.
Cármen Lúcia disse ainda que não se pode perder a confiança no Brasil.
— Não basta a tesoura da poda, é preciso o cultivo da semente para fazer florescer um novo país de justiça para todos. Para que a erva daninha da iniquidade, da corrupção, nunca prevaleça — acrescentou a ministra, que dedicou seu prêmio ao STF. — Nós continuaremos a fazer valer a Constituição, como é nosso dever, e a fazer valer os direitos dos cidadãos brasileiros.
Em junho do ano passado, Cármen Lúcia condenou em seu voto a censura prévia sobre biografias: “Censura é forma de calaboca. Pior, cala- Constituição’’. O julgamento do Supremo acabou sendo unânime contra artigos do Código Civil que exigiam a autorização do biografado ou de sua família. Antes de a ministra subir ao palco, a cena dela anunciando o voto em questão foi transmitida no telão e terminou com a histórica justificativa: “Cala a boca já morreu. É a Constituição do Brasil que garante’’. A mesma frase foi repetida pelos apresentadores do prêmio, os colunistas Míriam Leitão e Ancelmo Gois, e aplaudida pela plateia.
JUÍZA LINHA- DURA CITOU MINISTRA
Já o voto de Cármen Lúcia favorável à confirmação da prisão do senador Delcídio Amaral ( sem partido- MS) por tentar obstruir as investigações da Lava- Jato foi citado por outra homenageada da noite, a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza. Conhecida como linha- dura, ela foi a vencedora da categoria Rio. Daniela se destacou por determinar a transferência de policiais militares do Batalhão Especial Prisional para pôr fim a regalias na cadeia, quando atuava na Vara de Execuções Penais.
— Aviso aos navegantes dessas águas turvas da impunidade e da iniquidade que o crime não vencerá a Justiça — disse a juíza, reproduzindo palavras usadas por Cármen Lúcia.
Para Daniela, o fato de haver duas representantes do Judiciário entre os premiados e de o juiz Sérgio Moro ter sido eleito Personalidade 2014, é uma mensagem de que a população está cansada da impunidade:
— É como se a sociedade quisesse nos dizer que basta de impunidade e que acredita no Judiciário. E que espera que as autoridades exerçam seu papel com firmeza e rigor, além de rapidez, pois Justiça lenta não é justiça.
Segundo a juíza, as pessoas precisam parar de corromper outras para obter vantagens.
— Está na hora de pararmos de dar nossos jeitinhos, deixarmos de admitir certas práticas no nosso dia a dia. Quando a polícia nos parar numa blitz porque não fizemos a vistoria, vamos aceitar a multa. Não vamos arrumar um jeitinho com o “poliça”. Depois de 14 anos atuando na Vara Criminal, é assim que a gente acaba chamando o policial — brincou a magistrada.