O globo, n. 30.175, 19/03/2016. País, p. 5

Moro em dia de vilão

Juiz da Lava-Jato e deputado Eduardo Cunha são os principais alvos em protestos

 

Se nos protestos do último domingo a favor do impeachment o juiz federal Sérgio Moro, titular da 13 ª Vara Federal de Curitiba, foi tratado por muitos como um herói, ontem foi a vez de ele virar vilão. Em faixas e cartazes, o magistrado foi um dos principais alvos de críticas nos protestos, assim como o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Em São Paulo, enquanto o ex-presidente Lula discursava, foi colocado um cartaz com os dizeres “grampeiem o Cunha”.

No Rio, um dos que mais chamaram a atenção foi o mecânico de Duque de Caxias Hermes Alves, de 64 anos, que levou um cartaz com desenhos do rosto do juiz Moro caracterizado como Hitler:

— A lei não tem ponto final, é vírgula. Ele pensou que estava acima da lei. Ele é nazista.

Em São Paulo, pelo menos em dois momentos os manifestantes gritaram “Moro na cadeia" ao reagir a reclamações contra o juiz da Lava-Jato feitas por aliados de Lula. Cartazes pediam o afastamento de Moro e providências do Supremo Tribunal Federal ( STF). Um grupo de amigos colou uma fotografia do juiz federal em um boneco com a inscrição “Moro Judas fariseu“O boneco atravessou quase todo o ato.

— Esse juiz está extrapolando do poder dele. Ele não pode grampear uma presidente da República — disse o estudante Rodrigo Silva, de 21 anos, que carregava um cartaz com a inscrição "Fora, Sérgio Moro".

Após tirar uma foto do boneco de Judas com o rosto do juiz, a funcionária pública Elisângela de Almeida Santos, de 27 anos, disse que deixou de admirar Moro nas últimas semanas.

— Eu achava que ele ia acabar com a corrupção, que estava fazendo a coisa certa, mandando poderosos para a cadeia. Mas parece que agora o objetivo dele é só prender o Lula, e vale até divulgar a vida íntima do presidente — criticou Elisângela.

Se no chão, o juiz era criticado por quem apoia o PT, nos palanques ele era alvo de duras críticas. Após cantar uma música, a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB-SP) chamou o juiz de déspota:

— Queria lembrar que o déspota que deu os braços para deslumbramento está fazendo um problema para o nosso país, destruindo o que a gente construiu com suas decisões judiciais.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad provocou gritos de "Moro na cadeia":

— Neste momento, o estado democrático está em risco. Ninguém pode ser acordado às 6h e levado para prestar depoimento se nunca se recusou a prestar esclarecimentos à Justiça. O que se vê hoje é julgamento sumário.

Ainda na capital paulista, o presidente da CUT, Vagner Freitas, foi além e incendiou a plateia ao afirmar:

— Nós vamos nos livrar do Moro!

Sem citar o juiz nominalmente, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos disse que a questão não é defender ou não o governo, é garantir a Constituição:

— Aqueles que deveriam agir em nome da Justiça estão rasgando os direitos constitucionais, rasgando a toga para fazer uma política mesquinha, a pior política que tem.

No Rio, o deputado Wadih Damous ( PT- RJ), um dos principais defensores do ex- presidente Lula, chamou de “fascista” o magistrado de Curitiba. O petista também não economizou nas palavras ao dizer que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff é presidido pelo “bandido do deputado Eduardo Cunha”.

 

"Este golpe que estão tramando é midiático. A crise é muito mais econômico que política"

Bernardo Vulcão (DF)

Estudante

 

"A lei não tem ponto final, é virgula. O juiz Sérgio Moro pensou que estava acima da lei. Moro é nazista"

Hermes Alves (RJ)

Mecânico

 

"Não vi motivo jurídico para o impedimento  de Dilma. Alegam pedaladas fiscais, Pode ser erro administrativo, mas não é motivo"

João Augusto de Freitas (DF)

Professor de História

 

"Não sou petista, mas vim me manifestar a favor da democracia. Se queremos aperfeiçoá-la, não podemos fragilizar a política"

Juliana Bernardini (SO

Administradora

 

"Sou contra o impeachment porque favorece a corrupção. Não estão respeitando a democracia, o voto da maioria e o meu voto"

Eliana Silva (SP)

Designer

 

"Sou petista, tenho críticas, mas o principal é o projeto de governo democrático a favor do povo e não dos banqueiros"

Suzi Duartte (SP)

Servidora pública

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