O globo, n. 30.178, 22/03/2016. Economia, p. 19
Petrobras tem novo prejuízo histórico
Por: BRUNO ROSA, RAMONA ORDOÑEZ, RENNAN SETTI E GLAUCE CAVALCANTI
Pelo segundo ano seguido, a Petrobras fechou no vermelho, com perdas de R$ 34,8 bilhões. É o maior prejuízo da história da companhia, segundo levantamento da Economática. As perdas foram causadas, sobretudo, pela queda no preço do petróleo, que levou a petroleira a fazer uma baixa contábil de R$ 47,67 bilhões em ativos e de mais R$ 2,07 bilhões em investimentos, como participações em outras empresas. No ano anterior, a petroleira já havia registrado prejuízo de R$ 21,6 bilhões, afetada por baixas relativas a perdas decorrentes da corrupção investigada na Operação Lava- Jato e do adiamento de projetos polêmicos como o Comperj. Diante da piora dos resultados em 2015, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, informou que não haverá distribuição de dividendos a acionistas nem pagamento de participação nos lucros e resultados aos funcionários.
Segundo a Petrobras, as baixas contábeis também foram influenciadas pelo custo maior dos empréstimos, decorrentes do aumento do risco Brasil e da perda do grau de investimento do país. Os gastos com juros e o efeito do câmbio também contribuíram para o resultado negativo. A estatal citou ainda despesas tributárias de R$ 7,437 bilhões com a adesão ao Programa de Recuperação Fiscal ( Refis) e gastos com contingências judiciais em processos fiscais e trabalhistas, de R$ 5,103 bilhões.
Os analistas previam que a baixa contábil definiria os resultados da empresa, mas nem as projeções mais pessimistas apontavam um prejuízo dessa magnitude. No quarto trimestre, quando foram registradas as baixas ( ou impairment), a empresa teve prejuízo de R$ 36,9 bilhões. Após a divulgação do balanço, os recibos de ações da Petrobras na Bolsa de Nova York caíam 5,14% nas negociações pós- fechamento, a US$ 5,35. No horário regular, antes da publicação dos resultados, o papel avançou 1,26%.
— O preço do ( barril do tipo) Brent caiu cerca de 50%. No ano passado, ficou pouco superior a US$ 50 e forçou imparidade ( baixa contábil) em nossos ativos. Mostramos resgate à credibilidade ( com isso) — disse Bendine. — Para 2016, o investimento será ligeiramente menor, mas ainda não temos esse número fechado — disse o presidente da Petrobras, que trabalha com estimativa de US$ 45 para o preço do barril neste ano.
REFLEXOS DA OPERAÇÃO LAVA- JATO
Na longa lista de baixas contábeis, a Petrobras incluiu R$ 33,7 bilhões referentes a campos de petróleo no país, principalmente com a reavaliação do Campo de Papa- Terra. As contas da empresa incluem ainda R$ 2,5 bilhões em campos fora do país e outros R$ 2 bilhões referentes a 12 sondas, equipamento usado na exploração de petróleo. Mas ainda há reflexos da Operação Lava- Jato, que levou a companhia a adiar a conclusão de empreendimentos importantes, como o Comperj, que teve baixa de R$ 5,3 bilhões, e a Unidade de Fertilizantes III, em Mato Grosso do Sul, com R$ 2 bilhões.
A análise dos resultados de 2015 de acordo com as áreas de atuação da companhia mostra que o segmento de Abastecimento ( refinarias) teve receita positiva de R$ 25,4 bilhões, melhor que o prejuízo de R$ 58,8 bilhões no ano anterior. Já a área de Exploração e Produção, o carro- chefe da empresa, teve perdas de R$ 17,9 bilhões, ante receita positiva de R$ 50,3 bilhões em 2014.
— Desta vez, em 2015, a maior parte do impairment está associada aos negócios do segmento de Exploração e Produção, consequência da menor expectativa de preços de petróleo a médio e longo prazo. Sem o impairment, despesas tributárias e provisões para devedores duvidosos, a empresa teve resultado positivo de R$ 13,6 bilhões — disse Mario Jorge da Silva, gerente da Petrobras.
No ano passado, a companhia pisou no freio e reduziu seus investimentos em 12%, para R$ 76,315 bilhões. E a expectativa é de novo corte, embora ainda não haja um número definido.
No lado positivo, a empresa ressaltou o aumento de 25% na geração de caixa operacional, que somou R$ 73,9 bilhões. A produção total de petróleo e gás da companhia aumentou 4%, para 2,787 milhões de barris de óleo equivalente. Outro ponto favorável foi a redução do endividamento, que passou de R$ 506,6 bilhões, no acumulado até o terceiro trimestre, para R$ 492,8 bilhões.
— Um resultado contábil tão negativo pode às vezes trazer uma comoção. A gente soube enfrentar um quadro que não imaginava, com queda mais abrupta em relação aos preços do Brent, mas a empresa mostrou capacidade muito forte, com resultados significativos na área gerencial, no resultado operacional. Soube adotar uma série de medidas em sua eficiência, na disciplina de capital muito forte. Claro que variáveis como o preço do Brent e câmbio não são variáveis de nosso gerenciamento — disse Bendine.
O executivo reconheceu que a crise política pode afetar os planos de venda de ativos neste ano, como antecipou O GLOBO na edição de ontem. Para o mercado, a empresa não deve cumprir a meta de US$ 14,4 bilhões em desinvestimento.
— É natural. A conturbação política do país pode atrasar um pouquinho, mas é um impacto na questão do business ( negócio). Mas a Petrobras é uma empresa real e sólida, e o que o investidor não quer é quebra de contrato — destacou Bendine.
Apesar da melhora de alguns indicadores cruciais para a Petrobras, a empresa sentiu os efeitos da queda na receita de vendas de 5% no ano passado. Houve redução na demanda por derivados no mercado interno de 9% em razão da crise.
Alguns problemas podem se estender a longo prazo. Jorge Celestino, diretor de Abastecimento, disse ontem que a primeira unidade de refino do Comperj só deve ser concluída em 2023. Bendine afirmou que a refinaria, que já consumiu investimentos de US$ 14 bilhões, ainda não conta com um sócio.
Para Adeodato Volpi Netto, chefe de análise da consultoria Eleven Financial Research, que estava entre os mais pessimistas, o resultado mostrou que a reversão do quadro de crise ainda não está próxima.
— Vender ativos neste momento não é um processo fácil. A empresa publicou um plano de negócios inexequível, tem um endividamento na casa de centenas de bilhões. Com uma operação que drena o caixa da companhia, fica insustentável. Não dá para fazer uma capitalização porque o controlador não tem caixa para isso. — disse. — A empresa tem incertezas, sob a ótica da governança, muito sérias. É difícil encontrar investidor disposto a correr esse risco.
Até mesmo a rigorosa baixa contábil adotada num cenário de queda do preço do petróleo dividiu os analistas. Para Maurício Pedrosa, estrategista da Queluz Asset Management, o número foi uma surpresa:
— Embora seja positivo que a empresa esteja reconhecendo esse problema, o mercado não esperava esse valor.
Ele avalia que a queda na demanda por derivados no país já era esperada, diante do cenário de crise. Além disso, ele pondera que a retração interna está sendo compensada pelo fato de a empresa praticar preços de gasolina 16% superiores aos do mercado internacional. No caso do diesel, a diferença chega a 29%.
Mesmo assim, Pedrosa ressaltou que a situação deixa claro que a companhia não conseguirá domar sua dívida sem se desfazer de partes da empresa: — A geração de caixa da Petrobras não tem como melhorar muito, até porque ela está podando o investimento daqui para frente. Logo, não tem muito o que fazer na tarefa principal, que é a gestão de sua dívida. Não tem jeito, ela tem que vender ativos — observou.
Para Sérgio Tamashiro, analista do banco Haitong, uma baixa contábil já era prevista depois que a empresa anunciou em janeiro uma queda de 20% em suas reservas provadas de petróleo, para 13,28 bilhões de barris. O problema é que ainda paira sobre a empresa o risco de ter que realizar novos impairments no futuro.
— Será que as provisões acabaram? É o que eu me pergunto. Já foram US$ 16,7 bilhões em 2014 e, agora, outros US$ 12,7 bilhões , somando cerca de US$ 30 bilhões nesses dois exercícios. Isso é mais que o valor de mercado da Petrobras na Bolsa. Embora uma forte desvalorização do petróleo seja pouco provável, isso será sempre um fantasma a persegui- la — acrescentou.
PREVISÃO DE MAIS DESVALORIZAÇÃO
Para Tamashiro, a onda de problemas enfrentados pela estatal ainda está muito longe do fim. Mesmo depois de toda a desvalorização dos papéis na Bolsa, ele estima que as ações devem encerrar o ano cotadas a R$ 1,80. Atualmente, elas são negociadas a R$ 8,06.
— A empresa não está mostrando bons resultados, e nossa previsão para o preço do petróleo é ruim, uma cotação média de US$ 35 este ano e de US$ 45 em 2017 — afirmou o analista.
Raphael Figueredo, analista da Clear Corretora, também teme uma repetição de cenário no futuro, com novas baixas contábeis.
— Será que há mais por vir? Eu imaginava que isso houvesse ficado para trás com aquele evento da Operação Lava- Jato — disse.
Por outro lado, Figueredo afirma que é um bom sinal a empresa não distribuir dividendos a acionistas após um prejuízo.
— É preferível que a empresa melhore suas finanças, de forma a preparar o terreno para pagar dividendos no futuro, a distribuir proventos agora e continuar em dificuldades. Foi uma decisão sensata.
Apesar do tamanho da baixa contábil registrada em 2015, a Petrobras não foi a única a passar por isso. Com a queda dos preços das matérias- primas, o valor dos ativos de companhias ligadas a commodities foi depreciado, levando- as a contabilizar essas perdas em seus balanços. A Vale, por exemplo, fez baixas de R$ 36,3 bilhões no ano passado. Isso afetou sensivelmente o desempenho da mineradora, que registrou prejuízo de R$ 44,2 bilhões no período, o maior de sua história. A Gerdau teve baixa contábil de R$ 4,9 bilhões em 2015, o que a levou a um prejuízo de R$ 4,6 bilhões. Sem as baixas, a siderúrgica teria registrado lucro de R$ 684 milhões. As duas empresas buscam parceiros e investidores interessados em comprar ativos ou participações em projetos para reduzir seu endividamento e melhorar a situação financeira.
"Um resultado tão negativo pode às vezes trazer uma comoção. A gente soube enfrentar um quadro que não imaginava"
Aldemir Bendine
Presidente da Petrobras