O globo, n. 30174, 18/03/2016. País, p. 14

MINUTA DE CONTRATO DE COMPRA DE SÍTIO TEM O NOME DE LULA

Objetos encontrados pela PF no imóvel de Atibaia pertencem ao ex- presidente e a sua família
 
 
MARIANA SANCHES, RENATO ONOFRE*
E TIAGO DANTAS
opais@oglobo.com.br
 
- CURITIBA E SÃO PAULO- Documentos apreendidos pela Polícia Federal no apartamento do ex- presidente Lula em São Bernardo do Campo trazem novas informações sobre a relação da família Lula da Silva com o sítio Santa Bárbara, em Atibaia ( SP). Os agentes da PF localizaram a minuta de um contrato datado de 2012 que revela a intenção de Lula de comprar parte do sítio. O negócio seria celebrado com Fernando Bittar, um dos donos do imóvel, e a mulher dele. Lula pagaria R$ 800 mil pelo imóvel em quatro parcelas. Bittar havia pagado R$ 500 mil. O contrato de venda, no entanto, nunca foi celebrado. No documento não consta nenhuma assinatura.

A força- tarefa da Operação Lava- Jato investiga se empreiteiras envolvidas em desvio de verbas públicas da Petrobras custearam melhorias no local. A partir de 2011, Lula passou a frequentar o imóvel que, oficialmente, pertence a Jonas Suassuna e Fernando Bittar, sócios de Fábio Luís, o Lulinha.

Ainda em São Bernardo, a PF recolheu documentos que mostram envolvimento da família do ex- presidente com os assuntos da reforma e da manutenção do sítio. Há recibos de compras no Depósito Dias Materiais de Construção Ltda pelo engenheiro Igenes dos Santos Irigaray Neto. Os produtos foram entregues no sítio Santa Bárbara.

A ex- proprietária do depósito afirma que a empreiteira Odebrecht pagou as compras para a reforma do imóvel. Já Irigaray teria sido contratado por meio do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula. Os investigadores encontraram ainda um orçamento para compra de capa para piscina, emitido pela empresa Acqua Summer Piscinas, de Atibaia, em 18 de janeiro de 2011, em nome do servidor da Presidência Rogério Aurélio Pimentel, que atuou como assessor de Lula.

Pimentel comprou a capa por R$ 550, e a encomenda foi entregue no sítio Santa Bárbara. Em depoimento à PF, o assessor afirmou que recebeu dinheiro do engenheiro da Odebrecht Frederico Barbosa para pagar as despesas das obras, realizadas no fim de 2010.

Também foi localizado um documento intitulado “Sítio Atibaia” que, de acordo com a PF, contém “anotações possivelmente referentes a cronograma de obras; desenhos de plantas e projetos”. Os documentos reforçariam a acusação de que Lula é dono do local e que se envolveu nas negociações para reformas, que teriam sido custeadas por empreiteiras.

No sítio de Atibaia, a PF encontrou uma série de pertences relacionados ao ex- presidente e à sua mulher, Marisa Letícia. No relatório, porém, não é citado nenhum objeto relacionado a Jonas Suassuna. E foi encontrado apenas um documento em nome de Bittar.

 

CAMISAS DE FUTEBOL E CARTÃO DE NATAL

Entre os itens localizados pelos peritos estão camisetas de futebol com o nome de Lula, produtos de farmácia de manipulação em nome de Marisa Letícia, fotos do casal, um cartão de Natal enviado ao casal pelo ex- presidente da OAS, Léo Pinheiro, um barco com a inscrição “Lula & Marisa”, além de caixas ainda fechadas com símbolo da transportadora “5 Estrelas”, que teriam saído da Presidência da República. Fotos anexadas ao relatório mostram detalhes da cozinha, cuja reforma teria sido paga pela OAS.

O Instituto Lula afirmou em nota que Lula “soube que a família de Jacó Bittar e Jonas Suassuna havia comprado o sítio Santa Bárbara em 13 de janeiro de 2011”. Frequentou o local pela primeira vez em 15 de janeiro de 2011. “O sítio, além de servir para que amigos de longa data pudessem frequentar e conviver, também serviu para receber pequena parte do acervo presidencial”.

O Instituto Lula afirma ainda que “as reformas que foram feitas no sítio foram realizadas pelos proprietários para adequar as instalações a essas necessidades. Amigos e parentes do ex- presidente Lula acompanharam parte da reforma e auxiliaram no que era possível. A partir de janeiro de 2011, quando o ex- presidente e seus familiares passaram a frequentar o sítio em dias de descanso, juntamente com os proprietários, também houve o auxílio para a manutenção do local. Esses fatos justificam todos os documentos que foram apreendidos durante a busca e apreensão realizada na residência do ex- presidente Lula e no próprio sítio em Atibaia. Não se sabe qual o critério usado pela Polícia Federal para afirmar que não há pertences dos proprietários no sítio. De qualquer forma, essa afirmação não muda em nada a propriedade do local, que é atribuída a Fernando Bittar e Jonas Suassuna.” (* Enviado especial a Curitiba).

 

Fotos anexadas ao relatório mostram detalhes da cozinha, cuja reforma teria sido paga pela empreiteira OAS