O globo, n. 30.165, 09/03/2016. Economia, p. 19
Casa própria mais fácil
Por: JOÃO SORIMA NETO
SÃO PAULO- Em meio a um cenário de contração do crédito e saques da poupança, que chegaram a R$ 53 bilhões em 2015, a Caixa Econômica Federal anunciou ontem medidas para estimular o financiamento imobiliário e incentivar as atividades no setor da construção. Um dia depois de o governo divulgar um pacote de estímulo a projetos de infraestrutura, a Caixa informou que vai elevar em R$ 16,5 bilhões, além dos R$ 90 bilhões previstos, o total de recursos para financiamento de imóveis. Ao mesmo tempo, reabriu as linhas de empréstimos para a compra do segundo imóvel e aumentou de 50% para 70% do valor a ser financiado na compra de imóveis usados pelo Sistema Financeiro de Habitação ( SFH), até o limite de R$ 750 mil. No caso do funcionalismo público, a cota financiada chega a até 80% do valor do imóvel.
— Essas medidas têm por objetivo viabilizar mais acesso às unidades habitacionais pelos brasileiros e estimular o setor da construção civil — disse Miriam Belchior, presidente da Caixa.
Em um imóvel usado de R$ 500 mil, por exemplo, a parcela que poderá ser financiada passa de R$ 250 mil para R$ 350 mil. O limite do financiamento de imóveis usados havia sido reduzido pela Caixa em maio de 2015, de 80% para 50%. O objetivo na época era concentrar o crédito em unidades novas. Agora, ao ampliar a cota para imóveis usados, a Caixa acredita que haverá impacto positivo também no mercado de novos, principalmente nas classes média e alta.
— A compra do imóvel novo implica a venda do imóvel usado — disse Miriam.
FALTA DE CONFIANÇA AINDA PESA
Nas compras pelo Sistema Financeiro Imobiliário ( SFI), em que não são utilizados recursos da poupança nem do FGTS, o limite de financiamento de usados sobe 40% para 60%, pelo Sistema de Amortização Constante ( SAC), em que as prestações são decrescentes.
Segundo Miriam, os R$ 16,5 bilhões adicionais destinados ao crédito imobiliário foram liberados em fevereiro pelo Conselho Curador do FGTS. Com isso, explicou, será possível a contratação de financiamento de mais 64 mil unidades habitacionais este ano, 13% a mais que o previsto anteriormente: 29,7 mil imóveis financiados pelo FGTS e 34,3 mil pela poupança.
O economista- chefe do Secovi/ SP, Celso Petrucci, considerou as medidas muito positivas diante da retração economia e dos saques elevados da poupança. Para ele, a ampliação do limite de financiamento de usados vai estimular o segmento.
— A liberação de mais R$ 22 bilhões pelo Conselho Curador do FGTS ( sendo R$ 16 bilhões para a Caixa) sinaliza que não faltarão recursos para imóveis novos também, que era nossa principal preocupação. Existe demanda tanto para novos quanto para usados — afirmou, apesar de fazer uma ressalva. — Mas a população está sem confiança diante do cenário econômico e político de incertezas, já que se trata de uma decisão difícil de tomar.
Para a consultora em crédito habitacional Cláudia Magalhães Eloy, da USP, o aumento do percentual financiado é positivo, porque a demanda por imóveis depende também da oferta e das condições em que o crédito é oferecido.
— O percentual baixo de financiamento exige uma entrada elevada. Para quem está comprando o primeiro imóvel e não tem outro para vender, fica muito difícil ter 40% ou 50% do preço para dar de entrada — disse Cláudia, que acredita que a Caixa voltou atrás após o impacto negativo na demanda.
A isso, acrescentou, soma- se o fato de os bancos privados também estarem mais restritivos na concessão desses financiamentos:
— Há uma pressão maior sobre os bancos públicos, especialmente a Caixa, para sustentar um nível mínimo de crédito para garantir a sobrevida do setor habitacional neste ano.
REABERTURA DA LINHA PARA SEGUNDO IMÓVEL
A Caixa também anunciou ontem a reabertura do crédito para a compra do segundo imóvel, que estava fechado desde agosto de 2015. Essa operação pode ser feita pelo SFH ou o SFI. Mas, como acontecia antes, não podem ser usados recursos do FGTS, já que estes se destinam apenas a imóveis que servirão como moradia.
O vice- presidente de Habitação da Caixa, Nelson Antonio de Souza, observou que o segundo imóvel será financiado nas mesmas condições do primeiro. Ele disse que existe demanda para o financiamento do segundo imóvel, já que, ao buscarem um imóvel novo, muitos clientes precisam vender o usado. E quem vende um novo não aceita um usado como entrada.
Para o presidente do Sinduscon- SP, José Romeu Ferraz Neto, é possível que as ações da Caixa deem ânimo ao mercado, já que podem estimular pessoas que planejam comprar um imóvel, novo ou usado, mas estão inseguras com a situação política e econômica do país:
— Demanda por imóveis há. Mas a insegurança, as expectativas negativas, a instabilidade política travam a decisão. Por isso, as medidas são interessantes.
O volume de crédito imobiliário deve recuar 20,6% neste ano, para R$ 60 bilhões, segundo estimativa da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança ( Abecip) divulgada ontem. Em 2015, esses financiamentos totalizaram R$ 75,6 bilhões, volume 33% menor que o registrado em 2014.
PARA AQUECER O MERCADO
Como era
IMÓVEIS USADOS: Desde maio de 2015, o valor máximo financiado era de 50% do valor do imóvel.
SEGUNDO IMÓVEL: Desde agosto de 2015, a Caixa só financiava imóveis novos.
RECURSOS: A Caixa previa emprestar R$ 90 bilhões para o financiamento de imóveis.
Como ficou
IMÓVEIS USADOS: Agora, 70% do preço de compra podem ser financiados pelo SFH, para imóveis com valor até R$ 750 mil. Pelo SFI, usado em imóveis de maior valor, o limite subiu de 40% para 60%.
SEGUNDO IMÓVEL: Agora, os usados podem ser financiados pelo SFH ou SFI, mas sem a utilização do FGTS pelo comprador.
RECURSOS: O Conselho Curador do FGTS liberou mais R$ 16 bilhões, que se somarão aos R$ 90 bilhões anteriores.
Fonte: Caixa Econômica Federal