O globo, n. 30.157, 01/03/2016. País, p. 3

Transação tortuosa

Por: Renato Onofre, Silvia Amorim e Tiago Dantas

 

- SÃO PAULO- A Polícia Federal investiga se o marqueteiro João Santana comprou um apartamento em bairro de luxo de São Paulo de um laranja. O imóvel entrou no radar da Operação Lava- Jato porque foi pago com dinheiro não declarado da offshore Shellbil no exterior. Antes de pertencer ao suposto laranja, a propriedade foi de Ruy Lemos Sampaio, diretor da holding que controla a Odebrecht. Em outros negócios, também omitidos da Receita Federal, a empreiteira pagou o publicitário por meio da Shellbil.

O apartamento de 306 metros quadrados, com quatro suítes e cinco vagas de garagem no bairro Vila Nova Conceição, na Zona Sul da capital paulista, foi comprado por Santana em 17 de junho de 2013. Os antigos proprietários eram Mauro Eduardo Uemura e Deborah de Oliveira Uemura, que, em janeiro, antes mesmo da prisão do marqueteiro, pediram acesso às investigações. O casal Uemura havia comprado o imóvel em 14 de dezembro de 2009 de Sampaio.

Compra de imóveis é um dos caminhos usados por operadores de propina para lavar dinheiro desviado da Petrobras, segundo investigações da LavaJato. Um dos delatores da operação, Milton Pascowitch, contou à PF que fez repasses ao exministro José Dirceu, por meio da reforma de imóveis e da compra de um apartamento.

— ( O apartamento) pode ter sido um repasse não declarado ao casal Santana travestido de operação imobiliária — disse ao GLOBO uma pessoa ligada às investigações.

Chamou a atenção dos investigadores a forma como o imóvel foi adquirido. Na escritura, Santana diz que pagou R$ 3 milhões. Em sua declaração de Imposto de Renda de 2013, registrou R$ 4 milhões. A Lava- Jato descobriu que nenhum desses valores foi o total gasto. Quem pagou parte do apartamento foi a empresa de Santana e sua mulher, Mônica Moura: a Polis Propaganda, que prestou serviços a campanhas do PT.

A Polis depositou um sinal de R$ 300 mil e uma parcela de R$ 2,7 milhões na conta de Deborah Uemura no Bradesco. Mais US$ 1 milhão foi repassado por fora. O dinheiro saiu da offshore Shellbil, de Santana, para uma conta de Mauro num banco português no exterior. Em depoimento à PF semana passada, Santana disse que pagou R$ 6 milhões pelo imóvel.

As movimentações da Shellbil estão sendo investigadas pela Lava- Jato, sob suspeita de vínculo com dinheiro desviado de contratos da Petrobras. Os investigadores dizem que Santana recebeu ao menos US$ 7,5 milhões da Odebrecht e do operador de propinas da estatal Zwi Skornicki.

Na última quinta- feira, ao depor na Lava- Jato, Santana disse que, a pedido do vendedor, não declarou o US$ 1 milhão. Após transferir o imóvel ao publicitário, o casal Uemura morou num apartamento de 83 metros quadrados em Perdizes. Nesse prédio, há imóveis à venda por R$ 800 mil.

O GLOBO localizou pelo menos duas offshores no Panamá registradas em nome do casal Uemura, ainda ativas. Mauro também aparece como sócio de um cidadão angolano numa empresa de São Tomé e Príncipe. Em São Paulo, o casal teve uma empresa: a DOX, aberta em abril de 2009 e fechada um ano depois. A empresa foi registrada na Junta Comercial como prestadora de consultoria em gestão empresarial. Os advogados do casal Uemura não retornaram os telefonemas do GLOBO ontem.

 

EXECUTIVO DIZ QUE NUNCA MOROU NO IMÓVEL

A compra por Mauro e Deborah ocorreu no mesmo dia em que o ex- executivo da Odebrecht passou a propriedade para seu nome. Sampaio pagou R$ 2 milhões à construtora República do Líbano Empreendimento Imobiliário e, em seguida, revendeu aos Uemura por R$ 2,8 milhões.

Ao GLOBO, o executivo afirmou nunca ter morado no imóvel, que comprou como investimento. Nascido em Salvador, Sampaio, de 65 anos, dirige hoje a Kieppe Investimentos e Participações, holding que controla todos os bens da família Odebrecht, entre eles a construtora.

Desde 1985, ele ocupou cargos estratégicos na empreiteira, como diretor internacional de Finanças e Investimentos, vice- presidente de Finanças e vice- presidente de Investimentos. Ele afirmou ter deixado a empresa no fim de 2008. Também disse que hoje não tem relação com a construtora e que seu trabalho é administrar ativos da família Odebrecht, como imóveis e terrenos.

Sampaio disse que nunca conheceu Santana e que só encontrou Uemura no dia de assinar a escritura.

— Se você tem um carro e, após sete anos, esse carro vai parar na mão de um traficante, você não tem nada a ver com isso. Mas, se forem no Detran, vão achar seu nome como antigo proprietário. A PF tem todo o direito de investigar — disse Sampaio.

Ele afirmou que foi procurado por um corretor de imóveis em 2009, que não revelou para quem trabalhava. Após finalizar o negócio, soube que o novo proprietário seria Mauro, que desejava presentear Deborah. Segundo o executivo, Mauro estava fora do Brasil no período da transação. Ele pagou um sinal, cujo valor não soube precisar, e o restante do valor, numa única parcela via transferência bancária no Brasil.

A Odebrecht informou que não comentaria o assunto por se tratar de um negócio pessoal de um exfuncionário. O criminalista Fábio Tofic, que defende Santana e sua mulher, disse que não comentaria.

Em sua última possibilidade de apresentar defesa técnica antes de ser julgado, o ex- presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, argumentará em alegações finais que nem todas as anotações registradas em seu telefone eram expressões do seu pensamento. Seus advogados escreverão que, em determinados momentos, Odebrecht registrou comentários de terceiros, em reuniões das quais participava como dirigente do grupo empresarial. Também copiava para seu bloco de notas “anotação de terceiros”.

 

Ao depor na Lava- Jato, João Santana disse que não declarou US$ 1 milhão a pedido do vendedor do apartamento

 

 

O APARTAMENTO DE R$ 6 MILHÕES

A PF investiga a compra de imóvel em São Paulo por João Santana
 

COMO É O APARTAMENTO

Tem 306 metros quadrados, quatro suítes e cinco vagas na garagem. Fica no bairro da Vila Nova Conceição, um dos mais valorizados da cidade

 

A COMPRA

Em 9 de março de 2007, as obras do prédio ficam prontas. Em 14 de dezembro de 2009, o apartamento é passado para Ruy Lemos Sampaio, diretor da Kieppe Investimentos e Participações, dona da Odebrecht SA. Ruy pagou R$ 2.075.800. No mesmo dia, Ruy vende o imóvel para Mauro Eduardo Uemura por R$ 2.815.000 Em 17 de junho de 2013, o apartamento é vendido para João Santana por R$ 3 milhões

 

O PAGAMENTO

Foi feito por meio de depósitos de R$ 300 mil, em 17 de maio, e R$ 2,7 milhões, em 28 de maio, que saíram da conta da Polis Propaganda e Marketing. O destino do dinheiro foi uma conta de Deborah de Oliveira Uemura, mulher de Mauro

Em 19 de junho de 2013, Santana repassou mais US$ 1 milhão para Mauro. A movimentação, não declarada, saiu da conta da offshore Shellbill

no Heritage Bank, na Suíça, para uma conta de Mauro no Banco Comercial Português, fora do Brasil

Na declaração de Imposto de Renda referente a 2013, o marqueteiro declarou o imóvel por R$ 4.000.000. O valor é diferente do que consta na escritura ( R$ 3 milhões) e do que Santana de fato pagou R$ 5.221.000

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Presa, mulher de marqueteiro segue firme nas redes sociais

PF quer saber quem usou celular de Mônica, detida desde semana passada, e bloqueou jornalistas em sua conta no Instagram

Por: Renato Onofre

 

Os celulares e as contas nas redes sociais da jornalista e publicitária Mônica Moura estão ativos e entraram no radar da Lava- Jato. A força- tarefa já sabe que um aplicativo de mensagem instantânea da mulher do marqueteiro João Santana, que comandou as campanhas da presidente Dilma Rousseff ( 2010 e 2014) e do ex- presidente Lula ( 2006), ficou ativo por mais de 24 horas depois de o casal se entregar à Polícia Federal.

Os equipamentos do casal não foram entregues aos policiais terça- feira passada, quando eles se apresentaram à Polícia Federal. Os dois chegaram a ser revistados em uma sala reservada no Aeroporto Internacional de Guarulhos, mas os policiais não encontraram dispositivo com eles.

A PF informou num dos relatórios da prisão de Santana e Mônica que os equipamentos estariam com os advogados dos publicitários e, segundo os policiais, não foram entregues. Os advogados negam estar com os dispositivos.

O primeiro indício de que o celular continuou a ser usado apareceu no Whatsapp de Mônica. O aplicativo ficou ativo pelo menos até as 12h30m da quarta- feira posterior à prisão.

Ainda não se sabe quem operou o aparelho. Os investigadores da Lava- Jato dizem que não há crime em manuseá- lo, mas tentam saber quem utilizou o telefone a partir do momento em que Mônica foi presa.

Segundo uma fonte ligada à defesa do casal, o aparelho ficou num dos escritórios deles na República Dominicana e segue ativo por conta de compromissos assumidos na campanha de reeleição do presidente Daniel Medina, em que Santana e Mônica trabalhavam até a prisão. Assim que saiu a notícia do envolvimento deles, o casal desligou- se da campanha.

Além do aplicativo de troca de mensagens, pelo menos uma rede social da publicitária também está ativa. Neste fim de semana, alguém entrou no perfil de Mônica no Instagram, aplicativo de postagem de fotos, e excluiu jornalistas ligados direta ou indiretamente à cobertura da Lava- Jato. Além da imprensa, outro perfis desconhecidos teriam sido bloqueados.

Enquanto os aparelhos de Mônica seguem ativos e sendo usados, os números relacionados a Santana estão “mudos” desde a véspera de sua prisão. O Whatsapp foi usado pela última vez às 20h19m de segunda- feira, 22 de fevereiro, quando foi deflagrada a 23 ª fase da Operação Lava- Jato, batizada de Acarajé.

Os advogados de Mônica não comentaram o caso. No dia de prisão do casal, o criminalista Fabio Tofic disse que os dois não têm obrigação legal de apresentar os aparelhos.