O Estado de São Paulo, n. 44755, 30/04/2016. Política, p. A5

Disputa por pastas já trava novo ministério

DECISÃO NO SENADO - Partidos começam a competir por cargos mais cobiçados, como Saúde e Caixa
Por: Ligia Formenti / Murilo Rodrigues Alves / Igor Gadelha

 

Ligia Formenti

Murilo Rodrigues Alves

Igor Gadelha / BRASÍLIA

 

A intensa disputa política entre os partidos por espaços no eventual governo do vice-presidente Michel Temer (PMDB) já começa a travar a definição dos nomes para os ministérios e bancos públicos. Nos bastidores, o principal embate ocorre entre o PMDB e o PP, mas há também confrontos entre outras legendas.

A Saúde é a mais cobiçada, apesar das epidemias que atingem o País e o orçamento mais apertado do que no passado. Trata-se de um ministério com grande capilaridade: há postos a serem preenchidos em todos os cantos do País. Além disso, investimentos na saúde - como hospitais, ambulâncias e contratação de médicos - sempre foram um trunfo importante para ganhar a simpatia de prefeitos, o que ganha força em um ano de eleição municipal.

Temer quer que o posto seja ocupado por um nome de grande respaldo na sociedade civil e médica. O presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), por exemplo, já tem um nome na cabeça: o cirurgião paulista Raul Cutait, que por anos esteve à frente do Hospital Sírio Libanês. Sondado, Cutait ainda não deu a palavra final. Ao negociar a pasta com o PP, Temer caminhava para manter um acordo previamente alinhavado com a legenda. A ideia inicial era a de que o partido assumiria o comando de dois ministérios, a princípio Integração Nacional e Saúde.

 

Justificativas. Nesta semana, no entanto, começou a ganhar corpo um movimento dentro dos quadros do PMDB para garantir que a Saúde, assumida no fim do ano passado, permanecesse nas mãos do partido. Integrantes da bancada peemedebista descrevem uma série de justificativas para isso: o PP não teria um nome de peso para ocupar a pasta (e assim, não teria como atender a condição previamente imposta por Temer), ao passo que PMDB teria várias pessoas com certa tradição na luta pela saúde. O movimento sanitarista, argumenta a bancada, teve início com PMDB. Além disso, argumentam os peemedebistas, o PP teria muito mais tradição em outra área, a da Agricultura. Faria mais sentido, dizem, que integrantes do PP assumissem esse posto. O PP, por sua vez, já deixou claro que não abre mão da Saúde num eventual governo Temer.

Os dois partidos também se enfrentam pelo comando dos cargos de direção na Caixa Econômica Federal. Controlada nos últimos anos por petistas, integrantes do PP e do PMDB têm feito uma romaria à sede do banco em Brasília atrás do que seria um “reconhecimento de terreno” para o caso de o vice assumir a Presidência.

Nas negociações para compor o governo, a presidência da Caixa está sendo oferecida ao PP, que já tem uma vice-presidência do banco. O PMDB é responsável por comandar outras seis vices das 11 que o banco tem - o restante é da cota do PT. No fim do ano passado, a presidente Dilma exonerou Fábio Cleto, aliado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ele era o responsável pela área de loterias e fundos de governo. Com a saída dele, Cunha quer aumentar sua influência no banco estatal. A Caixa é atualmente controlada pela petista Miriam Belchior, que sucedeu o também petista Jorge Hereda.

 

 

Cobiça. Na área trabalhista, tamanho é o assédio que Temer pretende separar o atual Ministério do Trabalho e Previdência Social em duas pastas. A divisão abriria espaço para contemplar mais partidos. Temer negocia dar Trabalho para o Solidariedade e a Previdência para o PRB ou PSD. A cúpula do Solidariedade, que é ligada à Força Sindical, já trabalha com dois nomes para a pasta: os deputados Zé Silva (MG) e Augusto Coutinho (PE). O presidente da sigla, deputado Paulinho da Força (SP), não tem interesse em ocupar o cargo. Já o futuro da vaga na Previdência Social ainda está incerto. Emissários de Temer ofereceram o comando do ministério para o PRB, em troca de o partido desistir da ideia de exigir o Ministério da Agricultura para se manter na base aliada.

A Agricultura é outra área com intensa disputa. Chegou a ser oferecido ao PRB, depois passou a ser alvo de PP e DEM e, agora, está sendo disputado pelo PR do senador Blairo Maggi (MT). O parlamentar, que cogitou trocar de partido, passando para o PMDB, mas permaneceu no PR, é um dos principais apoiadores de Temer no Senado, tendo chegado a cobrar publicamente a cadeira.

 

CARGOS COBIÇADOS

Saúde

É a pasta mais cobiçada por aliados de um eventual governo Temer. Ainda que enfrente problemas como epidemias, o ministério tem orçamento robusto e alta capilaridade, com postos a serem preenchidos em várias partes do País. O ministério estava sendo negociado com o PP, mas nos últimos dias ganhou força a proposta de mantê-lo nas mãos do PMDB em nome da tradição.

 

Agricultura

É outro ministério com intensa disputa caso a presidente Dilma Rousseff seja impedida. O senador Blairo Maggi (PR-MT) deixou claro que deseja sentar na cadeira. Ele é um dos principais apoiadores do vice Michel Temer no Senado. Hoje ocupada pela ministra Kátia Abreu (PMDB), a pasta tem sido objeto de desejo do PRB, PP e DEM. O PRB pode desistir se levar a Previdência.

 

Caixa Econômica Federal

As 11 vices e a presidência do banco são cargos desejados de intensas negociações. No fim do ano passado, a presidente Dilma exonerou um aliado de Eduardo Cunha do comando do banco, Fábio Cleto. A medida fez alimentar a vontade do deputado em colocar um novo interlocutor lá dentro. No páreo, estão nomes do PP e do PMDB, que têm feito romaria à sede em Brasília.