Igor Gadelha / BRASÍLIA
O doleiro Leonardo Meirelles afirmou ontem em depoimento no Conselho de Ética da Câmara que o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDBRJ), foi destinatário de cerca de US$ 5 milhões em propina, pagos em espécie, a pedido do lobista Julio Camargo. Ele atribuiu a informação ao doleiro Alberto Youssef, de quem era parceiro de negócios. Meirelles contou que começou a se relacionar com Youssef em 2009 e que atuava como um “operador de pagamentos” do doleiro, de quem era sócio em empresas de fachada. Ele disse que permitia a Youssef usar suas contas bancárias no Brasil e no exterior para receber recursos ilícitos e fazer “repagamentos”. O depoente contou que, em abril de 2012, Youssef disse que Camargo depositaria cerca de US$ 5 milhões em contas de Meirelles no exterior e que ele deveria providenciar contratos fictícios de prestação de serviço para justificar a transferência. Segundo o doleiro, o contrato falso foi celebrado no mês seguinte e os US$ 5 milhões foram repassados por meio de três transferências bancárias: duas de cerca de US$ 2,4 milhões, feitas em 8 de junho e 28 de outubro de 2012, e outra de US$ 400 mil, realizada em 7 de novembro daquele ano. Após receber o dinheiro no exterior, Meirelles disse que “arrecadou” no Brasil o valor em reais equivalente e o enviou a Youssef. Segundo o doleiro, o dinheiro foi levado ao Rio pelo ex-policial federal Jayme Careca, que atuava como entregador de Youssef. Meirelles afirmou que fez a entrega ao ex-parceiro sem saber quem seria o destinatário final e que só soube que se tratava de Cunha uma semana depois. Em um almoço, ele diz que Youssef comentou “informalmente” que Cunha receberia a quantia. Segundo o doleiro, Youssef relatou que teria que “terminar logo aquele contrato”, porque era um assunto “pendente”. “Ele comentou: olha, você não imagina a pressão que estava sofrendo, graças a Deus consegui liquidar aquela transferência, que era de Eduardo Cunha”, relatou Meirelles. A fala de Meirelles corrobora versão de Júlio Camargo e Youssef. Em depoimentos à Operação Lava Jato, ambos confirmaram que pagaram US$ 5 milhões a Cunha. Segundo Camargo, o peemedebista o teria pressionado a receber o dinheiro alegando ter ajudado a fechar contratos de navios sonda com a Petrobrás. Meirelles, porém, disse não saber se Cunha tem contas não declaradas no exterior. Ele afirmou que “a princípio” não se lembra de ter feito nenhuma transferência fora do País ao peemedebista.
‘Indiretas’. O relator do processo contra Cunha, deputado Marcos Rogério (DEM-RO), avaliou o depoimento de Meirelles como “importante”, mas reconheceu que o depoente fez“ alegações indiretas” sobre Cunha que fogem ao escopo inicial do processo, que são as supostas contas não declaradas de Cunha. Mas o relator ponderou que isso não o impede de incluir os fatos novos em seu parecer final. “O peso dessas informações serão associadas a outras provas que estão sendo coletadas”, disse. “Não existe ali nem um fato, que dirá prova”, rebateu Cunha. “É sempre uma tentativa de tentar me atribuir coisas das quais eu não sou partícipe. Então, não vejo nem como comemoração nem como derrota. Vejo que esse depoimento é absolutamente desnecessário.”
Pesos e medidas
“O peso dessas informações serão associadas a outras provas que estão sendo coletadas”
Marcos Rogério (DEM-RO)
RELATOR DO PROCESSO CONTRA CUNHA
“Não existe ali nem um fato, que dirá prova”
Eduardo Cunha (PMDB-RJ)
PRESIDENTE DA CÂMARA