Correio braziliense, n. 19325, 23/04/2016. Política, p. 5
Tucano defende distância
O senador Cássio Cunha Lima (PB), líder do PSDB no Senado e integrante da direção executiva da sigla, defendeu ontem que o partido não aceite cargos em um eventual governo Michel Temer (PMDB). A posição dele se soma à dos governadores Pedro Taques (MT), Beto Richa (PR) e Geraldo Alckmin (SP), e da maioria dos deputados do partido.
“Eu, particularmente, acho que o PSDB deve ficar muito longe de qualquer marca ou viés fisiológico”, afirmou. O tucano falou com os jornalistas durante o Fórum Empresarial, evento organizado pelo empresário e pré-candidato à Prefeitura de São Paulo João Doria (PSDB) que reúne, em Foz do Iguaçu, empresários e políticos de oposição.
Questionado sobre um eventual convite direto de Temer ao senador José Serra (PSDB-SP), Cunha Lima disse que o ideal é que nenhum político com mandato assumisse cargo em ministério. “Seria criada uma regra: quem tem mandato não vai para o governo. A partir daí, os partidos poderiam sugerir nomes. É o momento de quebrar paradigmas. Não é apenas o PSDB que deveria abdicar de participação no governo. Todos os partidos políticos deveriam fazê-lo. É preciso mudar a lógica da formação de coalizão.”
Delação
A revista Época que circula neste fim de semana traz reportagem sobre proposta de delação premiada feita pelo engenheiro José Antunes Sobrinho, um dos donos da empreiteira Engevix, que comprometeria o vice-presidente, Michel Temer; o Presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL); e os ex-ministros Erenice Guerra e José Dirceu. Segundo a revista, Antunes Sobrinho, um dos presos pela Operação Lava-Jato, preparou uma proposta de delação com 30 anexos, cada um deles com personagens e relatos de crimes distintos.
O vice-presidente Michel Temer distribuiu nota ontem repudiando “com veemência” as informações “errôneas” publicadas pela revista Época. A nota diz que Temer “não indicou ou mesmo trabalhou pela manutenção de Othon Pinheiro à frente da Eletronuclear”. “Não intermediou interesses empresariais escusos em qualquer órgão público nacional. Não cobrou ou delegou poderes a quem quer que seja para arrecadar recursos eleitorais irregulares para sua campanha a vice-presidente em 2014 ou 2010.”
Sobre Temer, o empreiteiro teria afirmado, de acordo com a reportagem, que pagou propina a operadores que falavam em nome do vice-presidente. O mesmo teria ocorrido em relação a Renan.
Outra revelação é a suposta destinação de recursos não contabilizados oficialmente para o PT, em troca de vantagens em obras e em estatais como a Caixa Econômica Federal.
A revista diz que Sobrinho fez pagamentos a um intermediário para ser apresentado a Carlos Araújo, ex-marido de Dilma, a quem teria pedido ajuda para manter concessões em dois aeroportos. O empreiteiro também teria pedido a intervenção de Araújo na liberação de um financiamento para sua empresa.
Na delação, ainda segundo a reportagem, o empreiteiro ressalvou que nunca recebeu cobrança direta de recursos de Carlos Araújo e disse ignorar se o intermediário atuava por conta própria ou como representante do ex-marido da presidente.
Sobrinho também teria feito pagamentos para Erenice e Dirceu — não detalhados no trecho da reportagem que a Época publicou em seu site. O dono da Engevix é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro na mesma ação em que Dirceu é réu. Ele foi preso em 21 de setembro de 2015, na 19ª fase da Lava Jato.