O Estado de São Paulo, n. 44779, 24/05/2016. Política, A4

Gravação obriga Jucá a deixar o Planejamento

Tânia Monteiro

Carla Araujo

Na véspera da votação da meta fiscal no Congresso e exatos dez dias depois de ter tomado posse no Ministério do Planejamento, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) anunciou ontem, 23, que deixará o cargo para o qual havia sido escolhido pelo presidente em exercício Michel Temer (PMDB). Jucá é investigado pela Operação Lava Jato e está sob suspeita de ter tramado contra o prosseguimento da operação.

O afastamento de Jucá foi uma consequência da divulgação de uma conversa dele com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado (PMDB-CE), pelo jornal Folha de S.Paulo, na qual ele diz, em março, que “tem de mudar o governo (da presidente afastada Dilma Rousseff) para poder estancar essa sangria”. O contexto do diálogo era o impeachment da petista e a Lava Jato, embora Jucá afirme em sua defesa que tratava da crise econômica.

Ontem à tarde, Jucá anunciou que iria se “licenciar” do ministério do Planejamento a partir de hoje para reassumir o mandato de senador pelo PMDB de Roraima. Em termos práticos, porém, Jucá vai se exonerar do cargo, conforme ele mesmo afirmou pouco tempo depois de ter feito o anúncio.

“Tecnicamente vou pedir exoneração e meu secretário executivo (Dyogo Oliveira) assume”, afirmou em entrevista no Salão Verde da Câmara dos Deputados, quando se dirigia para a Comissão Mista de Orçamento para negociar a votação da meta fiscal, considerada vital para o futuro da gestão Michel Temer.

O presidente em exercício distribuiu nota com elogio a Jucá. “Registro o trabalho competente e a dedicação do ministro Jucá no correto diagnóstico de nossa crise financeira e na excepcional formulação de medidas a serem apresentadas, brevemente, para a correção do déficit fiscal e da retomada do crescimento da economia”, afirmou Temer.

 

‘Pacto’. Jucá afirmou que ficará afastado do governo Temer até o dia em que o Ministério Público ou o Supremo Tribunal Federal se posicionem sobre se há crime ou irregularidade na conversa entre ele Sérgio Machado. No diálogo, o senador peemedebista propõe um “pacto” para acabar com a Operação Lava Jato. “Não fiz nada, mas não adianta opinar agora”, afirmou .

Além de sugerir um “pacto”, durante a conversa Jucá afirma que “caiu a ficha” de líderes do PSDB – possível referência ao potencial de danos que a Lava Jato pode provocar em diversos partidos. “A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos (...) E o PSDB, não sei se caiu a ficha já”, diz Machado. “Caiu. Todos eles”, responde Jucá.

 

Supremo. Jucá, alvo de seis inquéritos no STF, e Machado discutem ainda o impacto da decisão da Corte de autorizar prisões já em 2. ª instância, antes de esgotados todos os recursos, na operação. “Objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez, vai todo mundo delatar”, diz o ex-presidente da Transpetro. “Exatamente, e vai sobrar muito”, responde o senador.“ Eu estou muito preocupado porque eu acho que... O Janot (Rodrigo Janot, procurador geral da República) está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho”, diz Machado.

Nas conversas, de cerca de 1h15, Jucá diz, sem citar nomes, que havia falado sobre a Lava Jato com ministros do Supremo.

Ele afirma que eventual governo Temer deveria construir um “acordo nacional” com o STF. Ontem, porém, o senador afirmou que tem conversado com ministros da Corte sobre a “realidade econômica do País”.

Jucá disse que Temer chegou a pedir para ele permanecer no cargo. “Volto para o Senado para fazer o embate”, anunciou, ressaltando que ainda não tinha comunicado a decisão ao presidente em exercício.

No Senado, Jucá ressaltou que focará no trabalho para aprovação da revisão da meta fiscal. “Quem não aprovar a meta está votando contra o povo brasileiro”, disse.

O anúncio de Jucá foi feito após ele entregar ao presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), a proposta de alteração da meta fiscal junto com Temer. A ida deles ao Congresso foi alvo de protestos no Legislativo.

 

Manifestantes seguravam cartazes e gritavam“ golpista” para Temer. “Tenho defendido rápida investigação dos casos da Lava Jato e culpar quem tem culpa”, disse. Antes da entrevista, ao deixar o Congresso, Temer afirmou que estava avaliando “com calma” o que fazer em relação a Jucá.

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Saída dá alívio, mas não deve resolver problema do governo

João Domingos

O pedido de exoneração feito pelo ministro Romero Jucá (Planejamento) pode até dar certo alívio ao governo de Michel Temer, pois tira de sua equipe um auxiliar suspeito de participar da armação de esquema destinado a salvar políticos investigados pela Lava Jato. Mas não resolve um problema maior, com vício de origem, o da nomeação de ministros de alguma forma suspeitos de serem beneficiários de desvios de dinheiro da Petrobrás.

Temer conta com respaldo dos favoráveis ao impeachment que, com a pressão das ruas, o ajudaram a chegar ao poder. Mas esses cidadãos, que brandiram faixas a favor da Lava Jato e do juiz Sérgio Moro, disseram querer outro governo, sem manchas, ao contrário daquele do PT que combateram.

O presidente em exercício precisa levar em conta que manter ministros citados na Lava Jato só lhe trará problemas. Principalmente depois da suspeita de que o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, um dos primeiros envolvidos nas denúncias de corrupção na Petrobrás, teria negociado com o Ministério Público um acordo de delação premiada que envolve um salvo-conduto à base de gravações ocultas com os mais diversos políticos.

Hoje, amanhã ou depois, o conteúdo de novas conversas cabeludas pode aparecer.

Sem contar que outras, já entregues ao Ministério Público, poderão gerar novas etapas da Lava Jato. É uma situação que pode se tornar fatal para o governo.

 

 

É COORDENADOR DO SERVIÇO ANÁLISE POLÍTICA DO BROADCAST POLÍTICO

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‘Vamos fazer o enfrentamento’ afirma senador

Após anunciar que deixaria o Planejamento, Romero Jucá disse que, de volta ao Senado, vai partir para o “enfrentamento” como PT. “Para evitar babaquices como esta e manipulações do PT, vamos fazer enfrentamento onde precisar fazer. Não temos medo de cara feia nem de gritaria. Principalmente de gente atrasada, irresponsável, que quebrou o País. Faremos enfrentamento e vamos aguardar o MPF (Ministério Público Federal), porque estou consciente de que não cometi irregularidade.” / C.A., T.M., ISABELA BONFIM, IGOR GADELHA e JULIA LINDNER