O Estado de São Paulo, n. 44777, 22/05/2016. Política, A4
Temer escrutina gastos de Dilma no Planalto
Alberto Bombig
A equipe do presidente em exercício Michel Temer pretende concluir neste mês um levantamento para rebater as acusações e críticas que ele vem recebendo do PT e de setores aliados ao partido nos movimentos sociais e na classe artística. No limite, a auditoria feita pela nova administração pública do País tentará demonstrar que a presidente afastada Dilma Rousseff praticou “malversação de recursos públicos”, o que é crime conforme a lei.
Nesta segunda-feira, Temer concede uma entrevista coletiva para fazer uma prestação de contas do que encontrou, porém ele não deverá abordar esse tipo de gastos e se concentrará apenas na análise do cenário mais amplo das finanças do País. Segundo o ministro Geddel Vieira Lima, será “uma satisfação” dada à sociedade de como o governo em exercício encontrou a administração pública, mas sem revanchismo. “Não é um inventário com espírito revanchista”.
O “inventário revanchista”, no entanto, vem sendo preparado, conforme apurou oEstado. Esse escrutínio abrange os gastos diretos da Presidência da República, incluindo despesas do governo federal realizadas por meio do cartão de pagamento do governo, o chamado “cartão corporativo”. A título de ilustração, só em 2014, último ano do primeiro mandato de Dilma, o núcleo administrativo ligado diretamente à presidente gastou R$ 747,6 milhões.
A análise dos gastos, no entanto, não se limitará à Presidência. Já foram encontrados indícios do mau uso do dinheiro público pela gestão petista em áreas como educação, cultura e gastos do governo federal no exterior. Editais e licitações serão revirados. Estão na mira ainda publicidade e comunicação. Nesses setores, no entanto, a auditoria informal está longe de terminar.
Foco. A equipe de Temer também está passando um “pente-fino”, nas palavras de um assessor do presidente em exercício, nas despesas do Palácio do Planalto com a realização de eventos oficiais que acabaram se transformando em atos de defesa do mandato de Dilma, neste ano e em 2015.
Gastos com viagens, hospedagens e despesas pessoais de integrantes da antiga gestão e com convidados de Dilma são outros alvos da apuração, que está sendo mantida em sigilo. Oficialmente, o governo Temer nega que esteja escrutinando as contas da gestão Dilma, mas um ministro confirmou ao Estado a iniciativa. Segundo ele, a medida só foi determinada após o que o presidente em exercício considerou ser um ataque frontal e desleal aos primeiros dias de seu governo interino e ao País com a série de entrevistas de Dilma a veículos de comunicação estrangeiros.
Para Temer, Dilma diminui a imagem do Brasil e joga contra a recuperação do País ao propagar a ideia de que a governo interino é fruto de um golpe contra as instituições apenas para defender seus interesse pessoal.
Reservadamente, o núcleo mais próximo de Temer, dentro e fora do governo, avalia que Dilma e setores do PT desprezaram os sinais feitos por eles de que não promoveria uma retaliação ou uma “caça às bruxas” à gestão da petista.
Ainda não há consenso dentro do governo interino se o resultado da autoria deve ser divulgada e de que maneira. Uma corrente importante defende a estratégia de que Temer deve centrar forças na recuperação da economia e ignorar os ataques de Dilma e do PT.
No entorno do presidente em exercício, a tendência é para que ele evite na entrevista de amanhã termos com “herança maldita”, numa referência à situação encontrada. A avaliação é de que esse termo está intimamente ligado à maneira como os governos petistas se referiam aos anos FHC.
Cultura e vitrines. Na área da cultura, Temer quer que o novo secretário nacional do setor, Marcelo Calero, levante todos os gastos do antigo MinC com projetos, patrocínios e diárias. O presidente interino busca munição contra as acusações da classe artística de que promove uma desmanche de projetos e de políticas públicas.
Uma das missões de Calero é demonstrar que os recursos do antigo MinC eram desperdiçados e direcionados a um grupo de artistas e produtores privilegiados pela antiga gestão.
Cortes foram feitos. Um ex-ministro de Dilma ouvido pela reportagem afirmou que a própria presidente afastada já reduziu neste ano os gastos diretos da Presidência e que a auditoria de Temer tem por objetivo intimidar e denegrir Dilma.