Correio braziliense, n. 19340, 08/05/2016. Política, p. 5
Gleisi e Bernardo denunciados
Procuradoria segue entendimento da Polícia Federal e pede ao Supremo a abertura de processo contra o casal por corrupção passiva
Por: Eduardo Militão
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ofereceu ao Supremo Tribunal Federal (STF) denúncia contra a senadora Civil Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o ex-ministro do Planejamento e das Comunicações Paulo Bernardo no âmbito da Operação-Lava Jato. A denúncia da PGR ocorre 37 dias depois de o casal ter sido indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva. O inquérito policial concluiu que os dois receberam R$ 1 milhão de propina em contratos firmados entre empreiteiras e a Petrobras. O valor foi utilizado para custear as despesas da eleição dela ao Senado em 2010. O empresário Ernesto Kugler Rodrigues, de Curitiba, também indiciado no inquérito, foi igualmente denunciado pela PGR.
Telefonemas e registros de estações rádio-base (ERBs), as populares torres de celular, foram as principais provas usadas pela Polícia Federal para indiciar Gleisi e Bernardo por corrupção passiva. Com o material analisado e uma nova delação premiada, do advogado Antônio Carlos Fioravante Pieruccini, os policiais entenderam que há indícios suficientes para confirmar as afirmativas de outros dois delatores: o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef.
Segundo a PF, Bernardo teria solicitado R$ 1 milhão a Costa, em operação conduzida por Alberto Youssef. Para a PF, o ex-ministro tinha conhecimento de que os valores eram ilícitos, caso contrário não os teria solicitado ao ex-diretor da Petrobras. “O caso presente parte de narrativas convergentes e foi sendo instruído com depoimentos e com algumas provas técnicas, baseadas em registros telefônicos, substancialmente”, explica a PF, no relatório entregue ao STF.
Ligações suspeitas
Segundo a polícia, Kugler Rodrigues é o elo entre o esquema na Petrobras e a campanha de Gleisi. De acordo com a PF, embora a parlamentar negue, ele também atuou na arrecadação de fundos, segundo interpretação dos 25 telefonemas travados pelo empresário e o tesoureiro da parlamentar, Ronaldo Baltazar, e de três ligações para números registrados em nome de Gleisi. Um telefonema do empresário para Pieruccini, intermediário de Youssef, em período eleitoral, indica uma das quatro entregas de dinheiro vivo, segundo a polícia. A conversa durou 50 segundos e foi travada às 16h58 de 3 de setembro de 2010. Às 15h35 e às 16h26, antes da ligação, a própria senadora Gleisi telefona para a sede do PT em Curitiba. Horas antes, às 10h30, o partido recebia telefonema de Kugler.
Torres de celular mostram que, no dia anterior, Pieruccini estava em São Paulo, onde visitou os escritórios de Youssef, segundo análise da PF nos registros de portaria do doleiro. O advogado disse que, em quatro ocasiões, pegou em São Paulo pacotes de dinheiro com R$ 250 mil para entregar ao empresário em Curitiba, parte deles com a anotação “PB/Gleisi”. Pieruccini disse que a última entrega de dinheiro ocorreu em agosto ou setembro de 2010, em seu próprio apartamento, na Água Verde — exatamente a localização de Kugler naquele dia.
R$ 1 MILHÃO
Valor em propinas da Petrobras que teria sido repassado para Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo
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Responsáveis pela defesa de Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, os advogados Rodrigo Mudrovitsch e Verônica Sterman rebateram, em nota, a denúncia oferecida contra os dois. Em relação à senadora, a dupla diz ter recebido com “inconformismo” a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal. “Todas as provas que constam no inquérito comprovam que não houve solicitação, entrega ou recebimento de nenhum valor por parte da Senadora. A denúncia sequer aponta qualquer ato concreto cometido. Baseia-se apenas em especulações que não são compatíveis com o que se espera de uma acusação penal”, diz a nota. No caso de Paulo Bernardo, os advogados afirmam que a acusação criminal se baseia em “declarações contraditórias e inverossímeis”.
Youssef acusa Bernardo de solicitar a Paulo Roberto Costa a entrega de R$ 1 milhão para a campanha. O ex-diretor da Petrobras disse que foi o doleiro que informou da intenção do ex-ministro em obter o dinheiro. Depois de uma acareação, no entanto, Paulo Roberto disse que “não se recorda de Paulo Bernardo ter feito o pedido”. Na agenda do ex-funcionário, a polícia encontrou a anotação “PB 1,0”, que significaria R$ 1 milhão para o ex-ministro.
Para a PF, o importante é que um dos dois delatores agiu a pedido do marido da senadora. “É natural, portanto, que lhes escape à memória um ou outro detalhe sobre o ocorrido”, diz o relatório policial. Para a defesa de Gleisi, a divergência entre os delatores revela contradição e a tentativa de, com a delação de Pieruccini, “dar validade” aos primeiros depoimentos de Youssef e Paulo Roberto.
A senadora disse ao Correio que o empresário Ernesto Kugler Rodrigues é um “amigo” e destacou que o irmão dele é filiado ao PT. “Ele participou de eventos de minha campanha de 2010, mas não atuou na captação de recursos. Era mobilizador de lideranças, principalmente da área empresarial, auxiliando na organização de jantares e encontros”, explica. A senadora desqualificou o depoimento de Pieruccini: “O delator que afirma ter entregue dinheiro a Ernesto Kugler fez a delação mediada pelo mesmo advogado de Alberto Youssef”, aponta. (EM)
Frase
“O delator que afirma ter entregue dinheiro a Ernesto Kugler fez a delação mediada pelo mesmo advogado de Alberto Youssef”
Gleisi Hoffmann (PT-PR), senadora