Correio braziliense, n. 19350, 18/05/2016. Economia, p. 7
Sem medidas concretas, Meirelles frusta mercado
Rosana Hessel
O governo tentou ontem criar um fato extremamente positivo com a divulgação da equipe econômica, mas a reação ficou pela metade. Apesar de aprovarem os nomes anunciados pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, os investidores se ressentiram de medidas concretas para retirar o país do atoleiro e do fato de o time estar incompleto. Na avaliação de especialistas, enquanto não for apresentado um plano concreto de ajuste fiscal, com corte de despesas e reformas como a da Previdência Social, vai imperar a desconfiança.
Para indicar que está atento aos anseios do mercado, Meirelles recorreu ao mantra que adotou desde que chegou ao governo: “Devagar, que eu estou com pressa”. O tempo dele, porém, pode estar aquém do que os agentes econômicos consideram necessário para a administração de Michel Temer agir. O rombo nas contas públicas não para de crescer. As novas estimativas apontam para um buraco de até R$ 150 bilhões. Enquanto não houve um plano consistente de arrumação das contas públicas, as taxas de juros não poderão cair.
Meirelles acredita que os investidores lhe darão crédito pelo tempo que precisar. E depositou essa confiança na equipe conhecida ontem. O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, assumirá a Presidência do Banco Central, no lugar de Alexandre Tombini, que permanecerá na função até que o nome do sucessor seja aprovado pelo Senado. O ministro ressaltou que Tombini poderá continuar no governo. “Gostaria de dizer que contamos, sim, com a hipótese de Alexandre Tombini continuar integrando a administração federal”, afirmou.
Carlos Hamilton, ex-diretor do Banco Central, será secretário de Política Econômica da Fazenda. Mansueto Almeida, pesquisador licenciado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), responderá pela Secretaria de Acompanhamento Econômico. Já o economista e pesquisador do Ipea Marcelo Caetano comandará a Secretaria de Previdência Social, responsável por traçar as diretrizes da polêmica reforma que o governo promete levar adiante. Segundo o ministro, Hamilton será o “formulador da política econômica” e Almeida terá como missão fazer um profundo diagnóstico das contas públicas.
A equipe da Fazenda conta ainda com Tarcísio Godoy na Secretaria Executiva e com o economista Marcos Mendes, consultor do Senado e autor de um estudo sobre pedaladas fiscais, como assessor especial de Meirelles. Permanecem nos cargos os secretários da Receita Federal, Jorge Rachid, e do Tesouro Nacional, Otávio Ladeira, em função da experiência que possuem, algo positivo no entender dos investidores. Os nomes para os bancos públicos — Caixa Econômica e Banco do Brasil, principalmente — serão anunciados em um segundo momento, provavelmente, ainda nesta semana.
Cide e CPMF
Sem propostas concretas nas mangas, Meirelles fez questão de ressaltar que a proposta de reforma da Previdência é para valer. Ele destacou que partiu dele a sugestão para que fosse criado um grupo de estudos que, em 30 dias, apresentará um diagnóstico completo e o que é possível fazer para estancar o deficit nas contas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O acerto foi feito em reunião, anteontem, entre Temer e representantes de centrais sindicais. Para o ministro, à medida que os agentes econômicos forem se conscientizando do esforço do governo para arrumar a economia, a confiança voltará e a retomada da atividade se dará de forma gradual. “A retomada da confiança é algo geométrico, começa devagar e depois acelera”, disse ele, acrescentando que a prioridade do governo será aumentar o emprego, depois o consumo e a arrecadação.
Além do corte de quatro a cinco mil cargos comissionados já anunciados pelo ministro do Planejamento, Romero Jucá, o chefe da equipe econômica avisou que haverá redução de subsídios, subvenções e de despesas diretas antes de o governo anunciar aumento de impostos. Ele reforçou que a recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) depende dos números que sua equipe encontrará. Isso permitirá à Fazenda “traçar as mudanças estruturais”. Também não há qualquer decisão quanto a um possível aumento da Cide, o imposto sobre os combustíveis, mas ele avisou que “segue estudando o tamanho do buraco das contas públicas e todas as medidas para aumentar a arrecadação”.
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Geddel pede um pouco de paciência
Diante da pressão dos investidores por medidas concretas para o ajuste fiscal, o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, pediu “paciência” e “um tempo mínimo” para que a administração de Michel Temer possa apresentar resultados na economia. “É um governo de dois dias, mas a sensação que tenho é que estamos no governo há quatro anos”, afirmou. Depois de uma reunião com Temer e líderes da base aliada, Geddel admitiu que o governo ainda precisa concluir o levantamento “dos erros gravíssimos” da gestão passada. “Não tem lua de mel com o mercado. Há um casamento que começou com uma rapidez danada”, ressaltou.
A preocupação é grande. Segundo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o governo precisa resolver, o mais rapidamente, o problema da meta fiscal. Há uma proposta no Congresso que prevê a mudança do objetivo a ser alcançado pelo Tesouro Nacional, de superavit de R$ 24 bilhões para rombo de até R$ 96,7 bilhões. O problema é que o buraco será maior e isso exigirá nova mudança projeto que alter a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano. “Os prazos serão respeitados e, obviamente, a partir daí faremos a melhor avaliação possível”, disse. O governo tem até o dia 22 para enviar ao Congresso o relatório de avaliação de receitas e despesas com as novas projeções e, provavelmente, a nova meta. Caso contrário, precisará anunciar um novo corte no Orçamento até o fim do mês.
Pelas estimativas de fontes próximas ao governo, o rombo fiscal deste ano está em torno de R$ 150 bilhões, considerando R$ 20 bilhões da bomba fiscal do pacote de bondades de Dilma Rousseff, que incluem os reajustes do Bolsa Família e da tabela do Imposto de Renda e a ampliação do programa Minha Casa Minha Vida. No entanto, especialistas mais pessimistas acreditam que esse deficit pode ser ainda maior, de R$ 200 bilhões, considerando a necessidade de aportes da União em bancos públicos e em estatais, como a Caixa Econômica Federal e a Eletrobras.
A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for Iternational Economics, de Washington, estima o deficit primário deste ano poderá chegar a 4% do Produto Interno Bruto (PIB). “Essa é a herança da Dilma. É com isso que o novo governo precisará trabalhar e, com esse resultado, a dívida pública bruta poderá facilmente chegar a 80% do PIB neste ano”, avisou. (RH)
Gustavo Franco elogia dream team
O ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco fez elogios aos nomes anunciados ontem pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para a presidência do BC e outros cargos da área econômica do governo. “Se pensarmos nos nomes que estavam nessas posições semanas atrás, pode-se dizer que é um dream team, foi uma mudança da água para o vinho”, disse, em São Paulo. Na avaliação de Franco, o economista Ilan Goldfajn, indicado para o comando do BC, “é nome da mais alta qualificação”.
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Cronômetro foi ligado
Os economistas já ligaram o relógio para medir o tempo que a equipe econômica nomeada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, levará para criar um ambiente menos hostil para os negócios. Todos reconhecem a qualidade dos escolhidos, mas o estrago na economia provocado pela presidente afastada, Dilma Rousseff, foi tão grande que só o currículo não será suficiente para mudar a rota do país.
Para Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, a estratégia de avaliar a situação primeiro para anunciar medidas depois talvez até seja adequada, dada a situação política. “Mas também não pode demorar muito. A ansiedade do mercado é grande”, afirmou.
Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, há boas notícias no horizonte, mas é preciso mais. “Estou otimista com a equipe econômica. Temos um time de qualidade que não víamos desde 2003. Vamos esperar por ações concretas para resolver os problemas na área fiscal”, destacou. “Como voto de confiança, revisamos a projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2017 de 0,6% para 2%’’, comentou.
Meirelles reconheceu, porém, que ainda há uma pendência para a retomada do crescimento: o processo de impeachment de Dilma Rousseff, afastada do cargo por até 180 dias após a aprovação no Senado Federal da admissibilidade do processo de impeachment. “O Senado é soberano e vai tomar decisão de acordo com as incertezas”, disse.
Na avaliação de Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon, as escolhas de Meirelles “são unanimidades”, dentro das reformas que o novo governo busca. “Fica no Tesouro Otávio Ladeira, pessoa que enfrentou o (ex-secretário) Arno Augustin dentro da máquina. Com Jorge Rachid na Receita Federal e a volta de Tarcísio Godoy na Secretaria Executiva, a equipe passa a ter dois nomes do ministério de Joaquim Levy”, afirmou.
Para Montero, o titular da Secretaria de Política Econômica, Carlos Hamilton, pode ser um canal de comunicação importante entre o fiscal e o monetário, pois tinha uma postura mais hawkish (agressiva) no Banco Central. “A coordenação entre uma política fiscal crível e confiável com a política monetária tempestiva será importante”, destacou.
A equipe de Meirelles, agradou, sobretudo, ao sistema financeiro. Segundo o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, a nomeação de Ilan Goldfajn para o comando do Banco Central será fundamental no desafio de resgatar o crescimento econômico do país, permitindo a geração de emprego e conquistas sociais. Para o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, é grande a expectativa na adoção de ações que permitam a volta do crescimento econômico. (RH).