O Estado de São Paulo, n. 44788, 02/06/2016. Política, p. A8
Dilma politiza sua defesa no Senado
Defesa da presidente afastada alega que impeachment tinha por objetivo parar as investigações da Lava Jato e nega a existência de crime
Por: Isabela Bonfim / Julia Lindner
A defesa prévia da presidente afastada Dilma Rousseff terá um caráter mais político na segunda fase do processo de impeachment. Ontem, o ex-advogado-geral da União José Eduardo Cardozo entregou no Senado um documento com 372 páginas em que a defesa destaca um movimento a favor do impedimento da petista com o objetivo de parar as investigações da Operação Lava Jato.
Segundo Cardozo, a defesa continua na linha de mostrar a inexistência de crime de responsabilidade. Entretanto, os fatos novos estão centrados nas recém-divulgadas gravações do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, em que lideranças políticas do PMDB criticam a Lava Jato. Em um dos áudios, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) fala em “mudar o governo” para “estacar essa sangria”, considerada uma referência às investigações. Jucá deixou o Ministério do Planejamento após divulgação da conversa.
“No início, atribuímos o desvio de poder só a Eduardo Cunha (presidente afastado da Câmara). Agora fica claro que, em larga medida, outras lideranças promoveram articulação para o impeachment não por crime, mas porque queriam um novo governo para firmar um pacto de que a Operação Lava Jato fosse interrompida”, disse Cardozo.
A defesa pede à comissão do impeachment que requisite ao Supremo Tribunal Federal o compartilhamento da delação premiada de Machado, além de cópias das gravações realizadas por ele em diálogo com Jucá e o ex-presidente José Sarney.
“As gravações de Jucá e Sarney têm uma menção mais explícita ao impeachment, elas mostram nitidamente que o afastamento deveria ocorrer porque o governo não impedia as investigações”, argumentou.
Cardozo afirmou que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), é citado na peça da defesa, mas que sua gravação não é necessária, porque não traz evidências relacionadas ao impeachment.
Acesso. Contando com essa hipótese, senadores da base de Michel Temer argumentaram que, caso a defesa requisitasse essas gravações, eles também pedirão que sejam incluídos áudios da Lava Jato. “Se há legitimidade para juntada das gravações, faremos o mesmo e pediremos as gravações da presidente tentando obstruir a Justiça ao nomear Lula como ministro”, disse o líder do PSDB, Cássio Cunha Lima (PB).
Cardozo negou que esteja trazendo fatos da Lava Jato para dentro do impeachment e disse não temer que a acusação faça o mesmo. Desde o início, a defesa de Dilma argumenta que o processo de impeachment deve estar limitado à análise das pedaladas fiscais e edição de créditos suplementares.
“Não estamos incluindo fatos da Lava Jato. O que estamos dizendo é que houve desvio de poder porque pessoas abriram o processo de impeachment para impedir a Lava Jato. Se pessoas querem o impeachment para barrar a Lava Jato, isso tem a ver com o impeachment e não com a Lava Jato”, argumentou.
Peritos. Para refutar a tese de que Dilma cometeu crime responsabilidade, a defesa pretender agir em outra via, a partir de pareceres técnicos. Segundo Cardozo, a defesa sugere pelo menos 50 testemunhas que podem ser ouvidas no processo, além de pedir que sejam ouvidos mais de uma dezena de peritos técnicos e consultores.
Entre essas testemunhas estão técnicos de diferentes ministérios e nomes que atuaram no governo da petista, com o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa e o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho.
O objetivo, segundo Cardozo, é mostrar que Dilma não tem a autoria das pedaladas fiscais e que os créditos suplementares não interferiram no cumprimento da meta fiscal.
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Por: Carla Araújo
Após três anos tentando conseguir uma audiência com Dilma Rousseff, o ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP) se reuniu ontem com a presidente afastada no Palácio da Alvorada. A reunião, que durou cerca de 50 minutos, foi “ótima”, segundo ele. “Na conclusão, ela aceitou a sugestão de constituir o grupo de trabalho para estudar as etapas da lei que institui a renda básica de cidadania”, disse o ex-senador.
Ano passado, Dilma cancelou uma agenda com o petista, que ocupava a pasta de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo.
Na ocasião, Suplicy desabafou nas redes sociais. “Após 2 anos de espera, finalmente ontem teria uma audiência com a presidenta Dilma. Já em Brasília, super animado, recebi um telefonema cancelando o encontro. Fiquei triste, mas não desistirei”, escreveu. /CARLA ARAÚJO
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Por: Carla Araújo / Tânia Monteiro
Após três semanas de governo e duas baixas na equipe ministerial, o presidente em exercício Michel Temer usou ontem a cerimônia de posse de presidentes de estatais no Palácio do Planalto para dizer que “eventuais oportunistas” não vão atribuir a ele erros do passado.
Embora tenha dito “pela enésima vez” que não há interesse nem possibilidade de interferência na Lava Jato, a defesa das investigações foi tímida.
Temer apostou em um evento pouco usual na rotina do Planalto, a posse de presidentes de estatais, pelo currículo dos participantes.
Nomes como o ex-ministro Pedro Parente, que assume a Petrobrás, e a economista Maria Silvia Bastos Marques (BNDES) têm respaldo do setor privado. O discurso foi bastante dedicado às questões econômicas pela avaliação do governo de que o resultado do PIB divulgado ontem – queda de 0,3% no 1.º trimestre de 2016 foi“ menos pior do que o esperado”.
Havia expectativa de que o presidente em exercício fizesse um forte discurso no qual reafirmaria o compromisso com o combate à corrupção. “A toda hora eu leio uma ou outra notícia de que o objetivo é derrubar a Lava Jato, por isso que eu tomo a liberdade, sem nenhum deboche, de dizer pela enésima vez: não haverá a menor possibilidade de qualquer interferência do Executivo nessa matéria.” Foi a delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado a responsável por derrubar Romero Jucá e Fabiano Silveira do Ministério. Temer não citou a crise envolvendo a queda de seus ministros. “Não falarei em herança de espécie nenhuma.” / COLABORARAM MURILO RODRIGUES ALVES e ADRIANA FERNANDES