'Sem FAB não tem coração', diz enfermeira após 3 órgãos perdidos
05/06/2016
Morte de menino de 14 anos fez Justiça ordenar urgência
Pacientes da fila de espera por um coração em Brasília tiveram pelo menos três oportunidades de transplante no fim de 2015, todas elas perdidas por falta de aviões da Força Aérea Brasileira para transportar a equipe de captação. Em um dos casos, o órgão surgiu em Goiânia, a 220 quilômetros da capital federal, e mesmo assim não foi aproveitado.
Os três casos foram um prenúncio do que ocorreria no primeiro dia de 2016. A FAB se recusou a buscar um coração saudável em Pouso Alegre, Minas, para ser transplantado em Gabriel Langkamer, de 12 anos, internado na ocasião em uma UTI em Brasília. O menino morreu 14 dias depois. A história foi revelada pelo GLOBO em janeiro.
A divulgação do caso de Gabriel levou a uma investigação na Procuradoria da República no Distrito Federal. Depois de três meses de apuração, o MPF entrou com uma ação civil pública, pedindo que a FAB sempre providencie o transporte quando surgir uma oferta de órgão. Em 22 de abril, uma decisão judicial concordou com a ação e determinou, em caráter de máxima urgência, que o governo providencie o transporte para o transplante de órgãos.
A ação do MPF reproduziu o diálogo entre uma enfermeira da central de regulação de transplantes do DF e uma funcionária da Central Nacional de Transplantes (CNT), que havia solicitado a um militar da FAB, sem sucesso, transporte para buscar o coração no interior de Minas. A servidora contou: “Ele até falou: ‘Essa semana cês pediram três vezes’. E eu falei: ‘Pois é, e três vezes fui eu.’ E três vezes...”
A enfermeira completou: “E as três vezes foi a recusa. Coração só pode ser com FAB. Sem FAB não tem coração.”
O GLOBO analisou três recusas de transporte pela FAB no fim de 2015. Os corações, de fato, haviam sido ofertados para os pacientes de Brasília. A primeira recusa ocorreu em 16 de dezembro. O coração surgiu em Lages (SC) e foi ofertado à central do DF. Faltaram meios para transportá-lo. Depois, um novo órgão surgiu em Cascavel (PR) no dia 20, com possibilidade de captação no dia seguinte. Se houvesse transporte, um dos destinatários seria o agricultor Firmino da Cruz, que estava internado numa UTI em Brasília.
A terceira oferta partiu de Goiânia, às 22h33m de 28 de dezembro. A central de regulação em Goiás disponibilizou coração, fígado e pulmões. O coração foi oferecido a Brasília pela central nacional, mas “não houve transporte disponível”, como confirmou a Secretaria de Saúde do DF. São Paulo, por sua vez, aceitou o fígado e o buscou na capital goiana usando um pequeno avião. Os pulmões não foram aproveitados por razões clínicas dos pacientes na fila.
MINISTÉRIO ADMITE FALHAS
Em 2015, a CNT viabilizou o transporte de 1.164 órgãos e 2.409 tecidos por meio do termo de cooperação com empresas aéreas e FAB. Os órgãos transportados na rota comercial ano passado foram córneas (1.187), rins (877) e ossos (678).
Os números do transplante no Brasil, país de dimensões continentais, são superlativos. Numa comparação entre 30 países, em números absolutos, o Brasil é o segundo país que mais faz transplantes de rim e fígado. Falhas, porém, existem e são reconhecidas pelo Ministério da Saúde. “O governo federal mantém constante diálogo com as empresas para aprimorar, cada vez mais, os processos que envolvem o transporte aéreo de órgãos e tecidos para transplantes. A revisão constante dos procedimentos permite identificar falhas, analisar pontos de atenção especial, além de propor e implantar melhorias na operacionalização dos transportes”, diz o ministério.