Em guinada, Itamaraty receberá o líder da oposição na Venezuela

 

02/06/2016

Daniel Rittner

 

Em mais uma virada relevante na política externa brasileira, o governador de Miranda, Henrique Capriles, um dos líderes da oposição ao regime chavista na Venezuela, deverá ser recebido no Itamaraty ainda neste mês. O ministro das Relações Exteriores, José Serra, deu sinal verde ao encontro, que só depende de uma articulação das agendas.

Trata-se de muito mais do que uma formalidade: Capriles, candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2013, nunca pisou nos gabinetes do Poder Executivo em Brasília durante os 13 anos da era petista. Seus contatos com os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou da presidente afastada Dilma Rousseff se restringiram a reuniões com ex-chanceleres brasileiros que viajaram à Venezuela para mediar o diálogo entre chavismo e oposição. Esses encontros, no entanto, sempre foram coletivos e nunca ganharam o status de reunião bilateral.

Na avaliação reservada do Itamaraty, Capriles é hoje o opositor com maiores condições de fazer uma eventual transição suave e sem incendiar o país, em caso de queda do chavismo. Ele é elogiado por diplomatas experientes pela capacidade de diálogo e por ter adotado uma postura mais conciliadora do que outros antichavistas, como o ex-prefeito Leopoldo López - preso desde 2014 acusado de incitar a violência em manifestações políticas contra o governo.

O atual governador do Estado de Miranda - cujo território abrange parte da própria capital venezuelana - é uma das principais lideranças do movimento de coleta de assinaturas para a realização de um referendo popular que pode resultar na saída do presidente Nicolás Maduro.

O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela (CNE), dominado pelo chavismo, tem usado todos os prazos possíveis para adiar a realização da consulta. Se Maduro cair antes de janeiro de 2017, realizam-se novas eleições presidenciais. Se for depois, o vice-presidente assume e completa o restante do mandato. O vice não é eleito, mas designado pelo presidente e pode ser alterado a qualquer momento.

Em 2002, Capriles foi preso logo após a tentativa de golpe contra Hugo Chávez. Ela era acusado de liderar uma invasão da embaixada de Cuba, em desrespeito à Convenção de Viena, que garante a inviolabilidade das representações diplomáticas. Também recebia acusações de ter participado de agressões físicas a um ministro chavista. Julgado e absolvido, amenizou sua linha de atuação e tem defendido a saída de Maduro unicamente pela via eleitoral.

Logo depois de sua frustrada tentativa de chegar ao Palácio de Miraflores, sede do Executivo, Capriles resistiu às pressões da oposição para contestar o resultado eleitoral e tem pregado que só é possível alcançar o fim do chavismo por meio das urnas.

Serra, que assumiu o Itamaraty há três semanas, provocou uma reviravolta na política externa brasileira. No segundo dia como chanceler, o Ministério divulgou duas notas, em tom duríssimo, nas quais repudiava declarações de cinco países - entre os quais a Venezuela - que "propagavam falsidades" sobre o processo de impeachment da presidente Dilma. Maduro chegou a anunciar que convocara seu embaixador em Brasília para consultas em Caracas, despertando receios de uma crise diplomática, mas o governo jogou panos quentes e procurou autoridades brasileiras para informar que ele já estava em Caracas antes mesmo das notas do novo chanceler brasileiro.

 

Valor econômico, v. 17, n. 4017, 02/06/2016.  Internacional, p. A11