‘Quem manda nesse caboclo do Pará sou eu’
16/06/2016
Letícia Fernandes
-BRASÍLIA- O voto do deputado Wladimir Costa (SD-PA) no Conselho de Ética surpreendeu adversários e aliados de Eduardo Cunha. Ele contou ao GLOBO que, pouco antes da votação, avisou à bancada do Solidariedade, por WhatsApp, que não ajudaria o peemedebista. Nesta entrevista, disse que “não poderia pagar a fatura” no lugar do acusado, a quem “não deve nada”, e reforçou que tem controle sobre o próprio voto.
Por que o senhor mudou o voto na hora H?
Não tem hora H, uma coisa é orientação partidária, outra é o meu voto. O (Carlos) Marun (PMDB-MT) pediu para eu fazer o encaminhamento (contra o relatório aprovado), mas o meu voto é meu, e, cerca de duas horas antes da votação, tive a elegância de comunicar o partido no grupo do WhatsApp do Solidariedade, onde está o Paulinho (da Força), dizendo que não tinha condições. São muitos fatos novos, a questão do Banco Central, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo mais indiciamento. Já não era mais só a questão da suposta mentira, foi um emaranhado de acontecimentos que vieram implodindo, não me sentiria confortável. Sem fazer proselitismo barato, muita gente está com medo da suposta lista do Eduardo Cunha, onde ele diz que, se for cassado, vai entregar 150, 200 nomes. Mas, se eu tivesse medo de ser citado nessa lista, não votaria contra. Não houve mudança repentina de opinião nem fui induzido a nada por causa da Eron. Vinte e quatro horas antes decidi que votaria contra Cunha.
Eles responderam a mensagem?
A bancada do Solidariedade toda achou que fui correto. Ainda não ouvi o Paulinho, mas os demais colegas estão dizendo que foi correto e coerente e que, no meu lugar, fariam a mesma coisa.
O Paulinho disse a deputados que foi pego de surpresa...
Só se ele não leu a mensagem no WhatsApp, mas nós somos tão poucos, e ele é bastante assíduo no grupo. Pensei na questão matemática: o que o meu voto valeria ali depois do da Tia Eron? Só ia dar o sabor de votar para o José Carlos Araújo, presidente do Conselho. O meu voto não o salvaria mais.
Cunha ficou irritado com a mudança do seu voto.
É um problema pessoal dele, não devo nada ao Cunha. Lamento profundamente que o colega esteja nesse calvário, mas cada um que faz o seu mingau que beba. Se ele fez o mingau dele, que beba sozinho, não leve ninguém. Não foi minha mulher gastando US$ 1 milhão com sapatos e roupas de grife. Não sou eu que tenho que pagar essa fatura, é ele. Óbvio que ele deve ter ficado muito aborrecido, mas não posso fazer nada. Por que eu tenho que pagar pelo aborrecimento dele? Lamento, mas votando a favor dele eu ia pagar um preço moral, político, e tudo por conta de crimes supostamente cometidos por Eduardo. Não posso botar isso na minha biografia. Estou com a consciência em paz.
Tem deputado chamando o senhor de traidor. Foi traição?
Eles são responsáveis pelos votos deles, o Cunha é responsável pela vida dele, e eu, pelas minhas prerrogativas parlamentares. Assim como Tia Eron falou das negas, eu digo: quem manda nesse caboclo do Pará sou eu. No meu voto mando eu. Não tem traição, nunca tive relação política com Cunha. Não é justo me chamarem de traidor.
O senhor vai votar no plenário a favor da cassação de Cunha?
Não tem como não votar a favor, se chegar no plenário. A não ser que, num milagre extremo, o (procurador-geral da República, Rodrigo) Janot retirasse a denúncia e a PGR dissesse que todos os indícios eram falsos. Fora isso, voto a favor.
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16/06/2016
Alan Gripp
Ainda mais sintomático foi o voto de Wladimir Costa (SDPA), mais um dos soldados “solidários” de Paulinho da Força. Costa nem disfarçou. Dez minutos depois de bradar em defesa de Eduardo Cunha, anunciou sem nenhum constrangimento o seu voto na direção contrária. Arrependimento? Não, instinto de sobrevivência.
Os dois episódios de ontem ajudam a prever o que acontecerá amanhã. O destino de Cunha está praticamente selado. E, como vimos, não porque a Lava-Jato está promovendo algum tipo de revolução ética no Congresso ou coisa que o valha. Mas porque, como bem disse o jornalista Paulo Celso Pereira, um político acompanha o caixão de um aliado até a cova, mas não pula no túmulo.
Nem tudo, porém, é desgraça nessa constatação. Ela mostra que, apesar dos pesares, o sistema de representação política ainda funciona. Ou seja, sob pressão, quem ainda manda é o eleitor. Ou, como se costuma falar, a opinião pública.
Por outro lado, como disse Paulo Preto, outro exemplar inacreditável da política brasileira, a José Serra, não se abandona um líder ferido na estrada. Eduardo Cunha e sua política com o fígado são capazes de tudo. A mínima possibilidade de uma delação premiada dele apavora Brasília desde anteontem. O jogo está só começando.
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Anteontem, a ANJ anunciou que o jornal paranaense e seus profissionais serão contemplados com o Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa. Segundo a entidade, a premiação representa o “apoio a pessoas, jornais ou instituições que tenham se destacado no exercício, na promoção e na defesa da liberdade de imprensa”.
Ontem, a AMB divulgou nota em que classificou a reportagem da “Gazeta do Povo” de “tendenciosa” e disse que a decisão da ANJ de premiar o trabalho era “um atentado ao direito à informação”. A entidade dos magistrados acusa ainda o jornal de “má-fé” por publicar uma remuneração que inclui verbas indenizatórias recebidas esporadicamente, como se fosse mensal.
Publicada em fevereiro, a reportagem mostrou que o rendimento médio dos juízes e dos integrantes do Ministério Público no Paraná, em 2015, superou o teto constitucional em mais de 20%. Já no primeiro parágrafo, o texto diz que a “remuneração de juízes, desembargadores, promotores e procuradores foi complementada por indenizações, pagamentos retroativos e auxílios, incluindo o auxílio-moradia”.
Os dados foram levantados nos portais da transparência do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e do Ministério Público do Paraná (MP-PR). Logo após a publicação da reportagem, os juízes citados ingressaram com uma série de ações contra o jornal e os profissionais. Até agora, foram abertos 45 processos, segundo o jornal.
As ações foram protocoladas em diferentes cidades paranaense no Juizado Especial, que aceita causas de pequeno valor (até 40 salários mínimos) e obriga os profissionais a comparecerem a todos as audiências de conciliação para não serem condenados à revelia. Os jornalistas têm sido obrigados a se afastar do trabalho para comparecer às audiências e rodaram mais de seis mil quilômetros pelo estado. A ANJ classificou a investida como “assédio judicial”.
— As reportagens tratam de um tema de interesse público. No texto, a gente faz a explicação do que é efetivamente salário e do que são outros dispositivos, igualmente legais, que vão formando esse bolo, que no fim é acima do teto. A matéria segue sendo irretocável — afirmou o diretor de redação da Gazeta, Leonardo Mendes Júnior.
A associação dos jornais destaca que respeita a atuação do Poder Judiciário e lembra que o mesmo prêmio entregue agora à “Gazeta do Povo” já foi concedido a dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Carlos Ayres Britto e Cármen Lúcia. No entanto, rejeita o “expediente utilizado no Paraná”, disse o presidente da ANJ, Carlos Lindenberg Neto.
O globo, n. 30.264, 16/06/2016. País, p. 10