O globo, n. 30293, 15/07/2016. País, p. 4

Temer vê ‘distensão’, e governo aposta em votação de reformas

Eleição de Maia, segundo o Planalto, põe fim a momento conturbado

Por: Catarina Alencastro, Júnia Gama e Maria Lima

 

O Palácio do Planalto espera que a vitória de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara supere o momento confuso que a Casa viveu nos últimos tempos e que sejam aprovadas medidas necessárias para recuperar a economia. O presidente interino, Michel Temer, ficou aliviado com o resultado, segundo assessores próximos.

Ao se encontrar com Maia no gabinete presidencial, ontem de manhã, os dois se abraçaram e sorriram. Eles ficaram sozinhos por vinte minutos. Depois, entraram no gabinete o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o líder do governo, André Moura (PSC-SE), o ex-deputado Sandro Mabel (PMDB-GO), a líder do governo no Congresso, Rose de Freitas (PMDB-ES), e o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima.

Minutos antes de receber Maia no Planalto, Temer afirmou que ficou felicíssimo com a “conduta cívica” da Câmara e que a escolha de Maia dará mais harmonia ao Legislativo:

— Teremos uma harmonia muito maior, que será útil para o Executivo. No caso do Executivo, você precisa ter um apoio substancioso do Legislativo, sem o qual fica difícil de governar. Foi uma disputa muito competente e adequada, e teve o resultado que a Câmara desejou — disse Temer, para quem o resultado mostra que o “Brasil está se distensionando”.

Líderes da base governista creem que Maia terá força para encaminhar a pauta de votação de projetos prioritários para o ajuste fiscal, inclusive reformas impopulares como a trabalhista e da previdência. Eles não acreditam que os votos dados a Maia pela oposição de esquerda impeçam a aprovação dessas matérias.

— Tenho certeza que o Rodrigo irá priorizar e tocar a pauta do ajuste. É hora de responsabilidade, não vamos nos furtar a enfrentar o desafio das reformas. Mas não acredito que a oposição entre na pauta das reformas, apesar do Rodrigo ter bom trânsito com eles — disse o líder do DEM, deputado Pauderney Avelino (AM).

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), disse que o compromisso de Maia com sua base é votar até as reformas mais difíceis:

— E essa é nossa expectativa. Que o Rodrigo faça logo agora o que tem que ser feito. Temos que fazer um pacto com os partidos para enfrentar, além da pauta econômica, a pauta política — disse Aécio.

O líder do PT, Afonso Florense (PT-BA), avisou que, apesar de ter liberado a bancada para votar contra Rogério Rosso (PSDDF), candidato do ex-presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não haverá trégua no combate ao que chamou de “golpe” e à pauta governista:

— Vamos continuar a lutar contra o golpe e contra a pauta do governo interino de retirada de direitos . Temer e Maia não terão paz — disse.

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Dia de encontrar os aliados

 

BRASÍLIA- A primeira agenda do novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi agradecer a ajuda do presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), para sua vitória. Durante o encontro, no gabinete do tucano, Maia recebeu uma proposta de emenda constitucional (PEC) para a reforma política, com cláusula de barreira e fim das coligações proporcionais. A PEC ainda não começou a tramitar no Senado. Aécio disse que Maia pode ajudar a priorizar o debate.

Em seguida, Maia foi ao Planalto encontrar o presidente interino, Michel Temer; à tarde visitou o presidente do Senado, Renan Calheiros, e, depois, o amigo e aliado José Serra, ministro das Relações Exteriores.

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Tons distintos na tribuna

Comparação entre as falas de Maia e Cunha, quando se candidataram a comandar a Câmara, mostra que novo presidente quer esfriar ânimos; antecessor frisava independência do Legislativo

Por: FÁBIO VASCONCELLOS

 

Eleito presidente da Câmara, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ) procurou reafirmar, ainda na madrugada de ontem, três ideias gerais com as quais pretende marcar o seu comando à frente da Casa: governar com “simplicidade”, “dialogar com a minoria” e “pacificar o plenário”. Com relação ao ex-presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que enfrenta um processo de cassação de mandato, Maia evitou o confronto: “não vou perseguir, nem vou proteger”. Embora tenha evitado citar o peemedebista, o discurso do candidato do DEM surfou justamente na diferença de estilos e, por consequência, na crise política lastreada nos lances e manobras do seu antecessor.

Com a ajuda de um software de análise de discurso, o Núcleo de Dados do GLOBO comparou as falas de campanha de Maia e Cunha apresentadas no plenário no momento antes da votação para a presidência da Câmara. O comparativo usa uma técnica estatística que procura medir a força de associação das palavras mais usadas pelos dois.

Apesar de se dirigirem para a mesma audiência, os resultados sugerem que Maia e Cunha apresentaram diferenças que se explicam não só pelo estilo pessoal de cada orador, mas pelo cenário político no qual se lançaram candidatos à presidência da Câmara. No gráfico, as palavras em azul estão mais associadas ao discurso de Maia. Ali estão presentes “voto”, “Brasil”, “superar”, “confiança” e “crise” — palavras que se encaixam ao ambiente até então marcado por enormes dificuldades políticas desde que Cunha assumiu o comando da Casa e ajudou a tensionar a relação com o Executivo, além de fomentar a crise com suas manobras para escapar do Conselho de Ética.

O grupo de palavras em vermelho no gráfico estão mais associadas ao discurso que Cunha apresentou em 1º de fevereiro de 2015. Quando subiu à tribuna para pedir os votos, o candidato do PMDB procurou reforçar a independência do Legislativo em relação aos demais poderes. Lembrou ainda da importância dos deputados recuperarem o orgulho e a conexão com os anseios da sociedade. No grupo, estão palavras como “não”, “Legislativo”, “forte”, “direito”. “(...) não pedi favor a ninguém, não tive que discutir com o Palácio que o parlamentar A não votou com o governo e, por isso, sua emenda não poderia ser liberada. Isso acabou (...)”, disse Cunha, ao citar sua atuação como líder do PMDB. Embora apresentem diferenças, Maia e Cunha recorreram a termos comuns em seus discursos, caracterizado no grupo de palavras em verde e que não estão claramente associados a nenhum dos discursos.

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