Correio braziliense, n. 19386, 23/06/2016. Política, p. 3

Sistema de propina na Suíça

CRISE NA REPÚBLICA » Testemunha revela que a Odebrecht mantinha no país europeu uma rede de computadores para controlar os pagamentos ilegais

 

Um dos responsáveis pelo sistema de informática do “departamento da propina” da Odebrecht, Camilo Gornati afirmou ontem ao juiz federal Sérgio Moro que a empreiteira mantinha seu servidor na Suíça “por questão de segurança”. O interrogado foi alvo da 26ª fase da Operação Lava-Jato, batizada de Xepa. O servidor teria sido bloqueado pelas autoridades suíças e funcionou até o mês passado.

“O que me falaram é que era mais seguro deixar na Suíça”, afirmou Gornati, ouvido na ação penal contra o marqueteiro do PT João Santana; o presidente afastado da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht; e outros executivos do grupo. “Uma vez que perguntei, seria por segurança”, afirmou ele ao ser questionado pela procuradora da República Laura Tessler, da força-tarefa da Lava-Jato.

Gornati foi alvo de condução coercitiva na Operação Xepa, apontado como um dos responsáveis pela operação e manutenção do sistema Drousys, que era usado pelos executivos da Odebrecht para controle do “departamento da propina”, chamado oficialmente de Departamentos de Operações Estruturadas.

 

Operadores

O Ministério Público Federal (MPF) descobriu que a Odebrecht montou um setor específico dentro da empresa para gerenciar e controlar os pagamentos de propina da empresa. Por esse sistema, eram controlados os repasses feitos para políticos e agentes públicos, por meio de operadores e contas em nome de offshores.

Gornati trabalha na empresa JR Graco Assessoria e Consultoria Financeira Ltda. O nome dele constava da agenda da secretária Maria Lúcia Tavares, do “departamento da propina” da Odebrecht. Maria Lúcia confessou em delação premiada com a Lava-Jato a existência do setor no grupo.

A JR Graco pertence a Olívio Rodrigues Júnior, que foi responsável pela abertura de contas da Odebrecht, em Antígua, por onde chegaram a circular mais de US$ 2,6 bilhões da empreiteira, segundo o delator Vinicius Borin, que trabalhava nas instituições financeiras. A força-tarefa da Lava-Jato apura se parte desses valores ou se a totalidade deles são referentes a propinas e caixa dois.

Questionado pelo juiz Sérgio moro, Gornati afirmou que o servidor utilizado pela Odebrecht “ainda está na Suíça, bloqueado pelo Ministério Público daquele país”. A testemunha foi arrolada pela acusação, no processo, e prestou depoimento, em São Paulo, por videoconferência, para Moro. O criminalista Ralph Tórtima Stettinger Filho, defensor de Gornati, ressaltou que o cliente foi inicialmente investigado em possíveis relações com os pagamentos, mas a conclusão foi de sua atuação foi especificamente técnica. O presidente afastado da Odebrecht e seus executivos negociam acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) desde o início do mês. Para a Lava-Jato, houve tentativa de destruição do sistema de informática da propina, após a empreiteira virar alvo da operação.

 

Genu é indiciado pela Polícia Federal

A Polícia Federal indiciou ontem o ex-assessor do PP João Cláudio Genu por corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Braço direito do ex-deputado José Janene, morto em 2010, Genu está preso desde 23 de maio, na Operação Repescagem, 29ª fase da Lava-Jato. A PF defende a permanência de Genu atrás das grades. Também foram enquadrados Claudia Genu, mulher dele; Antônio Gontijo Rezende, cunhado do ex-assessor do PP; e Lucas Amorim. Todos por lavagem de dinheiro. A PF afirma que Genu integrou uma quadrilha formada pelos então deputados federais José Janene (PR), Pedro Henry (MT) e Pedro Corrêa (PE), todos do PP. “Após o cumprimento dos mandados de busca e de prisões, com a colheita dos termos de declarações dos investigados, foi mais bem esclarecido sobre os integrantes deste subgrupo criminoso, que neste inquérito diz respeito à quadrilha formada pelos então deputados federais José Janene (PP-PR), Pedro Henry (PP-MT) e Pedro Corrêa (PP-PE)”, diz o relatório da PF, subscrito pelo delegado Luciano Flores de Lima.