Correio braziliense, n. 19389, 26/06/2016. Política, p. 3

Mensagens comprometedoras

CRISE NA REPÚBLICA » Troca de mensagens envolvendo o pecuarista José Carlos Bumlai integra inquérito da Lava-Jato contra Lula em Curitiba

 

Um relatório da Polícia Federal anexado a inquérito da Operação Lava-Jato, em Curitiba, reúne cópias de e-mails do pecuarista José Carlos Bumlai que, segundo os investigadores, reforçam as suspeitas de tráfico de influência no governo Luiz Inácio Lula da Silva. São conversas de Bumlai com um lobista, empresários e amigos que tratam da agenda do ex-presidente, de ministros e de assuntos que envolvem negócios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Bumlai é investigado por tráfico de influência, suspeito de intermediar interesses no Planalto durante a gestão do petista. O pecuarista foi preso em novembro de 2015. É réu e investigado. Aos 71 anos, e doente, cumpre prisão domiciliar.

Nas mensagens trocadas no período em que Lula era presidente, os interlocutores tratam com Bumlai e outros amigos do ex-presidente de negócios em Gana e no Catar; de uma parceria com o BNDES; de pedido de agendamento de reunião com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, do Programa Fome Zero e de assuntos de interesse de um servidor da Infraero.

Na última semana, voltaram para a equipe da Lava-Jato, em Curitiba, os primeiros inquéritos no qual Lula é investigado. As investigações foram remetidas pelo Supremo Tribunal Federal. Para os investigadores, amigos de Lula, além de abrirem portas para empresários na gestão do petista, teriam servido de “laranjas” na ocultação de bens e propriedades, caso da família do ex-prefeito petista de Campinas (SP) Jacó Bittar.

No documento da PF, há uma sequência de mensagens em que o empresário e Khalil Bittar — filho do ex-prefeito de Campinas e sócio de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — são acionados para agendamento de reunião com o ex-ministro Guido Mantega, em 2009.

“Olá, Bittar e Zé. Por favor, vejam esta carta em anexo que foi enviada ao BNDES. O nosso cartão ambiental está hoje em parceria com o Fundo da Amazonia”, escreve Márcia Martinn, em 4 de maio. “Temos que agendar com o ministro Guido Mantega e Antoninho Trevisan, conforme combinamos.”

A interlocutora copia carta enviada ao BNDES por um representante do Instituto Eco Goal para contrato de desenvolvimento de um “cartão ambiental em parceria com o Fundo da Amazonia”. O negócio seria vinculado à Copa de 2014.

Em nota, o Instituto Lula afirmou que o relatório analisa mais de dez anos de e-mails do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente petista, “sem encontrar qualquer ilegalidade praticada por qualquer membro da família Lula da Silva”.

A defesa de José Carlos Bumlai disse que “os episódios mencionados na matéria foram pinçados de maneira descontextualizada do relatório de inteligência elaborado pela Polícia Federal”. “Ocorre que nenhum deles configura crime. Tanto isso é verdade que não há, desde a juntada aos autos desse material há mais de um mês, nenhum apontamento nesse sentido pela autoridade policial.”

 

“Decisões técnicas”

O BNDES afirmou que nunca financiou projetos da Constran no exterior. “O BNDES nunca teve contato com Bumlai, em reuniões ou qualquer negociação relacionadas a financiamentos às exportações”. Por meio de sua assessoria, o banco negou que Lula ou alguém em seu nome pudesse ter influenciado decisões. “As decisões do BNDES são técnicas”. Informou ainda não ter registros sobre negócio com Instituto Eco Goal. O ex-ministro Guido Mantega disse não conhecer o representante do Instituto Eco Goal.

 

Celso de Mello pede informações

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu informações ao juiz Paulo Bueno de Azevedo, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, sobre a autorização dada por ele para que Polícia Federal cumprir um mandado de busca e apreensão no apartamento funcional da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). O alvo era o marido dela, o ex-ministro Paulo Bernardo, que foi preso na quinta-feira durante a Operação Custo Brasil. Mas como se trata de um imóvel funcional, o Senado recorreu, dizendo que era preciso uma autorização do STF para fazer a busca. O Correio publicou, erroneamente ontem, que  o pedido de informações havia partido do ministro Marco Aurélio Mello.