Em carta, Dilma se diz alvo de 'inequívoco golpe', propõe plebiscito e pacto nacional

Vera Rosa e Carla Araújo

17/08/2016

 

 

 

Presidente afastada só cita ‘golpe’ duas vezes; senadores pediram a retirada da expressão, mantida após protestos de movimentos sociais

A nove dias do julgamento final do impeachment, a presidente afastada Dilma Rousseff defendeu ontem a convocação de um plebiscito para encurtar o seu mandato e antecipar as eleições de 2018, pregou um pacto pela unidade nacional e disse que sua deposição seria um “inequívoco golpe”.

Na carta batizada de “Mensagem ao Senado Federal e ao Povo Brasileiro”, Dilma se definiu como “honesta e inocente” e admitiu erros, mas afirmou não ser legítimo afastá-la pelo “conjunto da obra”.

Quase cinco horas depois, a petista virou alvo de inquérito, autorizado pelo Supremo Tribunal Federal, para apurar suspeita de obstrução da Lava Jato, ao lado do ex-presidente Lula e de outras cinco pessoas.

Dilma leu a carta aos senadores em pronunciamento de 13 minutos, no Palácio da Alvorada.

Após muitas divergências com o PT e outros aliados sobre os termos da mensagem, ela empregou duas vezes a palavra “golpe” ao se referir ao impeachment, mas teve o cuidado de construir as frases com um verbo no futuro do pretérito.

“Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo “conjunto da obra” (...) Por isso, afirmamos que, se consumado o impeachment sem crime de responsabilidade, teríamos um golpe de Estado”, disse. “O colégio eleitoral de 110 milhões de eleitores seria substituído, sem a devida sustentação constitucional, por um colégio eleitoral de 81 senadores.

Seria um inequívoco golpe seguido de eleição indireta.” Na semana passada, senadores pediram a ela que retirasse a expressão “golpe” da carta, para não irritar seus julgadores. A petista deu sinais de que poderia apagá-la, mas integrantes de movimentos sociais protestaram, sob o argumento de que a estratégia, além de não surtir efeito, seria um “tiro no pé”.

Dilma chegou à Sala dos Estados, no Alvorada, acompanhada dos ex-ministros Jaques Wagner, Ricardo Berzoini, Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto e Eleonora Menicucci. Apenas cinco minutos antes, os senadores receberam o texto, o que provocou incômodo em alguns gabinetes. No Planalto, o documento foi visto com desdém por auxiliares do presidente em exercício Michel Temer.

O tom e a demora de Dilma em divulgar sua mensagem também contrariaram a cúpula do PT e Lula, para quem o impeachment é irreversível. Embora o presidente do partido, Rui Falcão, considere “inviável” a proposta de consulta popular para antecipar as eleições presidenciais, Dilma fez do tema uma de suas principais bandeiras, ao lado da defesa de um pacto para sair da crise e pacificar o País.

“Darei meu apoio irrestrito à convocação de um plebiscito, com o objetivo de consultar a população sobre a realização antecipada de eleições, bem como sobre a reforma política e eleitoral”, anunciou ela. Para sair do papel, porém, um plebiscito deve ser aprovado na Câmara e no Senado por maioria absoluta.

Cunha. Há 97 dias afastada do Planalto, Dilma disse que, na jornada para se defender, ouviu críticas duras à sua gestão e a “erros que foram cometidos”.

Apesar de citar o assunto de forma genérica, afirmou que acolhe críticas “com humildade”.

A petista apontou o dedo para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seu algoz, que também está prestes a perder o mandato. Disse, ainda, que a luta contra a corrupção é “compromisso inegociável” e assegurou não aceitar qualquer pacto em favor da impunidade.

“Jamais se encontrará na minha vida registro de desonestidade, covardia ou traição.

Ao contrário dos que deram início a este processo injusto e ilegal, não tenho contas secretas no exterior, nunca desviei um único centavo do patrimônio público para meu enriquecimento pessoal ou de terceiros e não recebi propina de ninguém.” E concluiu: “Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente.”