Título: A França entra na linha de tiro
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 11/11/2011, Economia, p. 11
Notícia de que a Standard & Poor%u2019s teria rebaixado a nota da dívida francesa eleva juros dos títulos do país. Governo abre investigação sobre o caso
No cenário econômico caótico da Europa, a França pode ser a nova vítima da crise. Nos últimos dois dias, os investidores passaram a exigir juros cada vez mais altos para continuar comprando títulos da dívida francesa e, ontem, a tensão aumentou ainda mais depois que a agência de classificação de risco Standard & Poor"s (S&P) divulgou erroneamente uma mensagem indicando que o rating francês, atualmente na mais alta classificação (AAA), havia sido rebaixado.
Embora tenha sido desmentida pela própria agência, a notícia aumentou ainda mais os juros e levou a Autoridade de Mercados Financeiro (AMF) francesa a abrir uma investigação para apurar o episódio, a pedido do ministro das Finanças, François Baroin. A AMF também entrou em contato com a ESMA, a autoridade de supervisão financeira europeia que monitora as obrigações profissionais das agências de classificação de risco para que avalie o comportamento da S&P.
Com a suspeita de que o país pode ser o próximo a ser jogado no turbilhão, a diferença entre os papéis com vencimento de 10 anos da Alemanha, os mais confiáveis do bloco, e os da França chegou ao recorde de 160 pontos, ou seja, enquanto os bônus alemães pagam 1,7% ao ano, o custo da dívida francesa subiu a 3,29%. Para analistas, esse é um claro sinal de que a crise se estendeu da periferia para o centro da União Europeia. Numa tentativa de barrar o contágio, o governo francês divulgou nota em que reafirma o compromisso de reduzir o deficit público para 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013 e equilibrar as contas até 2016.
Na avaliação de especialistas, o presidente Nicolas Sarkozy está levando seus conterrâneos a pagar o preço da própria lentidão, e também da chanceler alemã, Angela Merkel, na solução da crise. Além de salvar a Grécia, as autoridades da Europa precisam encontrar 700 bilhões de euros para desafogar a Itália, dinheiro que permitiria a Roma ficar fora do mercado por três anos e organizar a casa. Isso colocaria um freio na escalada do custo da dívida do país, que ontem cedeu para 6,65% ao ano depois de, na quarta-feira, ter ultrapassado os 7%. Bancos franceses têm 600 bilhões de euros em títulos de Itália, Grécia e Espanha, uma exposição elevada que lança dúvidas sobre a economia e o mercado de crédito da França.