Título: Reflexo no futuro da eleição
Autor: Taffner, Ricardo; Maia, Flávia
Fonte: Correio Braziliense, 28/10/2011, Cidades, p. 22

Decisão dos estudantes de eleger uma chapa conservadora pode influenciar na escolha da direção da Universidade de Brasília, em 2012. Atual chefe da instituição é do PT e representa uma ascensão do grupo de esquerda sobre os conservadores

» O resultado das eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (UnB) serve como termômetro para uma disputa que promete ser ainda mais acirrada. No fim de 2012, a comunidade acadêmica escolherá o próximo reitor da instituição de ensino superior. A campanha já começou nas salas de aulas, nas reuniões de conselhos, nos movimentos estudantis e nas assembleias de professores. Na votação desta semana, ao contrário de todas as outras concorrentes, as duas chapas mais bem colocadas fizeram duras críticas à atual gestão e se declararam de oposição à reitoria.

Professores, servidores e estudantes escolhem o reitor. O voto deles é paritário, ou seja, tem o mesmo peso. A regra foi conquistada pelos alunos após a ocupação da reitoria em 2008, que resultou na queda do então chefe da UnB, Timothy Mulholland — acusado de fazer parte de um esquema que desviou recursos dos cofres da universidade e de ter usado parte do montante para executar uma reforma luxuosa no apartamento que fazia uso, na Asa Norte —, e foi fundamental para a escolha do atual mandatário, José Geraldo de Sousa Júnior. Ele perdeu a eleição entre os docentes, ganhou por pouco entre os servidores, mas teve uma votação expressiva entre os estudantes.

A eleição de José Geraldo, que é ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), representou a ascensão de um grupo de esquerda sobre os adversários conservadores. No entanto, o grupo que sucumbiu com Timothy tem arregimentado novos apoios. A Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (Adunb), que também era tradicionalmente ligada aos esquerdistas, está sob poder da oposição desde 2008, que venceu duas eleições seguidas e se prepara para tentar a reeleição em maio do próximo ano.

Eu também quero as melhorias que eles pregam, como a segurança no câmpus, melhora de infraestrutura, mas isso terá de passar por uma discussão" José Geraldo de Sousa Júnior, reitor da UnB

Para o presidente da AdUnb, Ebnezer Nogueira da Silva, a eleição da Chapa 8 – Aliança pela Liberdade — representa a insatisfação dos estudantes com a atual gestão. "É um marco histórico e mostra o descontentamento do movimento estudantil com o que está ocorrendo na UnB. Os alunos querem uma universidade melhor e espero que isso sirva como um aviso para o magnífico reitor", atacou Ebnezer. Segundo ele, a atual gestão tem perseguido os professores e, além disso, a discussão não se trata de orientação política. "Não importa o partido de cada um. A verdade é que quem se colocar pela qualidade na UnB não vai votar no pessoal da atual administração, que é do mal."

Coordenador-geral do DCE até o ano passado e agora cientista político, Raul Pietricovsky Cardoso acompanhou a sucessão no diretório. Segundo ele, a eleição é resultado de uma mudança no cenário político da universidade que até então era silenciosa. "Por uma série de questões, tem surgido uma reação conservadora dos docentes cada vez mais forte. Os professores e diretores de institutos mais conservadores começaram a mostrar mais a cara e isso está mais forte entre os estudantes do que a gente imaginava. Essa discussão já antecipa a eleição para reitoria" diz.

José Geraldo afirma que é preciso amadurecer a avaliação do que é a chegada do grupo na UnB para entender o que isso significará na prática. "Eu também quero as melhorias que eles pregam, como a segurança no câmpus, melhora de infraestrura, mas isso terá de passar por uma discussão. Como reitor, eu também tenho a minha ideologia e visão de mundo. Tudo terá de passar por uma negociação. Que prevaleça o melhor argumento", diz.

Reação Para o professor aposentado de ciências políticas da UnB Octaciano Nogueira, a eleição do diretório não pode ser considerada um comportamento padrão dos estudantes universitários. "Isso não reflete o que acontece em outras universidades e tem um caráter muito particular", diz. Por sua vez, o cientista político Alexandre Barros explica que o exemplo da UnB mostra uma tendência de insatisfação dos jovens com as atuais gestões. "Tradicionalmente eles votavam a esquerda e agora estão percebendo que isso pode não ter sido bom a longo tempo. Agora, querem testar algo novo para ver se melhora. A cabeça do eleitor funciona assim: não deu certo, troca", diz.

Revolta A reitoria foi ocupada em 3 de abril de 2008 por cerca de 150 estudantes que exigiam a saída do reitor Timothy Mulholland e dos funcionários ligados a ele. O motivo principal da revolta foi a aplicação de R$ 470 mil da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) na decoração do apartamento onde o reitor morava.