Alta de impostos para rombo menor em 2017

 

05/07/2016

 

O presidente interino, Michel Temer, afirmou que, “em determinado momento”, o governo tomará medidas impopulares e que não tem receio de fazer isso porque não alimenta pretensão eleitoral, contentando-se em “colocar o país nos trilhos”. De acordo com fontes do Planalto, após a confirmação do impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, o Executivo pretende encaminhar ao Congresso a proposta de reforma da Previdência, além de adotar medidas de aumento de impostos e de cortes de gastos para garantir rombo menor nas contas públicas em 2017. Há o temor de que se repita o buraco de R$ 170,5 bilhões projetados para este ano.

“A partir de um certo momento, tomaremos medidas, digamos assim, impopulares. As pessoas me perguntam se temo propor coisas desse tipo. Digo que não, porque meu objetivo não é eleitoral. Se eu ficar dois anos e meio e conseguir colocar o Brasil nos trilhos, não quero mais nada da vida pública”, disse ele, em discurso na abertura do principal evento do país no setor do agronegócio, o Global Agrobusiness Fórum.

Realizada em um hotel em São Paulo, a cerimônia se transformou em um ato em prol do governo interino. Na primeira agenda pública no Estado de São Paulo desde que assumiu provisoriamente o governo, Temer recebeu um manifesto de apoio assinado por 45 entidades, entre elas a Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

No manifesto, lido em voz alta e entregue em mãos ao presidente em exercício, as entidades afirmam que a gestão Temer tem “legitimidade constitucional e conta com o comprometimento de uma equipe econômica competente”. “Confiamos que a liderança do presidente Michel Temer será capaz de pacificar e unificar todos os brasileiros para que seja possível construirmos um novo amanhã para o nosso país”, diz o documento.

Ao receber o texto impresso, Temer citou a frase em latim verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem) que abria a carta enviada por ele à presidente Dilma Rousseff em dezembro do ano passado — e que marcou o afastamento entre o então vice e a titular do cargo. “Volto a citar a expressão que usei antes”, disse ele, afirmando que emolduraria e pregaria o manifesto na parede. No discurso, Temer agradeceu o apoio, afirmando que contava com o setor do agronegócio para “colocar o país nos trilhos”. Segundo ele, a presença de correspondentes estrangeiros no evento contribuiria para que chegasse ao exterior a notícia de que o país “está se pacificando”.

 

Negociação

Temer ainda fez um afago ao setor creditando sua chegada à Presidência interina à agricultura. Ele relatou que sua família, quando chegou ao Brasil, instalou-se em uma propriedade rural em Tietê (SP), onde o trabalho possibilitou que ele e seus irmãos pudessem fazer curso superior. “Por isso digo que devo minha posição, hoje, de presidente em exercício à agricultura brasileira”, afirmou.

Em 22 minutos de discurso, o presidente interino disse que assumiu o cargo “em um momento muito difícil” e que, em pouco tempo, já tomou medidas para colocar “o país nos trilhos”. “Em pouquíssimo tempo, conseguimos aprovar matérias que dormitavam há mais de 10 meses”, disse. Ele citou como exemplo a aprovação da DRU (desvinculação das receitas da União), chamada pelo presidente interino equivocadamente de Desvinculação das Receitas do Orçamento, e a negociação com os governadores em torno das dívidas dos estados.

O evento contou com a presença do ministro da Agricultura, Blairo Maggi e dos governadores Geraldo Alckmin (São Paulo) e Pedro Taques (Mato Grosso), além de deputados federais, entre eles Marcos Montes (PSD-MG), presidente da Frente Parlamentar pela Agricultura.

 

Meirelles  fala em deficit de até R$ 150 bilhões

O presidente interino deve definir hoje o tamanho do rombo das contas públicas em 2017. A estimativa será encaminhada ao Congresso nesta semana. Em reunião realizada ontem à noite, no Palácio do Planalto, houve um grande debate para que o buraco seja inferior aos R$ 170,5 bilhões fixados para este ano. Participaram do encontro, além de Temer, os ministros Henrique Meirelles (Fazenda), Dyogo Oliveira (Planejamento), Eliseu Padilha (Casa Civil) e Geddel Vieira Lima (Governo). A equipe econômica defende que o deficit fique, no máximo, em R$ 150 bilhões. A ala política quer um rombo maior, dentre R$ 160 bilhões e R$ 170 bilhões. O presidente interino está tentado a sancionar uma projeção que não assuste os investidores, que andam reclamando da falta de compromisso do governo com um ajuste fiscal consistente.

 

Correio braziliense, n. 19398, 05/07/2016. Economia, p. 9