Santana admite caixa dois na eleição de 2010

 

22/07/2016

 

Em processo de delação premiada à Justiça no Paraná, o publicitário João Santana e a mulher, Mônica Moura, admitiram ontem ter recebido US$ 4,5 milhões provenientes de caixa dois por serviços prestados à campanha eleitoral de Dilma Rousseff em 2010. Os recursos foram pagos três anos depois que a campanha acabou. Segundo Mônica, o casal mentiu à Justiça no início do ano para não impulsionar o impeachment da petista.

Santana e a mulher cobraram reinteradas vezes o partido para que o saldo dos serviços prestados durante a campanha fosse quitado. Em 2013, João Vaccari Neto pediu à dupla que procurasse o lobista Zwi Skorniki. O polonês, também preso pela Lava-Jato, acertou o débito em 10 parcelas, em uma conta não declarada no exterior. Dessas, nove foram de fato depositadas. O casal afirmou ao juiz Sérgio Moro que não sabia da ligação de Skorniki com a Petrobras nem da procedência dos recursos. “Nunca soubemos de mensalão, de propinas na Petrobrás. Somos publicitários, nunca recebi propina, sempre recebi pelo meu trabalho. Não sou agente público, não sou política, não sou empreiteira. Sempre trabalhei para partidos políticos fazendo campanha”, afirmou Mônica.

Durante o depoimento, eles não citaram a participação de Dilma ou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na negociação. De acordo com as investigações do Ministério Público Federal (MPF), Santana teria recebido US$ 7,5 milhões em contas no exterior. Além dos US$ 4,5 milhões de Skorniki, US$ 3 milhões foram repassados por offshores ligadas à Odebrecht. Com a vinculação entre os repasses do lobista ao publicitário, a força-tarefa deve focar agora nos repasses feitos pela construtora, que tem os principais diretores, incluindo o diretor-presidente, Marcelo Odebrecht, também em processo de negociação de delação premiada.

 

Obstrução

Além das revelações de Santana e da mulher, o ex-presidente Lula foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) à Justiça  por tentar obstruir as investigações da Lava-Jato. Além dele, fazem parte da peça o pecuarista José Carlos Bumlai; o ex-senador Delcídio Amaral; o banqueiro André Santos Esteves; o ex-assessor de Delcídio, Diogo Ferreira Rodriguez; o advogado Edson Siqueira Ribeiro Filho; e o filho de Bumlai, Maurício Barros Bumlai. Todos são acusados de “agirem irregularmente para atrapalhar as investigações da Operação Lava-Jato”.

O caso já havia sido denunciado pelo procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, em dezembro do ano passado. No entanto, em decorrência da perda de foro privilegiado de Amaral, e também pelo fato de o crime ter ocorrido em Brasília, a denúncia foi enviada à Justiça Federal do Distrito Federal. Com essa redistribuição, o MPF do DF foi acionado para se manifestar sobre a ação penal e concluiu pela confirmação integral da denúncia prévia do PGR.

 

Defesa de Gim nega delação

A defesa do ex-senador Gim Argello negou ontem que ele tenha homologado acordo de delação premiada com a força-tarefa da Operação Lava-Jato no Paraná. Preso desde abril, o político teve uma suposta colaboração com a polícia divulga reinteradas vezes, embora os advogados sempre neguem o procedimento. O ex-parlamentar é acusado de ter pedido R$ 5 milhões em propina para o dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa. Os recursos teriam sido repassado para campanhas políticas do DEM, do PR, PMN e do PRTB nas eleições de 2014 no Distrito Federal.

 

Correio braziliense, n. 19415, 22/07/2016. Política, p. 5