Título: Líderes terão de ser firmes em Cannes
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Fonte: Correio Braziliense, 02/11/2011, Economia, p. 11
Embaixador francês no Brasil admite que compromisso inicial da reunião do G-20 mudará a fim de garantir solução para o passivo da Grécia
Cannes (França) — Presidente do G-20 , grupo das 20 maiores economias desenvolvidas e emergentes do planeta, a França elaborou variada pauta de forte conteúdo social para o encontro de líderes na quinta-feira, em Cannes, sul do país. Contudo, a explosão da crise fiscal da Grécia e a dificuldade de um desfecho, agora ameaçado por um referendo no país europeu, com risco de adiamento de uma solução só para janeiro, praticamente liquidaram com a agenda oficial da cúpula. "O G-20 não é o foro da solução dos impasses europeus, mas pode dar o aval necessário para os recentes acordos entre líderes da região", admitiu o embaixador da França no Brasil, Yves Saint Geours. Para ele, se sobrar espaço para os temas iniciais, os ganhos serão grandes. Priorizar debates sobre segurança alimentar e taxação de bancos, por exemplo, beneficiará o mundo, sustentou ele nesta entrevista ao Correio. (SR)
Quais são suas expectativas para a reunião de líderes em Cannes? Elaboramos uma agenda para o grupo um ano antes da cúpula, na perspectiva de que estaríamos saindo da crise global de 2008. O cenário mudou e a reunião vem se configurando como o lugar aparentemente ideal para tratar das soluções da crise fiscal e bancária europeia. Creio que o encontro servirá para restabelecer a confiança da Europa, sem a qual os acordos dos líderes da região, anunciados na semana passada, não terão resultado. Estava claro para todos que somente os europeus poderiam resolver o impasse, mas o G-20 terá um papel de fiador das iniciativas. Apesar de toda a agitação em torno do encontro, a França continuou construindo, por meses seguidos, o plano de ação do grupo, com reuniões especiais entre países-membros e convidados.
A dura negociação entre os países europeus para superar a questão grega deixou rancores? Foram muitas semanas de tensão e especulação elevadas durante a busca por saídas. Mas é importante ressaltar que os eventuais embates de ideias divergentes na União Europeia (UE) não são conflitos entre Estados. Na semana passada, foram listadas pela UE 10 medidas voltadas para o fortalecimento da gestão do euro. Tudo isso ainda será detalhado exaustivamente entre os parlamentos de 17 mercados que adotam a moeda comum. Mas falta tratar de muitos outros temas, como a recapitalização dos bancos. Precisamos definir quais são as condições para isso e quais os direitos. A questão grega levou os bancos a renunciarem a alguns créditos, o que também é objeto de negociação. Os bancos franceses estiveram sob ataque especulativo nos últimos dias. Digo isso porque eles não estão tão mal quanto outros. Estamos nos preparando para um processo longo e de difícil de negociação, que, passo a passo, deve levar a mudanças no sistema financeiro internacional.
A França tentou dar mais ênfase no encontro às suas próprias demandas? A presidência francesa desejou alargar a base social da pauta do G-20, com foco no acesso ao trabalho. É uma coisa nova, que começou com um diálogo entre Brasil e França. O conteúdo social do grupo evoluiu graças aos trabalhos tocados por embaixadores e autoridades das áreas sociais. A França pede, sobretudo, uma reflexão sobre os fluxos de capitais. Não defendemos o controle, mas uma vigilância suficiente para que esses movimentos não provoquem desequilíbrios na economia mundial.
Há expectativa de avançar na proposta de taxação das operações financeiras internacionais? Consideramos esse projeto emblemático, pois é a garantia segura de recursos para investir em infraestrutura. Acredito que a taxa sobre movimentos de capitais conquistará novos apoiadores durante a reunião de Cannes e até de chefes de Estado fora do G-20, particularmente os africanos. É uma questão que não pode ser ignorada. Esse imposto sobre as transações financeiras, uma espécie de IOF internacional, não precisa ser universal para existir e levantar recursos substanciais. Lamentamos que países como os EUA e o Reino Unido não queiram a taxação, alegando ser algo complexo e de efetividade duvidosa.
As cotações dos alimentos são a questão preferida do presidente Nicolas Sarkozy, certo? Dentro do foro G-20, demos ênfase à segurança alimentar com a discussão de mecanismos bem objetivos. Primeiro, chegamos ao consenso da necessidade de se montar um sistema de reação rápida, toda vez que houver ameaça de escassez de alimentos. Felizmente, o Brasil entendeu que não queríamos controlar os preços dos alimentos. Nossos colegas brasileiros entenderam que há, sim, muita especulação com produtos financeiros derivados das commodities agrícolas. Nosso objetivo é lutar contra a volatilidade excessiva das cotações desses produtos e criar formas de como fazer isso. A França, assim como o Brasil, é um grande exportador de alimentos. Acharíamos bom ter preços altos. Não gostamos, entretanto, de oscilações brutais.