Muito além do ajuste fiscal

Ana Paula Ribeiro, Roberta Scrivano, Glauce Cavalcanti e Daiana Costa

02/09/2016

 

 

Após impeachment, empresários cobram reforma trabalhista, privatizações e papel menor do Estado

Passado o impeachment, o setor produtivo brasileiro começa a deixar claro que sua agenda para a retomada da atividade no país vai muito além do ajuste fiscal. O reconhecimento de que a proposta de emenda complementar (PEC) do teto dos gastos e a reforma da Previdência são importantes para estabilizar a economia e devolver credibilidade à política econômica não se sobrepõem à avaliação de que o novo governo precisa trabalhar para reduzir o custo Brasil e recuperar a competitividade, na avaliação dos empresários.

A reforma trabalhista, a desburocratização, o encolhimento do Estado, a redução da carga tributária — ou ao menos o sepultamento da intenção de elevar impostos —ea facilitação de investimentos foram citados como questões essenciais a serem encaminhadas pelo presidente Michel Temer para que o setor produtivo volte a investir.

Para Flávio Rocha, presidente do grupo Guararapes-Riachuelo, com o novo governo, sai de cena o protagonismo estatal, e a economia será guiada pelas regras de livre mercado. Ele defende a importância da flexibilização nos contratos de trabalho:

— A maior parte dos empregos, 75%, está no varejo e no setor de serviços. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi feita para uma lógica industrial. É uma rigidez de regras que só pode ser assumida por uma indústria, como o horário de trabalho. Isso não é compatível com o setor de serviços. Para empregar mais, é preciso ter uma lei adequada, mais flexível.

 

NOVO PAPEL DO BNDES

Na avaliação de Carlos Tilkian, presidente da Brinquedos Estrela, a reforma trabalhista e a redução da carga tributária devem constar da lista das prioridades do governo, por serem indispensáveis para que o setor produtivo volte a investir.

— Estamos sendo regidos por uma regra do tempo de Getúlio Vargas, absolutamente desatualizada com a realidade do país. Entendo que essa reforma é algo grande e que, inevitavelmente, vai demorar a ocorrer. Mas no curtíssimo prazo é preciso que haja a flexibilização das leis trabalhistas, garantindo que o acordado prevaleça sobre a CLT.

Tilkian defende que o governo se empenhe no enxugamento do Estado. Ele avalia que, sem isso, o país nunca terá uma política de arrecadação eficiente. Com o menor fôlego das empresas, a consequência, segundo ele, é que os produtos chegam mais caros ao consumidor. Sobre um eventual aumento de impostos, é taxativo:

— Seria uma tragédia ter aumento de imposto. Seria uma grande decepção se uma brilhante equipe como a que está na Fazenda aumentasse impostos. Até trainee aumenta imposto.

José Isaac Peres, sócio-fundador e presidente da Multiplan, que tem quase 20 shoppings no país, acredita que o novo governo já é um primeiro passo na retomada da confiança dos investidores no governo. Ele defende foco em três áreas prioritárias: educação, segurança e saúde, deixando as demais a cargo da iniciativa privada.

— O problema político tinha como questão central a perda de confiança do setor produtivo no governo, o que paralisou a economia. No lugar de Temer, focaria em educação, segurança e saúde. As demais áreas seriam tocadas pelo setor privado. O Estado tem muitas empresas no vermelho. Deveria privatizar.

A decisão de eleger o saneamento básico como segmento prioritário em concessões foi alvo de elogios de Renato Sucupira, sócio-presidente da BF Capital, que trabalha com projetos de infraestrutura. Ele destaca o novo papel do BNDES:

— O mais importante é ser um indutor, um agente de projetos. O banco precisa fazer mercado, incentivar a iniciativa privada e a captação de recursos externos. O Brasil precisa estudar instrumentos para mitigar o risco cambial e desenvolver instrumentos internos para acessar o capital internacional.

Para Daniel Cherman, presidente da Tishman Speyer no Brasil, multinacional do setor imobiliário, o novo governo deve centrar as atenções na melhora do ambiente de investimento, retomando a confiança com ambientes jurídico e econômico organizados:

— Não tem segredo. Se tem confiança, todo mundo vem. Mas é uma conquista de longo prazo. O Brasil é um país importante no radar do investidor estrangeiro. Mas, para que esse investidor de fato venha, é preciso reduzir a taxa de juros e colocar a casa em ordem.

Entre economistas de entidades que representam o setor produtivo, a prioridade do ajuste fiscal e da reforma da Previdência são consenso, mas devem ser acompanhados de outras medidas.

— O país é muito grande para se provocar uma retomada só com essas duas questões. A indústria já sofre, há algum tempo, com questões estruturais — disse o gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco.

Guilherme Mercês, gerente de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan), destaca que a indústria precisa de uma reforma trabalhista e tributária. Ele e Castelo Branco citam a necessidade de investimento em infraestrutura, para que os custos com transporte e logística sejam minimizados.

De modo geral, a interpretação é que as soluções anteriores não são mais capazes de estimular a economia. E, quanto mais o país adiar ajustes dolorosos, maior será o custo.

— Efetivar crédito via bancos oficiais e dar subsídios a investimentos e para o consumo não funciona mais. Esse tipo de estímulo faz parte de um ciclo que já esgotou. Foi usado num momento diferente do que vivemos hoje, de crescimento econômico — avaliou o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas.

 

“O país é muito grande para se provocar uma retomada só com essas duas questões (PEC de gastos e reforma da Previdência). A indústria já sofre há algum tempo com questões estruturais”

Flávio Castelo Branco Economista da CNI

“Estamos sendo regidos por uma regra do tempo de Getúlio Vargas, absolutamente desatualizada com a realidade do país”

Carlos Tilkian Presidente da Brinquedos Estrela
“Não tem segredo, se tem confiança, todo mundo vem” Daniel Cherman Presidente da Tishman Speyer

 

 

O globo, n. 30292, 14/07/2016. Economia, p. 21.