Correio braziliense, n. 19438, 14/08/2016. Política, p. 2
O efeito Lava-Jato nas disputas municipais
Cientistas políticos acreditam que os desdobramentos das investigações do petrolão terão grande peso nas eleições de outubro. Inclusive, com um índice mais elevado de votos brancos e nulos e abstenções. Um dos motivos é a descrença cada vez maior na classe política
Por: João Valadares
A Operação Lava-Jato, desencadeada em março de 2014, vai influenciar diretamente, sobretudo nos grandes colégios eleitorais, as eleições municipais marcadas para outubro. Há dois anos, durante a corrida presidencial que reelegeu a presidente Dilma Rousseff (PT), os efeitos foram bem menores porque os investigadores ainda não tinham chegado diretamente ao chamado núcleo político do esquema. A conclusão é de cientistas políticos ouvidos pelo Correio. Eles acreditam que, agora, a operação pode levar a um maior índice de votos brancos e nulos e até de abstenções por servir de combustível para potencializar um descrédito histórico na classe política brasileira. Apesar de envolver uma gama variada de partidos políticos, todos são enfáticos em apontar o PT como o maior prejudicado pelos efeitos das investigações.
O professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Calmon diz, porém, que é preciso levar em consideração as especificidades de cada disputa eleitoral. “Há uma dúvida, no entanto, em relação a essa influência no voto de cada eleição específica. Os efeitos, por exemplo, podem ser ignorados na disputa no Recife ou em Curitiba porque ambos os candidatos estão igualmente envolvidos, falando de maneira hipotética.”
Calmon acredita que a Lava-Jato será responsável por abrir uma grande oportunidade para grupos que contestam a estrutura política atual no país. “Obviamente, vai existir alguma influência na medida em que boa parte da elite política brasileira está diretamente envolvida em episódios relacionados de alguma maneira à Operação Lava-Jato. Seja envolvimento individual, seja dos partidos, a população está influenciada por essa marca de desconfiança do sistema político e partidário. Afeta porque o prestígio dos partidos, e o político em geral, está abalado”, diz.
Ele faz uma leitura de que haverá uma potencialização da descrença na classe política. “Acho que esse é um elemento que contribui para desinteresse e descrença em relação aos políticos. E isso, inegavelmente, fortalece a tendência de as pessoas ignorarem a eleição. É muito ruim. Sobra para todos os partidos, mas o PT será o mais afetado.”
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O doutor em ciência política pela UnB Leonardo Barreto avalia que o PT começou a pagar a conta da Lava-Jato antes mesmos das eleições. “A operação já influenciou, a começar pela mudança da Presidência da República. Agora, a expectativa é de que candidatos do PMDB ou apoiados pelo partido possam ter uma vantagem por ter acesso a recursos que não tinham antes”, diz. Ele analisa que o deficit de imagem do partido é grande e isso respinga em seus candidatos. “A consequência direta é a redução do PT, que terá um deficit de imagem importante, em algumas regiões mais e outras menos. Uma quantidade grande de petistas deixou o partido. A sigla começou a pagar a conta mesmo antes de disputar o processo eleitoral”, avalia.
Barreto acrescenta que a Lava-Jato já produziu um fato importante para as eleições municipais deste ano. “Uma inferência indireta é que os desdobramentos da operação são responsáveis por fazer o Supremo Tribunal Federal (STF) adotar postura contrária ao financiamento privado de campanha. É, sem dúvida, um filhote da Lava-Jato. A proibição do financiamento privado tem um impacto grande nas eleições. Vai valorizar aqueles que tentam a reeleição por ter a máquina pública. Também valoriza os pastores e sindicalistas porque precisam de menos recursos”, declarou.
O cientista político avalia a apatia do eleitorado diante de tantas denúncias contra políticos. “Não me surpreenderia se o número de brancos e nulos aumentasse. Já temos uma base de desconfiança muito forte. Você já tem consolidado um grau de abstenção e de votos brancos e nulos. É possível que se tenha um incremento, mas é difícil de estimar.”
Em 2006, os efeitos do mensalão não foram suficientes para impedir a reeleição do presidente Lula. A avaliação é de que a impressionante força política do petista, na época, e um governo muito bem avaliado reduziram a quase nada os desdobramentos do escândalo de compra de apoio parlamentar. Já os candidatos proporcionais em 2006 citados na Operação Sanguessugas amargaram derrotas políticas. Dos 64 deputados e três senadores que responderam a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e foram candidatos, a grande maioria passou longe do número necessário de votos para garantir o retorno. Apenas seis citados no caso conseguiram se eleger.
A investigação do núcleo político da Lava-Jato começou em março de 2015, quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou 28 petições ao Supremo para a abertura de inquéritos criminais destinados a apurar fatos atribuídos a 55 pessoas, das quais 49 eram titulares de foro por prerrogativa de função.
A expectativa é de que a Lava-Jato tenha maior influência em grandes cidades. “Normalmente, as eleições municipais se concentram em temas locais. Os assuntos nacionais quase não aparecem. É mais provável que apareça com mais força nos grandes colégios”, atesta Barreto.
Doutor em ciência política e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Rui Tavares Maluf diz que é difícil fazer um diagnóstico certeiro hoje, mas que a Lava-Jato deve produzir um eleitorado mais atento à lisura dos candidatos. “Não se pode ainda fazer uma afirmação fechada sobre isso, mas é evidente que não há como ignorar o peso da Lava-Jato e todos os processos de investigação contra os políticos. Nestas eleições, uma parcela do eleitorado estará mais sensível à lisura dos candidatos, à trajetória na vida pública. O filtro da ética tende a ser bem maior. Tem que pesar muito bem, porque, de uma certa forma, todo mundo está envolvido”, ponderou.