Correio braziliense, n. 19430, 06/08/2016. Economia, p. 7

Dólar cai para R$ 3,17 e facilita viagens ao exterior

Moeda norte-americana atinge o patamar mais baixo desde junho de 2015 devido à expectativa de entrada de US$ 40 bilhões na economia caso o impeachment de Dilma se confirme.Cotação favoreceu turistas,mas prejudica exportação

Por: Simone Kafruni

 

O dólar atingiu o nível mais baixo desde 16 de julho de 2015, ao recuar 0,80% ontem, cotado a R$ 3,169 na venda no câmbio comercial. O dólar turismo era encontrado a R$ 3,29. Para quem vai viajar ao exterior é uma ótima notícia, tanto que o movimento nas casas de câmbio e corretoras aumentou até 40% ontem. Para as exportações, porém, o patamar abaixo de R$ 3,20 no comercial retira a competitividade dos produtos brasileiros, o que impõe ao Banco Central (BC) o desafio de encontrar um equilíbrio. Sobretudo porque o afastamento definitivo da presidente afastada, Dilma Rousseff, pode derrubar ainda mais a divisa dos Estados Unidos.

O mercado espera a entrada de US$ 40 bilhões no mercado brasileiro se o Senado confirmar o impeachment. Tanta injeção de dólares poderá levar a cotação até a R$ 2,70, especulam alguns economistas, o que obrigará o BC a intervir com mais robustez no mercado cambial. A autoridade monetária tem se limitado a fazer leilões de swap reverso, operações equivalentes à compra futura de dólares. Com isso, a desvalorização da moeda dos EUA chegou a 19,73% este ano.

Para o economista-chefe da Opus Investimento, José Márcio Camargo, o país está saindo de um período de muita incerteza e, por isso, o real se valorizou. “Houve uma melhora. A atual equipe econômica ao menos fala português, o que não ocorria no governo anterior. Isso mudou o humor do mercado. Agora, até onde vai é complicado dizer. Se o impeachment for aprovado, o real pode se valorizar ainda mais”, estimou.

O especialista ressaltou, contudo, que a atuação do BC está correta. “Ele está se comportando bem, acabando com o estoque de swaps tradicionais e deixando o câmbio se regular pelo mercado. Porém, se o governo não fizer as reformas para gerar o equilíbrio fiscal, a tendência é o dólar voltar a subir”, disse.

Testando o BC

Na opinião de Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, o comportamento da divisa dos EUA tem sido impulsionado pelo mercado externo. “O Brasil está se favorecendo de uma situação de liquidez mundial e da perspectiva de que os Estados Unidos não devem aumentar seus juros a curto prazo. Claro que a visão mais positiva em relação à política interna está ajudando”, ressaltou. Rosa destacou que o impeachment está precificado. “Não há dúvidas sobre o impeachment. Por isso, acredito que parte dos US$ 40 bilhões já estão entrando no país. O câmbio mostra isso”, assinalou.

O gerente de Câmbio da Corretora Treviso, Reginaldo Galhardo, concorda. “Só na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) entraram US$ 17 bilhões nos últimos dois meses. O investidor conservador só vai chegar depois do impeachment, mas os arrojados já estão entrando”, avaliou. Galhardo ressaltou que o BC não quer mostrar ao mercado que trabalha com uma taxa para o dólar. “Estão testando o BC e, por enquanto, ele está fazendo só o swap reverso. Agora, se o dólar cair abaixo de R$ 3, vai ter que entrar no mercado à vista para conter a valorização do real”, apostou.

Para o especialista, a atual cotação é suficientemente boa para quem viajar e comprar a moeda. “Se a pessoa tem tempo, eu recomendo comprar aos poucos, porque pode cair mais. Mas o dólar turismo a R$ 3,37, como hoje (ontem), aumentou a procura na Treviso em 40% na comparação com o movimento habitual. Tanto que acabou nosso estoque de moeda. O que eu vender a partir de agora, preciso esperar o fornecimento do banco na segunda para entregar na terça”, comentou.

Armadilhas

A quem vai compra moeda estrangeira, Galhardo sugere cuidado e muita pesquisa. “Tem armadilhas. O cara fala em dólar a R$ 3,33, mas depois do imposto e da taxa de entrega, acaba saindo por R$ 3,50. Tem que confirmar a taxa final”, ensinou.

Com viagem marcada para Orlando (EUA), a nutricionista Marina Mendes, 31 anos, ficou animada com o recuo da cotação e aproveitou para fazer o câmbio. “Venho planejando a viagem desde o ano passado. Estava desanimada com o tanto que poderia gastar, mas com o dólar mais barato, fiquei aliviada”, disse.

O preço atrativo do dólar surpreendeu a sommelier Lourdes Bittercourt, 28, que aproveitou o momento para viajar com o filho pequeno para os EUA, onde o marido mora. Ela passou a gastar menos na conversão, mas o dólar baixo não é favorável para o companheiro, que trabalha com exportação de tecido. “É um momento propício para visitar a família no exterior, mas é uma péssima hora para os negócios. De qualquer forma, vamos aproveitar a viagem”, alegrou-se.

O recuo do dólar ao menor patamar em mais de um ano também agradou Tawan Silveira, 33, analista de recursos humanos de uma rede internacional de fast food. Ele vive viajando a negócios para os Estados Unidos. “Minha vida profissional é basicamente viajar resolvendo problemas, só que fico bem mais alegre quando tenho um dinheiro extra para trazer presentes para a família”, contou.