Título: Bolsa Família será mundial
Autor: Ribas, Silvio
Fonte: Correio Braziliense, 05/11/2011, Economia, p. 11
G-20 reconhece a importância do programa de transferência de renda brasileiro e encoraja sua implantação em outros países
Cannes (França) — Sem avanços vistosos no campo econômico, na área social a Reunião de Cúpula do G-20, grupo das 20 maiores economias mundiais, chancelou o bem-sucedido programa de transferência de renda brasileiro: o Bolsa Família. Os líderes reunidos em Cannes, no sul da França, decidiram "encorajar" a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a implantar o mecanismo que garante a renda mínima aos cidadãos mais pobres do planeta, desde que ajustado à realidade de cada nação. "Reconhecemos a importância de pisos de proteção em cada um dos nossos países, adaptados às situações nacionais", declararam chefes de Estado e de governo no comunicado final do encontro encerrado ontem.
Apelidado nos corredores da cúpula de Bolsa Família Global, o mecanismo de transferência de renda a ser adotado em cada país tem como mentor o empresário Bill Gates, fundador da Microsoft e presidente de uma fundação humanitária. Mas o Brasil também foi destaque na voz do executivo norte-americano. "Fomos citados na reunião de cúpula como modelo, inclusive por Bill Gates, sobretudo na assistência aos mais pobres entre os pobres, que são os pobres do meio rural", destacou a presidente Dilma Rousseff, que havia cobrado a atenção dos líderes mundiais para a questão da transferência de renda. "As redes de proteção social aos mais vulneráveis e o combate ao desemprego são questões importantes, que devem ser consideradas na busca da retomada do crescimento mundial. Por isso, apoiamos a tese da OIT de um piso de proteção social", reforçou Dilma.
A proposta do piso global está ancorada em estudo coordenado pela ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, e deve ser implantada separadamente, em país por país. "O desemprego nos preocupa, sobretudo os percentuais elevados de jovens sem perspectiva. A OIT calcula em 200 milhões de novos desempregados por conta da crise desde 2008, mas o pior quadro se desenha na juventude dos países, ricos ou emergentes. Contudo, é uma situação bem diferente do Brasil, que caminha para o pleno emprego", comentou. Na avaliação dela, o país contou com a ajuda da bem-sucedida experiência do Bolsa Família para superar a crise econômica de 2008. O programa ajudou a tirar 40 milhões de pessoas da base da pirâmide social, hoje a nova classe média brasileira.
Suor do povo Ao encerrar sua participação na cúpula do G-20, Dilma enfatizou ainda, no campo da economia, em quais condições o Brasil colaboraria com o plano de resgate financeiro da Zona do Euro, mediante o uso das reservas internacionais do país e de linhas tradicionais do Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo para o qual o país figura como o 17º maior contribuinte. "Trata-se apenas de garantir proteção para o dinheiro obtido com o suor do povo brasileiro. Ele não pode ser usado de qualquer jeito", defendeu. A representante brasileira também descartou a participação direta no Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef). "Não tenho a intenção de investir nesse fundo porque nem os próprios europeus têm", disse.
A preferência por socorrer o euro apenas pelo FMI e o pedido para a reforma do Fundo, aumentando o poder de voto dos emergentes e redução da fatia dos que têm investido menos, é, segundo ela, compartilhada pela China. "Não posso falar pelo presidente chinês, Hu Jintao, mas foi o que ele nos disse", acrescentou Dilma. Na sua primeira e única conversa com a imprensa em Cannes, a presidente, acompanhada do ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu que a agenda da reunião de cúpula estava dominada pela crise fiscal europeia, mas acabou ainda mais tumultuada sob o impacto da confusão criada pela proposta do primeiro-ministro grego, George Papandreou, de submeter a referendo o pacote de socorro da União Europeia (UE). "O resultado do encontro foi um sucesso relativo", resumiu a presidente.