Entre extremos, Rio dá vitória a Crivella

Clarissa Thomé, Fábio Grellet e Wilson Tosta, Constança Rezende, Roberta Pennafort e Vinicius Neder

31/10/2016

 

 

Bispo da Universal, senador vence candidato do PSOL; em discurso em Bangu, zona oeste, eleito critica aborto e ideologia de gênero.

Com o “não voto” expressivo de brancos, nulos e abstenções, o senador Marcelo Crivella (PRB), de 59 anos, foi eleito ontem prefeito do Rio. Ele recebeu 59,36% dos votos válidos, ante 40,64% de Marcelo Freixo (PSOL). Em números absolutos, 536 mil votos distanciaram um candidato do outro. A eleição se encerrou com os mais altos índices de votos em branco (4,18%), nulos (15,9%) e abstenções (26,85%) já registrados em segundos turnos desde 2000.

A campanha foi dura, com trocas de acusações que envolveram temas fora da política, como religião e sexualidade. Confirmada a vitória, Crivella ficou emocionado no discurso que fez no Bangu Atlético Clube, na zona oeste, região da cidade onde foi maciçamente votado, e reforçou o embate em torno de questões morais.

“O povo disse bem alto nas urnas: não à legalização do aborto, não à liberação das drogas.

Não, não e não. O povo também disse e eu tenho certeza, eu confio na alma carioca que existe na Câmara Municipal. Na minha eleição, o povo também disse bem alto: não à ideologia de gênero para crianças. Não, não e não”, afirmou o prefeito eleito ao lado de aliados.

A declaração de Crivella contra bandeiras do PSOL levou o público ao delírio. Crivella foi ovacionado. Entre seus apoiadores estava presente o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que, pouco antes do discurso da vitória, escreveu nas redes sociais “chora, capeta”, “chora, Freixo” e “chora, PSOL”. 

Política e fé. A ascensão de Crivella consolida o projeto político da Igreja Universal do Reino de Deus, em uma trajetória iniciada em 2002, quando o então bispo foi instado a se candidatar a uma vaga no Senado.

O Rio é a primeira capital que o PRB, partido surgido na Universal, administrará. O senador é bispo licenciado e sobrinho do fundador da igreja, o bispo Edir Macedo. “Sempre chega a nossa vez quando a gente não desiste.

Que todos possamos ter a esperança dos que sempre lutam e a fé dos que nunca desistem”, disse o senador, duas vezes candidato a governador que disputou pela terceira vez a prefeitura.

Crivella também apelou à conciliação entre as diversas religiões.

“Quero agradecer à toda a Igreja Católica que nos apoiou, vencendo uma onda enorme de preconceito, levantada na campanha eleitoral e por parte de uma mídia facciosa, inimiga jurada da nossa candidatura.

Agradeço aos candomblecistas e também aos que não têm religião”, afirmou o prefeito eleito.

Ele disse ainda que não se pode “jamais cair na armadilha da praga maldita da vingança”. “O processo eleitoral termina aqui”, afirmou. 

Apoios. Crivella agradeceu também os apoios políticos e ressaltou que “ninguém vence sozinho”. Ele lembrou de aliados como o candidato derrotado no primeiro turno Indio da Costa (PSD), Carlos Osório (PSDB), a deputada federal Clarissa Garotinho (PR), o senador Romário (PSB) e o deputado estadual Wagner Montes (PRB). “Temos quatro anos para construir o Rio de Janeiro de nossos sonhos”, afirmou.

Ao término de seu discurso, Crivella pediu para o público dar as mãos para fazer uma oração.

Juntos rezaram o Pai Nosso – uma sugestão, segundo o novo prefeito do Rio, do padre Lázaro, da Igreja da Penha, na zona norte. Comemoração. Crivella abraça o pastor Silas Malafaia depois da vitória.

ZONAS ELEITORAIS

Como a cidade votou 

Crivella (PRB)

VOTOS VÁLIDOS  - 59,4%

TOTAL DE VOTOS – 1.700.030

Freixo (PSOL)

VOTOS VÁLIDOS  - 40,6%

TOTAL DE VOTOS – 1.163.662 

● O candidato do PRB venceu sobretudo nas zonas norte e oeste da cidade

● O candidato do PSOL venceu principalmente na zona sul da cidade 

Votação por região

Crivella (PRB)

Em Cosmos, Paciência e Santa Cruz, Crivella obteve sua maior votação, 77,8%

Freixo (PSOL)

Em Cosme Velho e Laranjeiras, Freixo obteve sua maior votação, 67,1%

FONTE: TSE

 

O Estado de São Paulo, n. 44939, 31/10/2016. Política, p.A8