Valor econômico, v. 17, n. 4117, 24/10/2016. Finanças, p. C10
Repatriação pode levar dólar a romper R$ 3,10
Fluxo de recurso para o país deve aumentar na última semana de adesão ao programa de anistia
Por: Silvia Rosa
O aumento do fluxo de recursos mantidos no exterior para o programa de regularização de capitais não declarados à Receita Federal pode levar o dólar a renovar a mínima do ano nesta semana, podendo romper a barreira de R$ 3,10. A adesão ao programa se encerra em 31 de outubro e executivos de instituições financeiras afirmam que a maior parte dos recursos esperados para pagamento da multa (15%) e do Imposto de Renda (15%) ainda não entrou no Brasil. Analistas ouvidos pelo Valor acreditam que o volume de arrecadação deve ficar entre R$ 50 bilhões e R$ 80 bilhões. Desse total, cerca de 70% a 80% devem ser de recursos trazidos do exterior.
A entrada de recursos para o programa de repatriação já está tendo impacto no câmbio local e levou o dólar a encerrar a semana passada em queda de 1,35%, com o real apresentando a terceira melhor performance entre as principais divisas emergentes.
A corrida na reta final para regularizar os capitais mantidos no exterior tem provocado um intenso movimento nas mesas de câmbio. "Fechamos um volume considerável de operações de câmbio na última semana para esse programa, mas isso não chegou nem a um terço do total do dinheiro que deve ser trazido para o Brasil com o programa de repatriação, considerando as operações que temos aqui", afirma Tarcísio Rodrigues, diretor de câmbio do Banco Paulista.
O arquivamento do projeto de lei que propunha alterações na Lei de Repatriação acabou levando os clientes a deixar para entregar a declaração na última hora, uma vez que esperavam o adiamento do prazo de adesão. "Tivemos um aumento de 20 vezes nas operações de fechamento de câmbio, mas ainda falta muita gente entregar a declaração", diz Ricardo Russo, superintendente de câmbio do banco Ourinvest.
Os bancos médios ganharam maior participação nessas operações, dado que algumas grandes instituições financeiras começaram a apertar as normas de compliance para fechar o câmbio, pedindo o histórico de toda a movimentação de recursos lá fora para ter segurança da origem do dinheiro. A regra para regularizar o capital no exterior vale apenas para recursos de origem lícita que não foram declarados à Receita.
Como deve haver uma concentração maior dos recursos nesta semana, há chance de o dólar renovar a mínima do ano, de R$ 3,1315, e romper os R$ 3,10, diz Rodrigues, do Banco Paulista. "As grandes fortunas ainda não repatriaram o dinheiro para pagar a multa."
O economista do banco Brasil Plural, Angelo Polydoro, afirma que a pressão no câmbio pode ter um efeito mais duradouro ao longo do ano em função de alguns investidores que vão internalizar os recursos. O Brasil Plural estima um dólar a R$ 3,10 no fim do ano e a R$ 3 no fim de 2017. "Acreditamos que, o que pode, de fato, sustentar a melhora do câmbio, é a agenda de reformas", afirma.
O superintendente de câmbio do Ourinvest afirma que o dólar pode cair nesta semana, mas isso vai depender do cenário externo. "O câmbio tem muita sensibilidade ao cenário externo, especialmente à expectativa para a taxa de juros americana", diz. Nesse cenário, ele acredita que o BC pode, a qualquer momento, aumentar a intervenção no mercado de câmbio nesta semana.
Já o economista do Brasil Plural afirma que o BC só deve intensificar as atuações para resolver distorções pontuais. "Esse BC já deixou claro que vai atuar de forma previsível a não alterar os fundamentos do câmbio. Portanto, acho que ele só deve intensificar a atuação para evitar uma volatilidade na taxa de câmbio por causa do aumento de fluxo", diz Polydoro.
Para ele, o que vai determinar a tendência para o câmbio é o cenário externo e os fundamentos macroeconômicos, como o ambiente político e as reformas. "O fluxo é relevante no curto prazo, mas não é o que vai definir a tendência de longo prazo, que tem mais a ver com a recuperação da confiança dos investidores, que depende da melhora da economia e do governo avançar nas reformas", afirma.
Os investidores aguardam a votação em segundo turno na Câmara da PEC do teto de gastos, prevista para hoje. "A aprovação da PEC pode ser mais um elemento a dar força para o real", afirma um gestor local.
Já Alberto Ramos, diretor de pesquisas econômicas do Goldman Sachs para a América Latina, destaca que, se houver fluxo significativo, o BC pode esterilizar esses recursos comprando dólares para aumentar as reservas internacionais ou mesmo ampliar o volume de oferta de contratos de swap cambial reverso.
O BC vem colocando 5 mil contratos de swap cambial reverso por dia, operação equivalente a uma compra de US$ 250 milhões no mercado futuro. Mas analistas não descartam a possibilidade da autoridade monetária voltar a dobrar esse volume e ofertar 10 mil contratos. As operações de swap reverso tem um efeito de anular os contratos de swap tradicional e têm sido usadas pelo BC como um instrumento para reduzir o estoque em derivativos cambiais que soma US$ 30,067 bilhões.