Para TSE, chapa usou gráfica para ‘desvios’
Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo
08/10/2016
Laudo contábil diz que fornecedora de campanha presidencial, a Focal, foi utilizada ‘para outros fins’, tendo recebido R$ 3,2 mi de forma suspeita
Laudo contábil do Tribunal Superior Eleitoral afirma que a Focal Confecções e Comunicação Visual recebeu R$ 3,2 milhões de forma irregular da campanha presidencial de 2014 de Dilma Rousseff e pode ter sido usada para desvios de recursos eleitorais.
O documento anexado à ação de investigação eleitoral de cassação da chapa Dilma-Temer será compartilhado com investigadores das operações Lava Jato e Custo Brasil. Os dois grupos apuram corrupção e lavagem de dinheiro na Petrobrás e no Ministério do Planejamento, respectivamente, que teriam beneficiado o PT.
“A empresa (Focal) não possui controles adequados para subcontratação de empresas, deficiências nos registros contábeis e não apresentou documentos hábeis a comprovar que os produtos e serviços contratados pela chapa presidencial eleita em 2014 foram integralmente produzidos e entregues à campanha, não afastando nessa hipótese, desvio de finalidade dos gastos eleitorais para outros fins que não o de campanha”, concluíram quatro peritos contábeis do TSE.
Segunda maior fornecedora da campanha petista em 2014 – com recebimento de R$ 24 milhões, atrás apenas do marqueteiro João Santana (R$ 70 milhões), a Focal pertence a Carlos Roberto Cortegoso. O empresário é investigado pela Polícia Federal e Ministério Público Federal nas duas operações – na Custo Brasil, ele é réu – por suposta ocultação de propinas.
Os dados contábeis do TSE permitirão aos investigadores criminais o rastreio de possíveis valores ilícitos movimentados por Cortegoso em favor do PT. “A análise da perícia contábil no fornecimento de bens e serviços da empresa Focal Confecção e Comunicação Visual Ltda à chapa presidencial eleita em 2014 apresentaram inúmeras inconsistências”, registra o laudo, que é de 22 de agosto.
Defesa. A defesa da campanha da presidente afastada Dilma Rousseff afirma que os peritos “não realizaram” todos os procedimentos de investigação necessários sobre os serviços de gráficas. “Ao considerar o laudo pericial como insuficiente, incompleto e impreciso, a defesa de Dilma Rousseff requereu ao TSE que nova perícia contábil seja realizada”, diz o advogado Flávio Caetano. O TSE negou ontem, no entanto, a nova perícia e considerou a medida protelatória (mais informações nesta página). O advogado acrescenta que a Focal realizou os serviços da forma combinada, com preços de mercado.
Cortegoso foi procurado, mas não respondeu à reportagem até a conclusão desta edição. Em outra ocasião, ele negou ilícitos nas movimentações financeiras de suas empresas.
Fornecedora
R$ 24 mi é o valor recebido pela Focal Confecções e Comunicação Visual da campanha de Dilma, em 2014. A empresa pertence a Carlos Roberto Cortegoso, réu na Operação Custo Brasil, que investiga desvios no Ministério do Planejamento. Trata-se da segunda maior fornecedora de serviços da chapa vencedora na última eleição presidencial. A maior, de João Santana, recebeu R$ 70 mi.
O Estado de São Paulo, n. 44932, 08/10/2016. Política, p.A5