Valor econômico, v. 17, n. 4109, 12/10/2016. Brasil, p. A3
Por: Tainara Machado
O Novo Regime Fiscal, com a imposição de um teto para o crescimento da despesa primária da União, pode levar a dívida bruta a se estabilizar no início da próxima década, entre 80% e 90% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora seja um nível considerado bastante elevado para os padrões de países emergentes, economistas consultados pelo Valor avaliam que o cenário alternativo, em que a dívida bruta mantém o atual ritmo de crescimento, é bem pior: nesse caso, o endividamento cresceria sem parar e alcançaria 100% do PIB em pouco menos de dez anos.
"A aprovação da emenda é fundamental para melhorar a perspectiva sobre a política fiscal. É um ajuste estrutural, mas gradual, que evita medidas de emergência. A diferença é clara entre o caminho que estávamos trilhando", afirma Marcelo Carvalho, economista-chefe do BNP Paribas.
Carvalho simulou o cenário com e sem a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que limita o crescimento da despesa primária à variação da inflação nos 12 meses encerrados em junho do ano anterior. Ontem à noite, a Câmara aprovou, em primeiro turno, o texto-base da PEC.
O Novo Regime Fiscal, como a regra é chamada, levaria a dívida a se estabilizar em 2022, em torno de 90%. Já mantidas as condições atuais de crescimento da despesa e da receita, a dívida alcançaria 98% do PIB ao fim de 2022 e passaria a 104% do PIB dois anos depois. "Só incorporei a diferença de resultado primário, sem pensar no impacto positivo sobre crescimento e taxa de juros", diz Carvalho.
Para Tatiana Pinheiro, economista do Santander, o endividamento bruto pode parar de subir mais cedo, em 2020, e em um nível bem mais baixo, de 82,8% do PIB. Para ela, a aprovação da PEC deve elevar a confiança dos agentes econômicos, o que resultaria em crescimento mais forte da economia e, consequentemente, da receita. Além disso, o resultado fiscal deixaria de exercer pressão expansionista sobre a demanda, abrindo espaço para cortes de juros mais significativos, com redução do custo de financiamento da dívida. Esse círculo virtuoso, diz, anteciparia o início do processo de redução do endividamento bruto do país.
Mesmo assim, é só em 2020 que o país deve voltar a ter superávit primário, de 1% do PIB, depois de seis anos de déficits consecutivos.
Os economistas Felipe Salto e Monica de Bolle criticam a lentidão com que o teto age no curto prazo. Em artigo, eles afirmam que a ideia de controlar os gastos é essencial, mas ponderam que o ajuste é demasiadamente frouxo nos primeiros anos, enquanto no longo prazo a PEC poderia levar o superávit primário a superar 6%. O projeto ainda é incompatível com uma série de regras de correção do gasto obrigatório, dizem.
Carvalho, do BNP Paribas, avalia que seria possível pensar em outros formatos para a proposta, mais duros no curto prazo. "Há outros desenhos possíveis, claro, mas esse parece ser bastante inteligente, porque é correto e factível. É um bom meio termo entre o economicamente desejável e o politicamente possível", diz.
Pedro Schneider, economista do Itaú, também avalia que o ajuste proposto está "de bom tamanho". Para ele, não adiantaria perseguir um crescimento da despesa atrelado ao centro da meta de inflação, por exemplo, e descumprir os limites. "O que é mais importante é que a PEC seja crível, possível de ser cumprida."
Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), também diz que a PEC é uma oportunidade para o país lidar com a situação fiscal atual de maneira suave e, mesmo assim, com ganhos de credibilidade que contribuiriam para redução mais acentuada da taxa de juros. "O Novo Regime Fiscal vai levar também a um novo regime monetário."
A redução de juros seria bastante ajudada pelo aumento da poupança que resultaria da PEC, avalia Angelo Polydoro, economista do Banco Brasil Plural. Ao voltar a ter superávits primários nas contas públicas, o governo deixaria de consumir poupança. Ao mesmo tempo, a reforma da Previdência, segundo passo esperado pelos economistas, forçaria um aumento de poupança privada. "O aumento da poupança é fundamental para redução dos juros e, por consequência, da expansão dos investimentos", diz.
Apesar dos elogios de economistas, a PEC enfrenta resistências relevantes, especialmente por causa do congelamento, em termos reais, dos gastos com saúde e educação a partir de 2017. Em apresentação no mês passado, o ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, afirmou que o prazo de vigência do controle sobre a despesa, de 20 anos, é um "absurdo em termos políticos". Barbosa criticou ainda a redução per capita dos investimentos em saúde e educação.
Para o Itaú, porém, a manutenção do cenário atual, com estagnação econômica, tiraria mais recursos das duas áreas do que a PEC nos próximos cinco anos.
Castelar, que fez apresentação no domingo para deputados convidados por Temer, discorda dessas críticas. "As pessoas não percebem que não dá para manter a trajetória atual de aumento de gasto. Não estamos discutindo a PEC ou a trajetória anterior. A discussão é sobre a PEC ou algo como o que acontece no Rio, onde há a obrigação de despesa, mas não o dinheiro."
Marco Caruso, economista do Banco Pine, acredita que o congelamento da despesa pelos próximos 20 anos irá exigir uma avaliação da despesa sem precedentes. "É uma bela mudança de postura", diz ele. Um segundo passo, afirma, deve ser a reforma da Previdência (ver a reportagem Após 2019, limite não é factível sem reformar Previdência).
Se essa agenda caminhar bem, é provável que o governo consiga evitar aumento de impostos, mesmo que o país só volte a ter superávit em 2019, afirma. "O mercado pode aceitar um tempo mais lento de convergência. Acho que o governo vai evitar ao máximo elevar tributos, até para usar como moeda de troca: ou reforma a Previdência ou sobe imposto", diz.
Para a maioria dos economistas, a alternativa é um cenário bastante adverso, em que a dívida continua a subir no ritmo atual e bate em 90% do PIB antes de 2020, sem nenhuma perspectiva de reversão dessa tendência. Os preços dos ativos, que já incorporaram parte dos ganhos esperados com a medida, voltariam a cair, com piora da percepção de risco, diz Castelar. Esse cenário pressionaria a taxa de financiamento da dívida, com impactos negativos sobre o déficit nominal e dívida, que subiria exponencialmente. "Sem a PEC, não voltamos a ter superávit primário e a dívida caminha para trajetória explosiva. Prefiro nem pensar."
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Por: Tainara Machado
A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece um teto para o crescimento da despesa primária da União tornará mais urgente a reforma da Previdência e de outras regras de vinculação da despesa obrigatória, dizem economistas.
Para Tatiana Pinheiro, do Santander, até 2019 é possível acomodar um crescimento maior das despesas com benefícios previdenciários, saúde e educação, sem comprimir demais os investimentos ou pressionar o teto do gasto. Um estudo do banco sobre o Novo Regime Fiscal mostra que ainda há alguma "gordura" no Orçamento, com certas rubricas que tendem a crescer menos do que a inflação nos próximos dois anos.
É o caso, por exemplo, dos subsídios e subvenções, que têm a base inflada por causa dos pagamentos de "pedaladas" em 2015. Até agosto deste ano, essas despesas subiram 24%, em termos reais. Para a economista, a maioria dos pagamentos em atraso deve ser quitada até o fim deste ano e, a partir de 2018, os subsídios do PSI devem começar a cair, com o vencimento das linhas.
Tatiana ressalta ainda que outros gastos correntes - basicamente despesas discricionárias - estão bem acima do observado até 2014 e, por isso, seriam facilmente reduzidas nos próximos anos, "até para demonstrar o comprometimento do governo com a austeridade fiscal".
Depois desse período, avalia Tatiana, outras medidas vão ser essenciais, tais como a reforma da Previdência e a desvinculação dos gastos de assistência social, como seguro-desemprego, abono salarial e benefícios previdenciários, da correção do salário mínimo. Pela regra que vale até 2019, o piso salarial do país é corrigido pela inflação do ano anterior e o PIB de dois anos antes.
Pedro Schneider, economista do Itaú, também calcula que a partir de 2019 ficará muito difícil cumprir o teto para a despesa sem outras reformas estruturais. Hoje, o gasto com benefícios previdenciários já responde por 40% da despesa primária do governo. Como o número de beneficiários cresce a um ritmo de 4% ao ano e dois terços dos benefícios são reajustados pelo salário mínimo, em 2020 a despesa previdenciária, mantidas as condições atuais, vai saltar para 50% do gasto da União, comprimindo excessivamente outras rubricas do Orçamento.
Para ele, com a PEC aprovada, a reforma da Previdência passará a ser essencial. Ele avalia que a elevação da idade mínima para 65 anos, mesmo com um período de transição, já teria efeitos sobre o crescimento anual do número de beneficiários. Isso porque a proposta em discussão pelo governo prevê endurecimento das regras para concessão de pensões, por exemplo, além de um "pedágio" que poderia reduzir a taxa de expansão das aposentadorias para algo como 2% em termos reais.
Schneider avalia que o governo precisará discutir a vinculação do piso das aposentadorias à correção do salário mínimo. Segundo ele, as aposentadorias deveriam ser reajustadas de acordo com a inflação, mas essa é uma discussão que pode ser feita "mais para frente".