Valor econômico, v. 17, n. 4142, 30/11/2016. Política, p. A8
Por: Carolina Oms, Andrea Jubé e Bruno Peres
O Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu os áudios das conversas gravadas pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero com o presidente Michel Temer, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima.
O material foi enviado pela Polícia Federal. É o Supremo quem decide se abre inquérito para investigar suposta pressão contra o ex-ministro, mas isso só acontecerá se a Procuradoria-Geral da República pedir ao STF que investigue as acusações feitas por Calero.
O presidente Michel Temer deixou o Palácio do Planalto ontem cedo para os padrões normais, por volta das 19 horas, por razões de segurança, num momento em que manifestantes contra a votação da PEC do teto dos gastos públicos botavam fogo em carros na Esplanada e quebravam vidros de ministérios. Em dias normais, Temer acompanharia a votação da PEC de seu gabinete, na companhia de auxiliares, até o final.
O clima ontem no Palácio era de tensão máxima, tanto pela violência dos protestos, que surpreendeu o governo, quanto pela expectativa de novas denúncias contra o principal ministro do governo, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, responsável pela reforma da Previdência Social. Há temor no palácio de que o conteúdo dos áudios gravados por Calero possa comprometer Padilha.
Um auxiliar disse que, após o desgaste sofrido pelo governo no episódio envolvendo o ex-ministro Geddel Vieira Lima, com a demora em afastá-lo, Temer está determinado a não incorrer no mesmo erro. Mesmo que o alvo seja Padilha.
Ontem Padilha passou mal. Logo pela manhã, foi atendido pelo serviço médico do palácio, com picos de pressão alta, segundo informações de sua assessoria. O ministro submeteu-se a um eletrocardiograma, com resultados satisfatórios e o médico lhe recomendou repouso. No fim do dia, o ministro viajou para Porto Alegre. No fim de setembro, Padilha teve uma licença médica de cinco dias também em razão de uma crise de hipertensão.
Na ausência de Geddel, Padilha foi requisitado a reforçar a articulação política. Além da reforma da Previdência, ele ainda acumula as funções inerentes à Casa Civil e ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Por meio de seu porta-voz, Temer repudiou o vandalismo e disse que a violência não é instrumento legítimo de pressão sobre oCongresso.
Em conversa gravada, o presidente Michel Temer disse ter sido "inconveniente" com o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero ao insistir para que ele permanecesse no cargo. A transcrição da conversa entre Temer e Calero, ocorrida no dia 18, foi divulgada ontem pela Globonews.
"Quero pedir minha demissão e quero que o senhor aceite, por gentileza, porque eu não me vejo mais com... condições e espaço de estar no governo", disse Calero. Temer afirmou: "Se é sua decisão, tem que respeitar. Ontem, acho que até fui um pouco inconveniente, né? Insistindo muito para você... para você permanecer. Confesso que não vejo razão pra isso, mas você terá as suas razões."
As conversas foram gravadas pelo próprio Calero e entregues à Polícia Federal. Temer reclamou publicamente sobre o fato de ter sido gravado.
Em outra conversa divulgada pela Globonews, o secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha, fala com Calero sobre o caso do prédio embargado pelo Iphan em Salvador. "Eu até falei com o presidente, Gustavo, eu não quero me meter com essa história, não", disse o então ministro.
Rocha diz: "O que ele [Temer] me falou para falar era: 'veja se ele encaminha, e não precisa fazer nada, encaminha pra Advocacia Geral da União (AGU)'".
Depois de pedir demissão, Calero acusou os três de pressioná-lo a atropelar um parecer técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e liberar as obras do La Vue, um prédio de luxo no Porto da Barra em Salvador, onde o ex-ministro da Secretaria de Governo teria um apartamento.
Ontem o presidente Michel Temer cancelou a indicação do diplomata Marcelo Calero para a presidência da Autoridade Pública Olímpica (APO), conforme mensagem publicada no "Diário Oficial da União".
A indicação havia sido encaminhada ao Congresso em agosto, enquanto Calero era ministro da Cultura.