O presidente Michel Temer mobiliza a Força e a União Geral dos Trabalhadores (UGT) para tentar rachar o movimento sindical, reduzir a oposição às reformas da Previdência e trabalhista e esvaziar ações contra o governo planejadas pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior central brasileira e ligada ao PT.
Até o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deverá conversar com sindicalistas aliados para barrar eventual impacto negativo das propostas entre os trabalhadores.
O governo espera que as duas centrais, que juntas superam a CUT em número de sindicatos filiados, ajudem ao menos a “embalar” o discurso sobre a necessidade das reformas. Em troca, o Planalto deverá ceder às reivindicações dos aliados e ampliar seus espaços na gestão.
Após ser recebido em audiência privada de 40 minutos com Temer na quarta-feira, o presidente da UGT, Ricardo Patah, saiu do encontro com o compromisso de levar Meirelles a uma plenária na sede da entidade em São Paulo. A exemplo do titular da Fazenda, Patah é filiado ao PSD de Gilberto Kassab, atual ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações.
“Faremos o encontro daqui a uns dez dias. Será uma reunião grande. O Michel gostou da ideia. Ele quer que o debate com a equipe econômica não se limite ao meio empresarial. A sociedade tem de participar”, afirmou Patah ao Estado.
“Vou chamar todos os presidentes estaduais para acompanhar a fala do ministro Meirelles.
Vamos nesse diálogo superar as dúvidas sobre a retirada de direitos. Nossa relação com o governo é respeitosa. Não vamos ser contra apenas por sermos contra”, disse Patah. A assessoria de Meirelles informou que o encontro com os sindicalistas ainda não foi marcado.
Patah disse também que Temer pretende enviar a reforma da Previdência ao Congresso Nacional no dia 3 de dezembro e a trabalhista no começo do próximo ano.
O primeiro triunfo da estratégia do presidente já foi obtido com o esvaziamento do chamado Dia Nacional de Greve, promovido pela CUT na sexta-feira.
A UGT e a Força optaram por não participar. Em vez disso, marcaram uma manifestação para o próximo dia 25. “Nós falamos para a CUT que não iríamos, e a data era dia 25. Até porque a data de hoje (sexta-feira) ia ter ‘fora, Temer’, e isso para a gente é coisa do passado”, afirmou o deputado Paulinho da Força (SD-SP).
A manifestação do dia 25 vai tratar de dois temas que, na avaliação do Planalto, serão definidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF): a terceirização e a prevalência do acordado sobre o legislado em questões trabalhistas.
A expectativa da equipe econômica é de que pelo menos metade da reforma trabalhista seja resolvida na Justiça, o que eliminaria dois problemas: livraria o governo Temer do desgaste e esvaziaria a oposição.
“Não há a possibilidade de se fazer greve geral. Iríamos ficar na rua falando de greve geral e o povo trabalhando. Para se fazer greve, você tem de ter motivo. E não temos”, disse Paulinho.
Aliados. Juntas, a UGT e a Força têm 2.892 entidades, contra 2.319 da CUT, que reúne mais de 30% dos sindicalizados. Incentivadas pelo Planalto, Força e UGT cogitaram até uma fusão há alguns meses, mas a ideia, por enquanto, não avançou.
Segundo um interlocutor do governo no Congresso, a ideia é que as entidades cumpram na gestão Temer o mesmo papel que a CUT exerceu nos governos do PT: críticas pontuais combinadas com o apoio institucional e veto ao “fora, Temer”.
“Estaremos em contato com as centrais sindicais para dirimir quaisquer arestas que tiverem na proposta de reforma trabalhista que o governo pretende encaminhar. E aí estão incluídas todas elas, até mesmo a CUT, se quiser conversar”, disse ao Estado o ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima.
Pressão. Enquanto recebe o apoio dessas duas centrais na base, Temer é pressionado a aumentar o espaço na administração federal dos partidos ligados à Força e à UGT.
Líder da Força, Paulinho quer que a Secretaria de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário, atrelada à Casa Civil, volte a ter status de ministério.
“Houve um compromisso do presidente Michel Temer de transformar em ministério. Ele nos pediu para aguardar um pouco e estamos aguardando que ele nos chame”, disse.
Antes mesmo de o governo atender ao pedido de Paulinho e criar secretarias ligadas à Casa Civil para tratar de questões fundiárias, o presidente do Solidariedade já havia indicado ao Planalto os nomes para ocupar diversas posições no governo.
PONTOS POLÊMICOS
Reforma trabalhista
Contratos de trabalho: modalidades por hora ou produtividade;
Jornada: limitar a 48 horas semanais e 12 horas diárias;
Terceirização: irrestrita, para qualquer tipo de atividade.
Reforma da Previdência
Idade mínima: ter pelo menos 65 anos para se aposentar;
Tempo de contribuição: subiria de 15 para 25 anos, no mínimo;
Vínculo: aposentadoria e salário mínimo serão vinculados, mas outros benefícios não.
O TAMANHO DAS CENTRAIS
● Aliadas ao Palácio do Planalto, UGT e Força Sindical reúnem cerca de um quarto dos sindicatos do País
CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES (CUT)
TRABALHADORES FILIADOS - 30,4% (3.878.261)
SINDICATOS FILIADOS - 21,2% (2.319)
FORÇA SINDICAL
TRABALHADORES FILIADOS – 10,1% (1.285.348)
SINDICATOS FILIADOS – 14,8% (1.615
UNIÃO GERAL DOS TRABALHADORES (UGT)
TRABALHADORES FILIADOS - 11,3% (1.440.121)
SINDICATOS FILIADOS – 11,7% (1.277
NOVA CENTRAL SINDICAL DE TRAB. (NCST)
TRABALHADORES FILIADOS - 7,4% (950.240)
SINDICATOS FILIADOS – 10,4% (1.136)
CENTRAL DOS TRAB. DO BRASIL (CTB)
TRABALHADORES FILIADOS – 10,1% (1.286.313)
SINDICATOS FILIADOS - 6,8% (744)
CENTRAL DOS SINDICATOS BRASILEIROS (CSB)
TRABALHADORES FILIADOS – 8,1% (1.039.902)
SINDICATOS FILIADOS – 5,5% (597)
CENTRAL GERAL DOS TRAB. DO BRASIL (CGTB
TRABALHADORES FILIADOS - 1,88% (239.844)
SINDICATOS FILIADOS - 2,0% (217)
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Dirigentes de centrais da oposição consideram que tanto a Força Sindical quanto a União Geral dos Trabalhadores (UGT) têm agido de forma dúbia para evitar a perda de apoio na base em função da aproximação com o governo Michel Temer. Eles citam como exemplo a reunião entre as entidades para a realização de uma greve geral, programada para sexta-feira passada.
Um sindicalista da Central Única dos Trabalhadores (CUT) disse que os presidentes da Força e da UGT chegaram a afirmar que estavam participando da reunião para sinalizar a seus associados que apoiavam o ato, mas informaram na ocasião que não iriam participar, como de fato aconteceu.
O deputado Paulinho da Força (SD-SP), presidente da Força, afirmou que na reunião ficou definido o dia 25 como o dia do ato nacional pela garantia dos direitos trabalhistas. A data, segundo ele, ficou definida entre diretores de todas as entidades, mas a CUT foi pressionada pela base a antecipar o ato.
Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), ligada ao PCdoB, mas com presença também do PDT e PT, disse ao Estado que o alinhamento da UGT e Força com governo não tem respaldo das bases. “Vamos disputar essas bases. O trabalhador não foi consultado sobre a aproximação da Força e UGT com o governo.” Adilson afirmou que a CTB e as demais centrais também querem manter o diálogo aberto com o governo.
Críticas. Em discurso nas plenárias sindicais da Força, o metalúrgico Miguel Torres, vice-presidente da entidade, subiu o tom contra o governo Temer para evitar uma migração de sindicatos para a CUT. “Não vamos admitir perda de direitos. O governo precisa tomar algumas providências antes das reformas, como taxar grandes fortunas, lucros e dividendos.” A CUT afirmou que já há migração de sindicatos para a sua base. Paulinho, porém, negou.
O Estado de São Paulo, n. 44953, 14/11/2016. Política, p. A4