A economia de Trump

Míriam Leitão

02/11/2016

 

 

A proposta econômica do candidato republicano Donald Trump levará os EUA a terem mais inflação, mais juros e menor crescimento. Foi por isso que várias bolsas e moedas caíram pelo mundo, ontem, após a divulgação de uma pesquisa em que ele aparece à frente da candidata democrata Hillary Clinton. Para o Brasil, a vitória de Trump dificultaria o ajuste fiscal e a recuperação do PIB.

A economista Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria, já havia mapeado os riscos em caso de vitória de Trump, antes mesmo da divulgação da pesquisa. Ela pondera que parte das propostas poderá ser vetada pelo Congresso americano, mas principalmente a ideia de aumento de barreiras comerciais pode ser implementada apenas pelo executivo.

O aumento do isolacionismo americano teria impacto no comércio e no crescimento mundiais, com reflexos no Brasil, porque os EUA são o nosso segundo principal parceiro, atrás apenas da China. Além disso, a desaceleração do mundo teria efeito indireto sobre vários outros países que compram os nossos produtos.

A inflação americana seria pressionada por várias frentes. A restrição às importações diminuiria a oferta de bens e serviços, encarecendo os preços. O combate à imigração reduziria a oferta de mão de obra, em uma economia que já está com taxas baixas de desemprego. Com inflação mais alta, o BC americano seria obrigado a subir os juros mais rapidamente, afetando o PIB e os fluxos financeiros mundiais.

Trump defende redução de impostos, de um lado, e mantém propostas que aumentam gastos, de outro, como os militares. Alessandra prevê aumento do déficit e do endividamento do governo americano.

A simples ameaça de vitória de Trump já derrubou o Ibovespa e pressionou o dólar. Com juros mais altos por lá, a redução da Selic, por aqui, seria mais lenta, com efeito sobre a recuperação econômica. Isso é tudo o que o Brasil não precisa.

 

Pior para os emergentes

O risco de uma vitória de Trump entrou mesmo no radar do mercado, conta Luiz Fernando Figueiredo, diretor da Mauá Capital. A dificuldade de Hillary Clinton com o escândalo dos emails acendeu o que Figueiredo chamou de “sinal vermelho”. A incerteza atingiu especialmente os países emergentes e fez o dólar subir, porque os investidores passaram a fugir de países mais arriscados. Contra o real, a alta foi de 1,6%. Figueiredo chama a atenção para a reação no México, onde o peso chegou a cair 1,7%.

 

Pequeno alívio

O crescimento da indústria em setembro, embora pequeno, trouxe alívio após dois meses de queda. A produção, na verdade, parece estar andando de lado desde fevereiro, como mostra o gráfico. O número índice calculado pelo IBGE apontava 83,4 pontos no segundo mês do ano e agora em setembro marcou 83,8, com ajuste sazonal. Duas conclusões saltam aos olhos: a indústria está estabilizando após um longo período de retração, mas, ao mesmo tempo, não tem força para se recuperar. Em relação ao pico da produção, em junho de 2013, o recuo chega a 20%.

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O globo, n. 30403, 02/11/2016. Economia, p. 22.