O Estado de São Paulo, n. 44968, 29/11/2016. Política, p. A4
'Qualquer fatozinho abala instituições', diz Temer
Três dias após a queda do ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), o presidente Michel Temer afirmou ontem que “qualquer fatozinho abala as instituições”. Diante de uma plateia de empresários, Temer disse que o Brasil não tem instituições muito sólidas, mas classificou as instabilidades como “passageiras, que não podem ser levadas a sério”, sem citar diretamente a crise.
“É interessante que de vez em quando há uma certa instabilidade institucional, um fato ou outro. Como nós não temos instituições muito sólidas, qualquer fatozinho, me permitam a expressão, abala as instituições e o investidor fica um pouco assustado”, discursou o presidente em seminário sobre o futuro do País, em Brasília.
O presidente afirmou também não estar assustado com o crescimento das manifestações que pedem sua saída menos de três meses após assumir o cargo definitivamente. “Nós não devemos nos assustar com determinados movimentos que pleiteiam cada vez mais eficiência”, disse. “Não temos de nos impressionar com movimentos sociais, com aqueles que postulam, porque são postulações legítimas.
Isso só nos faz ficarmos mais atentos ainda para logo alcançarmos o crescimento do País.” Temer pediu apoio dos investidores, sob o argumento de que “o governo não age sozinho”.
Na véspera da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Teto de Gastos, o presidente disse que a confiança está sendo retomada e que a aprovação da proposta será por “boa margem de votos”.
Para o governo, a votação representa um teste de força no Congresso depois da saída de Geddel, um dos principais articuladores políticos.
Ontem, o presidente assumiu as negociações com os senadores para garantir a aprovação da PEC em primeiro turno, em meio à ofensiva da oposição, que protocolou um pedido de impeachment contra ele. “Essas instabilidades são passageiras e não podem ser levadas a sério porque levado a sério tem que ser o País. (....) Os senhores podem investir. O Estado brasileiro não os decepcionará”, discursou Temer no evento.
Indefinição. Na tentativa de evitar desgastes com a base aliada antes da votação da PEC, espinha dorsal do ajuste fiscal, o governo adiou a escolha do substituto de Geddel. Na lista dos cotados para o cargo estão os assessores palacianos Mozart Vianna e Rodrigo da Rocha Loures, além dos deputados Rogério Rosso (PSD-DF) e Baleia Rossi (PMDB-SP), líderes dos seus partidos na Câmara.
Após reunião com Temer, o líder do governo no Congresso, Romero Jucá (PMDB-RR), afirmou que a substituição será decidida “no momento apropriado” e, para evitar disputa entre os partidos, disse que “o cargo não é (necessariamente) do PMDB”. “A vaga não é de ninguém”, disse ele, o primeiro dos seis ministros que deixaram a gestão Temer desde maio.
Na votação, Jucá calcula que o governo terá entre 62 e 65 votos – número mais expressivo do que o placar do impeachment de Dilma Rousseff em agosto. Na ocasião, foram 61 votos pelo afastamento da petista.
Agenda positiva. O Palácio do Planalto também busca sair da agenda negativa em que o governo se envolveu há dez dias, desde que Geddel foi acusado pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero de pressionar pela aprovação de um empreendimento em Salvador. Geddel deixou o governo na sexta-feira, na esteira de acusações feitas por Calero de que Temer e o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, também o teriam pressionado.
A estratégia para “mudar de assunto” passa pela sanção da lei que amplia a participação da iniciativa privada na exploração do pré-sal, em cerimônia hoje no Planalto.
Palestra. Michel Temer discursa em evento com empresários em Brasília; à tarde, reuniu senadores no Palácio do Planalto
‘Instabilidade’
“É interessante que, de vez em quando, há uma certa instabilidade institucional, um fato ou outro. Como não temos instituições muito sólidas, qualquer fatozinho, me desculpem a expressão, abala as instituições.”
Michel Temer
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Vera Rosa
O governo avalia que o próximo alvo da crise será o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Nos bastidores do Palácio do Planalto, auxiliares do presidente Michel Temer não escondem a preocupação com o conteúdo das conversas gravadas pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero. Embora Temer tenha dito querer que esses áudios “venham à luz”, na prática existe o receio de que Padilha e o secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha, tenham feito alguma afirmação que possa ser interpretada como “advocacia administrativa” em favor do ex-ministro Geddel Vieira Lima.
A queda de Geddel está longe de estancar a crise e a apreensão tomou conta do Planalto. A avaliação é a de que o governo aprovará hoje, no Senado, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que limita os gastos públicos, mas pode ter dificuldades mais adiante. Com um cenário de incertezas, aliados do governo já veem uma “conspiração” para derrubar Temer e muitos receberam a missão de investigar se há ligação de Calero com a esquerda ou até com o PSDB do senador Aécio Neves.
No depoimento à Polícia Federal, Calero citou Padilha 11 vezes e disse que ele foi o autor da “tese” segundo a qual a Advocacia- Geral da União buscaria uma saída para resolver a queda de braço entre Geddel e o Iphan. O ex-ministro da Cultura mencionou ainda Gustavo Rocha como o autor de uma ligação “determinante” para sua decisão de deixar o governo, pois, de acordo com suas palavras, “demonstrava a insistência do presidente” em fazer com que ele interferisse indevidamente no processo.
No Planalto, o comentário é que atingir Padilha equivale a um tiro de morte na direção de Temer. Chefe da Casa Civil, o ministro é considerado o “capitão do time” e por seu gabinete passam assuntos que vão da votação da PEC do Teto à reforma da Previdência. O lema de Padilha é “meia vitória é melhor do que uma derrota total”.
Neste caso, porém, não é possível prever nem sequer o dia seguinte da batalha.