O globo, n. 30420, 19/11/2016. País, p. 9

Roberto Freire vai assumir Ministério da Cultura

 
Catarina Alencastro
Eduardo Barretto
Evandro Éboli

 

Presidente do PPS, Roberto Freire assumirá o Ministério da Cultura com a saída de Marcelo Calero, que pediu demissão após desavenças com o ministro Geddel Vieira Lima. O deputado federal e presidente nacional do PPS, Roberto Freire (SP), será o novo ministro da Cultura. Ele vai substituir Marcelo Calero, que pediu demissão ontem, após seis meses no cargo. Calero entregou o posto após desavenças com o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, que pretendia fazer ingerências na área cultural. Em carta ao presidente Michel Temer, Calero disse que a decisão era de ordem pessoal e irrevogável. E que encontrou limitações na sua gestão.

roca. Calero não aceitou pedido para ficar e será substituído por Freire

Diplomata de carreira, Calero se apresenta nas redes sociais como carioca da Tijuca, flamenguista, católico e amante do samba e da prosa de Lima Barreto. Na mensagem a Temer, ele não dá detalhes da razão que o levou a sair do governo. E diz que fez uma gestão “proba”.

“Durante os últimos seis meses, empreguei o melhor dos meus esforços, apoiado por uma equipe de extrema qualidade para pensar a política cultural brasileira. Saio do Ministério da Cultura com a tranquilidade de quem fez tudo o que era possível fazer, frente os desafios e limitações com os quais me defrontei. E que o fez de maneira correta e proba”, afirmou em trecho da carta.

Interlocutores do presidente confirmaram que a decisão de entregar o cargo teve como motivação um grave desentendimento com o ministro Geddel. Mas não entraram em detalhes. Calero conversou ontem à tarde com Temer e falou da dificuldade de continuar à frente do ministério, anunciando que entregaria sua carta de demissão. O presidente, então, fez um apelo para que ele reconsiderasse, e argumentou que seu trabalho era excelente. O ex-ministro prometeu pensar, mas ontem comunicou a decisão da saída do governo. Geddel Vieira Lima não se manifestou sobre o assunto.

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Deputado diz ter ficado ‘impactado’ com o convite

 

Roberto Freire disse ao GLOBO que ficou “impactado” com o convite, e que ainda não havia conversado com o presidente Michel Temer. Ele afirmou que pretende falar também com o ministro demissionário Marcelo Calero:

— Para você pode não ter sido uma surpresa, mas fiquei impactado (com o convite). É preciso calma nesta hora. Aceitei o convite porque é responsabilidade de nós que participamos do impeachment (de Dilma Rousseff), contribuir com esse governo, fruto de nossa ação no Congresso.

O novo ministro afirmou que começa a gestão otimista:

— O próprio presidente já falou que há uma previsão de aumento de recursos para a área de cultura. Já é um sinal importante. Estamos vivendo no momento um processo de reformas. A sociedade exige isso. Na cultura também temos que discutir alguns entraves. Posso dizer que serei mais um integrado na equipe e trabalhando para ver esse governo encaminhar bem sua transição( para 2018), na maior normalidade institucional.

Freire havia sido convidado para a pasta em maio, antes de Temer decidir acabar com o MinC, e desconvidado em seguida. Cogitou-se, então, que ele assumisse uma Secretaria de Cultura, que seria criada dentro da estrutura do Ministério da Educação. Na época, o deputado chegou a conversar com O GLOBO para detalhar planos. Horas depois, negou o envolvimento.

 

SEIS MESES CONTURBADOS

Em 18 de maio, o diplomata Marcelo Calero era anunciado como secretário de Cultura, após diversos nomes recusarem a vaga, como Bruna Lombardi e Eliane Costa. Pouco depois, Temer voltou atrás na decisão de extinguir o MinC, e o diplomata se tornou o titular da pasta.

Em seis meses de gestão, o exministro celebrou a confirmação da Pampulha, em Belo Horizonte, como Patrimônio Cultural da Humanidade, e o prometido aumento de orçamento de Temer para a pasta, além de ser um forte defensor da Lei Rouanet, apesar de sustentar a necessidade de ajustes. Enfrentou também uma série de momentos conturbados e a oposição de parte da classe artística. Um dos episódios mais polêmicos foi quando exonerou cerca de 80 funcionários — o maior corte já feito na pasta (voltou atrás em relação aos da Cinemateca Brasileira). Além disso, quando prédios do MinC foram ocupados por manifestantes, disse que não os expulsaria, mas, dias depois, ordenou a reintegração de posse no Rio e em São Paulo. Antes, já havia causado polêmica ao criticar publicamente a equipe do filme “Aquarius” por ter protestado contra o impeachment de Dilma Rousseff no Festival de Cannes.