O presidente Michel Temer fez ontem um apelo formal à Procuradoria-Geral da República, por "celeridade e transparência" nas investigações da Operação Lava-Jato. No documento, o presidente reclamou do vazamento das delações de executivos da Odebrecht, que estariam aprofundando a instabilidade política e que ameaçam a votação do pacote de ajuste fiscal.
"A condução dessas e de outras políticas públicas a cargo da União vem sofrendo interferência pela ilegítima divulgação de supostas colaborações premiadas em investigações criminais conduzidas pelo Ministério Público Federal, quando ainda não completado e homologado o procedimento da delação", diz Temer em petição entregue a Janot pela ministra da Advocacia-Geral da União, Grace Mendonça. Temer destacou que "em situação análoga, vossa excelência suspendeu tratativas de colaboração premiada em prol da higidez do procedimento legal".
Com isso, Temer tenta estancar o vazamento, a conta-gotas, das delações dos executivos da Odebrecht. O Palácio do Planalto avalia que essa estratégia tem o objetivo de fazer o governo "sangrar", ampliando o desgaste de Michel Temer e de seus principais aliados, cujos nomes aparecem nas colaborações premiadas como protagonistas do esquema de corrupção mantido pela construtora.
Além da delação do ex-executivo Claudio Melo Filho, que está circulando livremente, na íntegra, nas redes sociais, também há vazamentos de trechos da colaboração premiada do ex-presidente da Odebrecht Transport Paulo Cesena, que relata doações da empresa para o ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações, Gilberto Kassab (PSD), para Moreira Franco e para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), preso em Curitiba.
A estratégia de reação ao vazamento das delações foi traçada ontem, em várias reuniões no Planalto. A partir do início da manhã, Temer se reuniu com o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, com o secretário-executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Moreira Franco, com o líder do governo no Congresso e presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR) - todos citados na delação de Melo Filho. Ele também se reuniu com o ministro da Justiça, Alexandre de Morais, e depois esboçou o requerimento entregue a Rodrigo Janot com a ministra-chefe da Advocacia-Geral da União, Grace Mendonça.
Em outra frente, para antecipar o anúncio das medidas microeconômicas, Temer adiou as viagens que faria na quinta-feira ao Pará e ao Piauí. Ele quer divulgar as medidas, com potencial para dar fôlego à economia, nesse dia. A visita a uma unidade da Vale em Carajás e a entrega de casas no Piauí ficaram para sábado.
O gesto é uma das ações de recomposição do governo, deflagradas ontem por Temer, que incluem ainda a ampliação do espaço do PSDB e o anúncio antecipado das medidas microeconômicas.
No esforço de reorganização da base, em meio à repercussão das delações da Odebrecht, Temer reuniu-se ontem com o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), e o líder do governo no Senado, Aloysio Nunes (PSDB-SP), para discutir a nomeação de um tucano para a Secretaria de Governo, responsável pela articulação política.
Nessa reunião, Temer reafirmou a intenção de nomear o líder da bancada na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), para o cargo, o que deve ocorrer nos próximos dias.
Temer ouviu dos tucanos que o PSDB não desembarcará da base aliada. "Não vamos fazer nenhum movimento de saída do governo", disse ao Valor o secretário-geral do PSDB, deputado Silvio Torres (SP). "O PSDB não pode simplesmente sair do jogo e enfraquecer o governo, nossa determinação é sustentar a agenda da economia", completou