O Estado de São Paulo, n. 44977, 08/12/2016. Metrópole, p. 26
Por: Daiene Cardoso
Foi instalada ontem na Câmara dos Deputados a comissão especial para analisar a PEC 58/2011, originalmente destinada a discutir a licença maternidade estendida para situações em que a mãe tem bebê prematuro. A comissão foi criada em reação à decisão da 1.ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) de que não é crime o aborto realizado durante o primeiro trimestre de gestação – independentemente do motivo que leve a mulher a interromper a gravidez.
Dominada pela bancada evangélica e por deputados conservadores, os discursos da primeira sessão foram de ataque à posição da 1.ª turma do STF. Em nome da frente parlamentar evangélica, o deputado João Campos (PRBGO) agradeceu a “coragem” do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de reagir ao “ativismo” dos ministros da Corte.
“Mais uma vez o Supremo, em uma atitude de ativismo exacerbado, usurpa o papel desta Casa”, discursou Campos.
O parlamentar disse que o STF invadiu as prerrogativas do Poder Legislativo ao tomar uma decisão “infeliz” e o direito à vida é inviolável. “O Supremo está agindo como se Supremo fosse.” O deputado João Campos é autor de uma PEC – com o exdeputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) –, em análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que visa a inserir no texto constitucional que o direito à vida é inviolável desde o momento da concepção, como defendem religiosos.
Campos fez uma apelo para que a admissibilidade da PEC seja aprovada prontamente na CCJ, para que ela seja apensada na proposta em discussão na comissão especial instalada ontem. “O assunto é correlato e, portanto, é pertinente”, justificou.
PEC da Vida. A comissão, formada por 35 deputados, foi instalada sem a indicação dos representantes das bancadas do PT e do PSOL. A sessão de instalação serviu para definir o comando da comissão. O líder do PV, Evandro Gussi (SP), foi eleito presidente dos trabalhos e indicou o deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP) como relator. “O STF, órgão que todos respeitamos, quando decidiu pela legalidade da interrupção da gravidez, transformou- se de guardião da Constituição em algoz da Constituição”, criticou Gussi.
O presidente da comissão disse que os deputados não abrirão mão de sua “soberania” e se esforçarão para aprovar a “PEC da Vida”.
A criação da comissão não é a única reação da Câmara ao “protagonismo” do STF. Parlamentares ainda tentam votar na CCJ a admissibilidade de um projeto de lei que prevê o crime de responsabilidade para ministros da Corte por usurpação de competência do Poder Legislativo ou do Executivo