No duelo, deu Trump

04/01/2017

 

 

Bastou um tuíte especialmente ácido de Donald Trump para dobrar a maioria republicana na Câmara dos Deputados, no primeiro confronto entre o presidente eleito e a bancada de seu partido no Congresso – a duas semanas da transferência de poder na Casa Branca. No dia em que as duas casas do Legislativo deram posse aos eleitos em novembro e retomaram as atividades, os novos governistas chegaram a aprovar, em eleição secreta, a proposta de esvaziar um órgão independente de supervisão da conduta ética do Legislativo.

No dia em que deputados e senadores voltaram a Washington para tomar posse e iniciar a próxima legislatura, Trump interveio de maneira decisiva, pela rede social para reverter a decisão da bancada republicana de, na prática, deixar sem poderes o Birô de Ética no Congresso. Desafiando os líderes partidários, o deputado pela Virgínia Bob Goodlatte colocou em votação uma proposta que, na prática, significaria eliminar um controle independente sobre a conduta ética dos congressistas e permitir que eles próprios decidissem quando um dos legisladores deveria ser objeto de uma ação legal.

“Realmente, (vocês) tinham que fazer do enfraquecimento desse organismo ético independente, por mais injusto que fosse, sua primeira medida e principal prioridade?”, questionou Trump no Twitter. “Concentrem-se na reforma fiscal, no sistema público de saúde e em muitas outras coisas que são mais importantes!”, acrescentou.

Mais do que a questão em si do organismo ético, estava em jogo a liderança da maioria republicana na Câmara, essencial para que o presidente eleito possa levar adiante seu ambicioso plano de reverter algumas das políticas centrais adotadas nos oito anos de governo do democrata Barack Obama. A iniciativa do congressista da Virgínia e a posição tomada pela bancada mancharam o primeiro dia do presidente reeleito da Câmara, Paul Ryan. Após a dura reprimenda de Trump, porém, a bancada recuou.

Ryan e o líder da maioria no plenário, Kevin McCarthy, da Califórnia, tinham apelado aos correligionários para que aguardassem a retomada dos trabalhos na Câmara e a costura de consenso bipartidário antes de levar a questão a votação. Ryan chegou a resignar-se. “O birô deve continuar a receber queixas do público sobre condutas inadequadas (congressistas) e a investigá-las de maneira independente”, disse o presidente da Câmara. Mais tarde, deputados republicanos admitiram que foi a dura reprimenda do presidente eleito que os convenceu a suspender a votação da medida em plenário, onde a vitória seria segura.

A oposição democrata reagiu prontamente à decisão da maioria de levar em frente o esvaziamento do Birô de Ética. “Os republicanos deveriam levar em conta a força da indignação pública com que se defrontaram”, diz um comunicado da líder da bancada, Nancy Pelosi.

 

 

Correio braziliense, n. 19581, 04/01/2017. Mundo, p. 12.