Título: ONU já vê guerra civil
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 02/12/2011, Mundo, p. 17

Alta comissária para direitos humanos denuncia que regime de Al-Assad matou "muito mais" do que 4 mil pessoas » RODRIGO CRAVEIRO

Enquanto o ditador Bashar Al-Assad prosseguia com a execução desenfreada de opositores, a Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou ontem que a Síria já enfrenta uma situação de guerra civil e estimou o número de mortos no levante pró-democracia em "muito mais do que 4 mil". Somente ontem, 24 civis foram assassinados pelas tropas do regime, incluindo duas crianças — 13 em Hama, nove em Homs, um em Idlib e um em Daraa. "Eu vinha dizendo que, tão logo houvesse mais e mais desertores ameaçando pegar em armas, haveria uma guerra civil", disse Navi Pillay, alta comissária da ONU para Direitos Humanos. "É uma questão de estudar o relatório (da Comissão Internacional Independente de Investigação) e ver a extensão do que eles chamam de forças da oposição, para obter a caracterização de um conflito armado", acrescentou.

Em entrevista ao Correio, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro — presidente da comissão e autor do relatório — deu outra interpretação para a declaração de Pillay. "O que a alta comissária quis dizer foi que a intensificação dos confrontos armados traz o risco de a escalada chegar a uma situação de guerra civil, na medida em que aumentam as ações armadas, por parte dos desertores das forças sírias", afirmou, por e-mail. "Há uma coincidência no que nosso relatório afirma e a avaliação dela."

Mesmo quem está sob fogo cruzado discorda da tese de guerra civil. "A Síria vive a revolução do povo contra a opressão e o assassinato, não um conflito contra um grupo ou seita", disse ao Correio, pela internet, Yazan Homsy, 33 anos, morador de Homs. "A ideia de guerra civil vem sendo fabricada pelo regime de Al-Assad desde o início da revolução da liberdade", acrescentou o morador de Talkalakh, um dos bairros mais afetados pela repressão. Segundo Yazan, tanques e tropas cercam a região desde a noite de quarta-feira. "Os militares a bombardearam o bairro, e casas caíram sobre os moradores. Uma mulher e sua filha morreram assim", contou. "Os soldados usaram alto-falantes para anunciar que, caso a cidade não se renda, eles a transformarão em cinzas", emendou.

Na opinião da síria Dima Moussa, porta-voz do Conselho Revolucionário de Homs, as únicas pessoas que desejam lutar do lado do governo são os shabihas. "São civis armados pelo regime, para matar cidadãos", explicou à reportagem. Ela acusa Al-Assad de instigar o temor de uma guerra civil. "A revolução é sectária", justifica. Para analisar as denúncias, o Conselho de Direitos Humanos da ONU realizará hoje uma sessão de emergência, em Genebra. "Há a necessidade de processar os culpados nos mais altos níveis de crimes contra a humanidade", declarou Pillay. O encontro foi pedido pelos 28 países-membros do Conselho e por 40 Estados observadores, incluindo o Brasil, que não tem poder de voto.

Reação A União Europeia (UE) reforçou as sanções contra os setores financeiro e energético da Síria. As medidas incluem o congelamento de bens e a proibição de viagens a 12 indivíduos e a 11 empresas ligadas ao regime. "A UE reitera sua condenação, nos mais fortes termos, da brutal repressão exercida pelo governo sírio, que arrisca colocar a Síria em um caminho muito perigoso de violência, lutas sectárias e militarização", afirmou comunicado dos chanceleres do bloco. Em represália, Damasco suspendeu a participação na União do Mediterrâneo — criada em 2008, para ampliar a cooperação entre Europa, Oriente Médio e África do Norte.