Título: Maioria islâmica
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 02/12/2011, Mundo, p. 16
Na primeira eleição democrática, partido organizado pela Irmandade Muçulmana lidera apuração e descarta radicalismo
» Renata Tranches
Na expectativa de ter uma grande vantagem confirmada nas primeiras eleições livres do Egito, os partidos islâmicos — especialmente o Liberdade e Justiça — já alteram a política externa e a dinâmica das relações dos países da região. Semelhante ao que ocorreu na Tunísia, também em transformação impulsionada pela Primavera Árabe, esses partidos foram proibidos de atuar sob o regime autoritário de Hosni Mubarak, mas souberam se organizar e se preparar para saírem fortalecidos em um processo eleitoral democrático. As primeiras mudanças já são percebidas e têm, como consequência imediata, um maior isolamento de Israel. Antes da revolução, o Estado judaico tinha o Egito como principal aliado no mundo árabe.
Adiados duas vezes, os resultados da primeira etapa de votação para a Câmara Baixa (Assembleia do Povo) devem ser divulgados hoje. Prognósticos apontavam que o Liberdade e Justiça, partido criado pela Irmandade Muçulmana, obteria entre 40% e 50% dos votos. O salafista Al-Nur, orientado por uma corrente mais rígida do islã sunita, pode conquistar até cerca de 15%. Caso o resultado se confirme e se repita nas próximas duas etapas do processo eleitoral que segue até janeiro, o novo parlamento egípcio poderá ter maioria absoluta islâmica.
Grande conhecedor e respeitada autoridade no mundo árabe, o embaixador brasileiro no Cairo, Cesário Melantonio Neto, descarta a possibilidade de o cenário abrir um precedente para um governo radical islâmico no Egito, mas aponta, em entrevista ao Correio, que a guinada política já produz efeitos na região. O primeiro deles é o isolamento ainda maior de Israel. Em artigo publicado ontem pelo New York Times, o escritor Thomas Friedman destacou que Israel enfrenta o maior desgaste de sua situação estratégica desde sua fundação, e a revolução do Egito é um dos principais elementos para esse cenário.
Criticado por assinar os tratados de paz com Israel no fim da década de 1970, o Egito, sob o governo de Anwar Al-Sadat, passou a ser visto com desconfiança pelo mundo árabe. Ao lado da Jordânia, é o único a reconhecer o Estado hebraico, entre as 22 nações árabes. Com Hosni Mubarak, os laços com Israel e com o Ocidente, principalmente com os Estados Unidos, ficaram ainda mais estreitos. "Desde a revolução em janeiro, o cenário (no Egito) mudou completamente", afirma Melantonio.
Confiança retomada O embaixador destaca a questão da Palestina como um claro exemplo da transformação. "Mubarak não dava nenhum tipo de ajuda aos palestinos de Gaza. Ao contrário, a passagem com Gaza era mantida fechada e ele até bombardeava os túneis", lembra, se referindo à fronteira entre o Egito e o território palestino da Faixa de Gaza — sob o bloqueio de Israel desde que o movimento fundamentalista islâmico Hamas assumiu o poder após as eleições na região, em 2006 . Depois da queda do presidente egípcio, em 11 de fevereiro, a passagem com Gaza foi reaberta.
Outra prova da reconquista da credibilidade egípcia entre os palestinos foi a mediação de uma reunião entre o Hamas e o partido Fatah, que controla a Cisjordânia. O encontro foi realizado no Cairo, durante a tensa semana que antecedeu a votação no Egito. Mesmo com os distúrbios na Praça Tahrir, o diálogo foi mantido e produziu frutos. Rompidos desde 2007, os líderes palestinos dos dois lados anunciaram ter reduzido suas diferenças e aberto uma "nova página" nas relações. "Os egípcios recuperaram a centralidade nas negociações entre o Hamas e o Fatah", declarou o embaixador. A aproximação com uma identidade islâmica não significa uma radicalização de um futuro governo — é o que garantem os partidos com essa tendência. O Liberdade e Justiça tem procurado se afastar de discursos radicais. Segundo o partido, suas bandeiras, assim como a dos salafistas, são o combate à desigualdade social e à corrupção.
Anistia aponta repressão saudita A organização humanitária Anistia Internacional denunciou ontem o aumento da repressão a dissidentes na Arábia Saudita, monarquia semiabsoluta que até o momento passou incólume às turbulências da Primavera Árabe. Um relatório de 73 páginas acusa o regime saudita de encarcerar centenas de ativistas e intelectuais que se movimentaram a favor de reformas políticas nas províncias petrolíferas do leste do país, onde se concentra a população da minoria religiosa muçulmana xiita.
Três perguntas para Cesario Melantonio Neto - embaixador do Brasil no Egito
O senhor acredita que o Egito seguirá o modelo do Irã ou da Turquia? São modelos bem distintos. É possível que o exemplo a ser seguido pelo Egito seja mais parecido com o turco, nunca o iraniano. Mas não se sabe se será exatamente como o modelo turco, pela questão dos militares.
Como eles diferem? Na Turquia, o presidente e o primeiro-ministro conseguiram afastar totalmente os militares do poder e subordiná-los ao poder civil. Isso ainda precisa ser feito no Egito. Aliás, depois desse processo eleitoral, o grande desafio para o novo governo será fazer os militares voltarem a ter o papel que lhes cabe em todas as democracias.
Os militares queriam inclusive escolher os constituintes? Eles queriam escolher 80 entre os 100 constituintes. O problema não era só adiar a eleição, mas redigir a Constituição de maneira que desse a eles imunidade e impedisse um julgamento por corrupção. Até agora, só há civis na cadeia. Nenhum militar foi preso ou julgado, embora estejam no poder há tantas décadas.