Título: Nem puxadinho resiste em aeroporto
Autor: Campbell, Ullisses
Fonte: Correio Braziliense, 03/12/2011, Economia, p. 16
Parte do teto do novo terminal de Guarulhos vem abaixo meia hora antes de o presidente da Infraero anunciar a inauguração » » SÍLVIO RIBAS
São Paulo e Brasília — Desabou ontem o desejo do governo de concluir o novo terminal remoto do Aeroporto de Garulhos (SP) a tempo de desafogar o movimento recorde de fim ano. Uma parte do anexo em construção, cuja conclusão está prevista para 20 de dezembro, veio ao chão no início da tarde de ontem. Ironicamente, meia hora antes, o presidente da Infraero, Gustavo do Vale, anunciava a inauguração do espaço. Dois operários se feriram no acidente. Emblemática, a situação simboliza o improviso nas obras dos aeroportos brasileiros. Uma semana antes, sob o argumento da proximidade do Natal, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, havia cobrado publicamente mais rapidez na obra tocada em regime de urgência em Guarulhos, sem licitação, pela Delta Construções S.A.
A empreiteira fluminense informou que o acidente envolveu apenas "parte da estrutura auxiliar de sustentação dos dutos de ar-condicionado" do futuro terminal de passageiros domésticos. A Delta ressaltou também que os acidentados tiveram ferimentos leves, sendo logo atendidos pelo Corpo de Bombeiros. Mas apesar de a obra ter sido retomada em seguida, a empresa avisou que a data da inauguração poderá ser reavaliada. A Infraero constituiu comissão para apurar as causas do desabamento e Vale disse que só vai se pronunciar quando "estiver a par do que realmente ocorreu".
Construído onde havia um hangar da falida Vasp, o novo terminal não tem ligação física com o restante do aeroporto, distante dois quilômetros dos dois terminais já existentes. O projeto terá área de 12,2 mil metros quadrados e absorverá R$ 85,7 milhões em investimentos. A obra sem licitação foi contratada em julho e chegou a ser interrompida em setembro por ordem da Justiça Federal. A Infraero e a Advocacia-Geral da União (AGU) defenderam a ausência de licitação, alegando urgência gerada pela proximidade da Copa do Mundo de 2014. O contrato previa a entrega da obra em seis meses.
A dispensa de licitação, segundo a estatal, foi para evitar o "caos aéreo" este ano e atender à demanda existente. Dias depois, o Tribunal Regional Federal (TRF-SP) determinou a retomada por entender que a obra tem caráter emergencial e que a interrupção traria "grave lesão ao Estado e aos usuários do transporte aéreo". Também em setembro, os auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) questionaram a decisão da Infraero de escolher a Delta. Em relatório, eles alertaram para a "falta de comprovação de capacidade técnica da empresa contratada para a execução do objeto contratado".
Reclamações O último balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), até setembro, estimava que a construção do terminal só seria encerrada em 23 de janeiro. Mas o Palácio do Planalto havia decidido que algumas companhias já poderiam iniciar suas operações no local, que seria inaugurado parcialmente, ainda este mês. Quando estiver pronto, o espaço terá capacidade para atender 5,5 milhões de pessoas por ano e estacionamento próprio com 600 vagas. A capacidade de fluxo do aeroporto de Guarulhos é de 26,5 milhões de passageiros por ano.
Irritado com o apelido de "puxadinho" dado ao terminal remoto, o presidente da Infraero ressaltou que o anexo era "de verdade" e seu planejamento já estipulava um aumento gradual da operação do terminal. Vale não soube precisar quantos passageiros seriam atendidos na primeira etapa. Segundo ele, a lista de empresas aéreas que irão para a instalação remota ainda não estava fechada, pois essas companhias terão de montar lá todo os seus sistemas. Mas a previsão é que as líderes TAM e Gol operem lá.
Desde que um terminal semelhante começou a funcionar, no primeiro semestre, o número de reclamações aumentou na Infraero, já que os passageiros são levados da sala de embarque em ônibus lotados para outro terminal, em que têm que esperar por outro ônibus que os leve até a aeronave. "Esses puxados são tão mal estruturados quanto uma rodoviária de subúrbio", reclamou ontem a advogada Helena de Fátima Schroeder.
O botânico Nathaniel Ramagem viaja semanalmente para Brasília e, desde que passou usar o "puxadinho", chega atrasado aos compromissos na capital federal. "Ano que vem, passarei a ir com um dia de antecedência", planeja. Quando soube do desabamento, ele ficou preocupado e criticou o açodamento da Infraero.