O Estado de São Paulo, n. 45016, 16/01/2017. Política, p. A4

Alckmin quer prévias antes do limite de torca partidária

 

Pedro Venceslau

 

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, reagiu à manobra do senador Aécio Neves (MG), que prorrogou o seu mandato no comando do PSDB até maio de 2018. O paulista passou a defender que eventuais prévias para a escolha do candidato tucano à Presidência sejam realizadas em dezembro deste ano ou, no máximo, até janeiro de 2018.

Assim, caso não se viabilize no PSDB, Alckmin poderá aproveitar o período que permite a troca partidária – até seis meses antes da eleição.

O limite legal para o governador renunciar ao cargo para ser candidato é o dia 4 de abril. Aliados dizem que ele não quer chegar até lá sem ter certeza que será o nome escolhido pelo PSDB.

Se optar por deixar o partido para concorrer por outra legenda – o PSB já sinalizou que aceitaria lançá-lo –, Alckmin teria de trocar de agremiação até abril. Segundo correligionários do governador, a defesa de uma eleição interna no molde das primárias norte-americanas será feita “com entusiasmo” por seu grupo político, mas o cenário ideal é evitar o confronto.

As prévias são, na verdade, um elemento de pressão sobre Aécio e o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que também está na fila. Ex-adversários internos, Aécio e Serra se uniram para barrar o avanço do governador paulista, que saiu politicamente fortalecido das eleições municipais.

Aécio, Serra, o presidente Michel Temer e o ministro das Comunicações, Gilberto Kassab, que preside do PSD, esperam escolher dentro do grupo um candidato para 2018. Já Alckmin mantém distância do Palácio do Planalto e pretende permanecer assim no ano da eleição.

No atual cenário partidário, o senador mineiro tem ampla maioria na executiva do PSDB e mais influência nos diretórios estaduais.

Para reverter esse quadro, Alckmin contará em 2017 com uma força-tarefa multipartidária que será responsável por nacionalizar sua agenda, ampliar a relação com o Congresso, construir pontes com dirigentes regionais e atrair governadores para o projeto de uma candidatura presidencial independente do governo federal.

Nordeste. O projeto já está em campo. O principal articulador do governador é seu vice, Márcio França (PSB). Foi ele quem escalou o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI) para coordenar a ação no Nordeste. Um dos primeiros movimentos foi aproximar o governador do prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), que historicamente é mais próximo de Aécio.

Na Bahia, Alckmin conta hoje com o apoio do deputado João Gualberto, presidente do PSDB estadual. Em dezembro ele reuniu prefeitos baianos para um encontro em Salvador com o governador paulista. O Estado é considerado estratégico porque os dois tucanos mais influentes da região – Antonio Imbassahy e Jutahy Jr – são ligados, respectivamente, a Aécio e Serra. Pernambuco e Paraíba, dois Estados governados pelo aliado PSB, também estão no foco.

Depois de visitar Pernambuco em outubro, Alckmin fez uma cerimônia em dezembro no Palácio dos Bandeirantes para assinar um termo de cessão de bombas utilizadas na captação de água do volume morto do Sistema Cantareira ao governo pernambucano e à Paraíba. Em 2017, o roteiro do paulista vai incluir esses dois destinos.

Se ainda está em minoria na executiva e na bancada tucana, Alckmin está hoje mais próximo dos cinco governadores do partido, em especial Marconi Perillo, de Goiás, e Beto Richa, do Paraná, ambos entusiastas das prévias partidárias.

Inaugurações. Depois de dois anos sem entregar obras relevantes – a última estação aberta do metrô foi a Fradique Coutinho, em novembro de 2014 –, Alckmin planeja um cronograma de inaugurações em 2017. A programação prevê a entrega de 11 novas estações do metrô, nove da extensão da Linha 5- Lilás e outras duas da Linha 4- Amarela.

As maiores obras de abastecimento do Estado dos últimos anos estão previstas para 2017. São elas a transposição do Rio Paraíba do Sul para o sistema Cantareira e novo sistema produtor São Lourenço, previsto para outubro. Em 2018, ano da eleição, o tucano pretende entregar o trecho norte do Rodoanel e os contornos da Nova Tamoios, no litoral norte. Todas elas são obras que já deveriam ter sido inauguradas.

O discurso “tipo exportação” de Alckmin já está pronto. Enquanto Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro vivem uma situação financeira dramática e o Brasil tem déficits fiscais há três anos seguidos, São Paulo teve superávit fiscal nos últimos três anos.

A principal sombra sobre o projeto de poder de Alckmin é a Operação Lava Jato. Seu nome teria sido citado na delação de um ex-executivo da Odebrecht como destinatário final do repasse de R$ 2 milhões para campanhas em 2010 e 2014, via caixa 2.

 

PARA LEMBRAR

Revés no próprio ninho

Na semana passada, o diretório estadual do PSDB contrariou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e desistiu de eleger uma nova direção para a legenda no Estado. Foi um movimento interno para tentar frear o fortalecimento do PSB do vice-governador Márcio França na sucessão ao Palácio dos Bandeirantes em 2018. O deputado Pedro Tobias teve o mandato renovado na presidência do partido em SP. Com isso, prevaleceu também na base de Alckmin a medida tomada em nível nacional pelo senador Aécio Neves (MG).

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Governador busca nacionalizar alianças consolidadas em SP

 

Pedro Venceslau

 

Para conseguir um palanque presidencial em 2018 mais forte do que teve em 2006, quando disputou contra Luiz Inácio Lula da Silva com apenas dois partidos além do PSDB – o PPS e o PFL –, o governador Geraldo Alckmin tentará nacionalizar as alianças partidárias que dão sustentação ao seu governo em São Paulo, elegeram João Doria na capital e estão acomodadas nas duas máquinas.

O tucano, que já conta com retaguarda do PSB, é hoje o presidenciável mais próximo do PV. José Luiz Penna, presidente nacional da sigla, será nomeado secretário de Cultura de São Paulo na reforma do secretariado, que deve ser feita em fevereiro. Antes de ser chamado por Michel Temer para ser ministro da Cultura, o presidente do PPS, Roberto Freire, assumiu uma vaga de deputado graças a Alckmin.

O governador nomeou Arnaldo Jardim na Agricultura e assim abriu caminho para Freire, que era suplente. Alckmin vai disputar o PPS com a frente formada por Aécio Neves, José Serra, Michel Temer e Gilberto Kassab, que além de ministro é presidente do PSD. Dirigentes de nanicos como PHS e o PMB também foram acomodados no governo.

O secretário estadual de Habitação, Rodrigo Garcia, que é deputado federal licenciado, será encarregado de promover o governador no DEM e aproximá-lo da bancada. Partidos do Centrão, o PP e o PR também são aliados do governador em São Paulo e de Temer no Palácio do Planalto. Esse “pacote” partidário foi o responsável por garantir a João Doria o maior tempo de TV na disputa municipal.